Escolher uma profissão é uma das decisões mais angustiantes que os jovens precisam fazer. No Brasil, ao contrário de países como os EUA, o jovem precisa escolher seu curso superior logo de cara ao sair do ensino médio e a pressão e falta de visão acaba cegando-os e conduzindo muitos a tomarem decisões das quais se arrependem amargamente mais tarde.

Hoje vou postar um relato de uma querida amiga que fez administração de empresas comigo lá nos idos dos anos 90 (sim, nós somos velhos! hehe) e hoje está se preparando para prestar vestibular para medicina. Ela compartilha seus medos, frustrações e insights aqui conosco:

Meu nome é Mariana Chaves. Na época do pré-vestibular eu “achava” que queria fazer direito, meio que por não saber o que fazer. Eu nunca tive uma boa razão para querer essa área. No segundo ano do ensino médio (que na minha época era Segundo Grau!) eu comecei a trabalhar meio período em uma clínica de psicólogos e me apaixonei pela profissão. Durante praticamente o ano todo, eu achei que quando chegasse a hora eu me inscreveria para fazer psicologia. Mas não sei por que cargas d’água, um pouquinho antes da inscrição para os vestibulares no ano seguinte, eu comecei a achar que administração de empresas era meu “sonho”. Não sei daonde eu tirei isso, porque nunca tinha “sonhado” em fazer administração, mas quando a gente tem 17, 18 anos, 1 mês já é “sonhar a vida inteira”! Eu comecei a me interessar pelo mundo dos negócios, assinei a revista Exame, comecei a assistir noticiários, me interessei pelo mercado financeiro, economia… Meus pais estranharam muito, já que eu nunca havia dado nenhuma deixa de que essa era a minha área. Ambos tentaram me persuadir a escolher uma “profissão sólida”, esse era o termo que eles usavam. Meu pai sugeria odontologia, direito, engenharia. Minha mãe não entendia porque eu desisti tão de repente da psicologia. Mas eu fui teimosa. Eu estava muito ligada nessas notícias do mundo dos negócios e economia, achava que tinha finalmente encontrado a minha “paixão”. Eu também pensava que meu “sonho” seria abrir minha própria empresa, então que curso seria melhor para me preparar do que administração?

Bom, passei em uma boa universidade e comecei o curso. O primeiro ano foi tranquilo. Eu estava mais preocupada em me ambientar e fazer amigos do que verificar se o curso era “tudo aquilo” que eu tinha imaginado. Foi só no segundo ano que a “coceira no pé” começou a me incomodar. De repente, aquelas matérias deixaram de fazer sentido pra mim. Matemática financeira? Estatística? Cálculo? Ui! Eu cheguei a parar de ir pra aula e quase tranquei a matrícula. Fiquei em casa por alguns dias, meus pais tagarelando na minha cabeça pra eu desistir mesmo e ir fazer um curso que “preste”. Mas eu não via luz no fim do túnel. Meu pai, com sua imensa capacidade persuasiva, nessa fase, queria muito que eu fizesse direito. Nesses dias em casa, sem ir pra aula, eu realmente comecei a pensar seriamente em trancar a matrícula e fazer um novo vestibular para direito. Hoje, olhando para trás, eu não me arrependo de não ter seguido a dica do meu pai. Administração foi ruim? Foi! Mas direito teria sido muito pior! Mais sobre isso a seguir!

Não sei como consegui terminar os 4 anos de curso. A partir daquele segundo ano, eu já não tinha mais qualquer interesse pela área de administração. Nada. Neca. Niet. Aquela curiosidade toda sobre o mercado financeiro, economia, mundo empresarial? Isso já tinha morrido há muito tempo. Eu nem queria mais ouvir falar de negócios. Ah, e não aprendi nadinha sequer para futuramente montar minha própria empresa! Ledo engano quem acha que ensinam “isso” em administração! O curso todo é moldado para formar empregados de grandes empresas e bancos e ainda assim, depois de conseguir um emprego, você vê que não vai aplicar nada do aprendeu. Pra que fazer faculdade, então?!

Tá, eu meu formei, aos trancos e barrancos, mas cheguei lá. Nem fui na minha própria formatura de tão desencantada que eu estava. Meu primeiro emprego foi em uma multinacional, dessas que todo mundo sonha em trabalhar. O ambiente era legal, os colegas bacanas, o chefe amigável, mas meu coração não estava lá. Mas a vida continua né gente! Nós fazemos besteira e daí fazemos ainda mais besteiras para complicar ainda mais a nossa situação! Pois é, eu me casei e logo fiquei grávida. Aí não dava mais para ficar reclamando de nada. Eu tinha responsabilidades, tinha contas pra pagar. O jeito era calar a boca e trabalhar direitinho para crescer na carreira e melhorar a qualidade de vida da minha família. Eu até mesmo cheguei a pensar que já que “agora eu tinha uma família, eu não precisava mais trabalhar”. Meu marido tinha feito um “curso de verdade”, engenharia civil e estava crescendo muito bem na carreira dele. Dito e feito. Depois que meu filho nasceu, eu saí da empresa e curti meus anos de maternidade na tranquilidade do meu lar. Eu vivi muito feliz por um bom tempo. Tive outro filho. Era uma dona de casa dedicada, porém obnubilada. Eu não conseguia enxergar que minhas atitudes estavam culminando em um possível destino cruel a seguir.

Resumindo, meu marido me traiu, me largou e eu me vi sozinha, com dois filhos pra cuidar e sem uma “profissão de verdade”. Eu já tinha 28 anos. Voltei para a casa dos meus pais. Meu ex-marido, é claro, sempre pagou pensão, mas isso nunca foi suficiente para que eu sobrevivesse em São Paulo, não com a qualidade de vida que eu estava acostumada. Minha mãe me incentivou a pegar um emprego, já que eu tinha feito o curso “dos empregos”, segundo ela. “Administração é pra trabalhar em empresas”, ela dizia. Tendo passado tanto tempo sem trabalhar e só tendo uma experiência curta de recém formada para mostrar em meu currículo, eu não consegui nada muito espetacular. Novamente, lá eu estava, em um ambiente corporativo, lidando com colegas, supervisores, direitores, metas, planilhas… Mais uma vez eu tive sorte de achar um emprego legal, em uma empresa que trata bem seus funcionários (nem todo mundo tem essa sorte, eu sei!), mas eu estava me sentindo completamente miserável. Eu não tinha mais qualquer sombra de interesse pela área e tinha a nítida impressão que mesmo se pudesse crescer na profissão, o limite seria muito baixo.

Eu mantinha contato com meus ex-colegas de faculdade, pessoas que nunca pararam de trabalhar desde o final do curso e você acha que eles estavam muito melhores do que eu?! Não, não estavam! Alguns poucos haviam conquistado posições de destaque em grandes empresas e bancos, mais por questões de contatos de família, networking pessoal e personalidade. Alguns tinham aberto suas próprias empresas, e muitos desses “alguns” acabaram falindo múltiplas vezes.

Nessa idade, você já começa a ver os frutos das escolhas feitas no vestibular nos colegas de escola. Os engenheiros (em qualquer área) estavam todos tranquilos, bem de vida, assim como os arquitetos. Os advogados estavam se lascando, alguns poucos (muito pouco mesmo) estavam se dando bem, a maioria estava correndo atrás de concursos públicos ou “se ferrando” trabalhando em escritórios. Os médicos estavam na fase inicial da carreira, após terminar suas respectivas residências, estavam montando seus consultórios ou trabalhando em hospitais, dando duro, mas felizes, realizados. Os jornalistas, em sua maioria, já tinham mudado de profissão. Os que fizeram cursos de ciências puras (biologia, química, física, matemática) não conseguiam fazer nada além de dar aulas em colégios e cursinhos. Os psicólogos estavam divididos entre aqueles que conseguiram abrir seus próprios consultórios, e assim como os médicos, estavam a caminho de uma carreira saudável e próspera e os que trabalhavam em departamentos de RH em empresas, sofrendo como os formados em administração. Os publicitários, muitos já viciados em anfetaminas e remédios para dormir, pulavam de agência em agência, reclamando dos chefes exigentes e clientes chatérrimos.

Eu sabia que queria mudar, mas tinha muito medo. Fazer o quê? Que curso? Abrir uma empresa já que eu tinha feito administração? Meu pai me ajudou a abrir uma empresa. Trabalhamos muito, vendíamos produtos online, feitos em casa e enviados pelo correio. Meu conhecimento em administração? Acredite se quiser, não ajudou em absolutamente nada! A empresa dava um bom dinheiro para que eu melhorasse a nossa qualidade de vida e elevasse a minha autoestima, mas eu trabalhava demais fazendo algo totalmente inócuo, meu coração não estava lá. Eu era uma máquina. Fazia os produtos, postava online, enviava para os compradores. Era tudo automático, eu não tinha o menor gosto no estava fazendo.

Os anos se passaram. Os resultados das escolhas no passado começaram a ficar ainda mais evidentes. Depois dos 35, você começa a ver quem deu certo na vida e quem fracassou. É triste concluir que a escolha no vestibular tem um papel fundamental nesse resultado. Há carreiras promissoras e carreiras que são verdadeiras armadilhas. As pessoas escolhem suas profissões com base em fetiches e paixõezinhas de adolescência e depois se deparam com um mercado de trabalho completamente diferente do que imaginaram.

Em todas as carreiras é possível observar sucesso estrondoso, mas eu aconselho o leitor a pensar em termos de estatísticas. Veja a realidade do mercado, não o sonho, não a exceção. A probabilidade de que você seja uma exceção é muitíssimo pequena, não aposte a sua vida nisso! Meus colegas que fizeram jornalismo, por exemplo, caíram nessa armadilha. O sonho de ser apresentador de TV, noticiário, escrever para um grande jornal, entrevistar celebridades. A realidade que eles encontram depois de formados é bem diferente. TODOS os meus colegas, amigos, vizinhos e conhecidos que fizeram jornalismo se arrependem! Isso nos diz alguma coisa sobre essa área, não?! Paixão é uma coisa relativa. É possível fazer algo que você gosta em uma área que lhe dê pelo menos chances de ter uma vida digna. Não adianta nada se formar em algo que você “acha que você gosta” quando tem 18 anos para depois não conseguir colocar comida na mesa. Eu vou te dizer uma coisa muito séria: a infelicidade de não ter dinheiro para pagar suas contas e fazer as coisas que você deseja fazer, dar uma vida digna para seus filhos, é muito maior do que qualquer “gosto” por uma atividade. Isso morre quando você se vê desiludido com a profissão.

Assim como jornalismo, publicidade é outra grande armadilha. Os jovens têm essa ideia ilusória de que eles vão se formar em publicidade e então vão participar ativamente da criação de peças publicitárias famosas, comerciais de TV, capas de livros. Muita gente que gosta de fotografia sonha em fazer publicidade, porque vê uma “semelhança” entre os interesses. Pura ilusão!

Direito talvez seja a maior das armadilhas. É uma das profissões clássicas e “muito respeitada”, mas é muito, muito difícil mesmo vingar na profissão. Vários colegas que fizeram direito acabaram mudando de profissão ou amargam carreiras estagnadas. Alguns poucos cresceram e gozam do status da profissão.

Em conversas intermináveis com vários amigos e colegas, nós chegamos à conclusão de que existem algumas poucas profissões realmente seguras, cujas estatísticas de sucesso de longe superam a probabilidade de fracasso. As duas que encabeçam essa lista são medicina e engenharia (menos ambiental!), seguidas de perto por odonto, veterinária, e arquitetura. Em um nível mediano temos contabilidade, fisioterapia, farmácia, psicologia e nutrição. Nesse nível, o sucesso depende mais da pessoa ter capacidade empreendedora, como para montar seu próprio consultório no caso de psicologia, nutrição e fisioterapia, escritório de contabilidade ou abrir uma farmácia própria. Temos colegas bem sucedidos nessas profissões, como temos colegas que não se encontram, perdidos e falidos. Direito, publicidade, administração, design e ciência da computação é meio à meio, tem pessoas que conseguiram vingar bem e outras que hoje, perto dos 40, ainda não sabem o que fazer com sua formação universitária. Áreas como letras, ciências puras (matemática, biologia, química, física), geografia, geologia, história, pedagogia, turismo, economia, educação física, biomedicina (que não tem absolutamente nada a ver com medicina!), artes visuais, agronomia, estatística, gestão da informação e tudo quanto é curso obscuro que você vê disponível por aí não servem para nada. Dar aulas? Sim, se é isso o que você quer fazer. Mas para dar aulas, você não precisa fazer um desses cursos! Um engenheiro pode dar aulas de matemática, física, química (dependendo da engenharia), estatística, dentre outras matérias específicas. O cara formado em matemática não pode fazer o que o engenheiro faz, ele só pode dar aulas!

Em minhas conversas com meus colegas uma coisa ficou muito clara: não vá atrás dos seus “gostos”! Gostos por matérias na escola ou atração por uma área específica. Isso foi o que me levou para administração, o que levou vários colegas para publicidade e propaganda, outros para jornalismo, colegas que gostavam de línguas que foram fazer letras, outros que gostavam de humanas em geral e foram fazer direito. Paixão, fazer o que você gosta não é isso! Gostar do tema do curso é inútil. Depois de formado, o que conta é ter perfil para realizar a atividade em si!

Foi assim que eu cheguei na medicina! Eu nunca gostei de trabalhar em escritório. Lidar com metas de empresa, chefe cobrando, colegas competindo uns contra outros por coisas idiotas. Eu sempre tive uma atração pela área da saúde, um interesse genuíno em ajudar as pessoas a diagnosticar problemas de saúde, descobrir como solucioná-los, acompanhar a recuperação de alguém que está doente. É engraçado que eu nunca tinha notado que eu tinha esse perfil até que uma tia, vendo a minha agonia com a minha profissão, me disse: “você não gostaria de ter um consultório? Lidar com um paciente de cada vez? Você é tão boa em “adivinhar” os problemas de saúde que a gente tem. Gosta de procurar soluções e dar conselhos sobre como a gente deve cuidar da saúde. Por que não faz medicina?!”

Na hora, eu dei de ombros. Meus Deus, imagina, fazer medicina! Na minha idade, com filhos já quase na época de entrar em uma faculdade, seria loucura. É um curso integral, eu não poderia trabalhar e contando o tempo para estudar para o vestibular, curso de 6 anos, mais residência, é praticamente uma década de dedicação para depois começar a construir uma vida como médica. Essa conversa e esse raciocínio já fazem 6 anos! Eu esperei chegar no fundo do poço para que eu tivesse a coragem de tomar uma decisão. Meu filho mais velho vai fazer vestibular comigo. Estamos fazendo cursinho juntos. Ele vai tentar medicina e o mais novo, daqui 2 anos, tentará engenharia, seguindo os passos do pai.

Mas por que eu tomei essa decisão? Porque a minha profissão é um beco sem saída. Eu não tenho perfil para crescer no mundo corporativo (capacidade de liderança, persuasão, dinamismo, tudo aquilo que você precisa ter para vingar em um ambiente ultra competitivo). Não, eu não sou assim. Eu sou quieta, na minha, reservada. Gosto de estudar, de analisar as coisas, de conversar com pessoas, uma a uma, tentando descobrir como posso ajudá-las da melhor forma possível. Psicologia teria sido uma decisão feliz para mim e eu me arrependo de ter mudado de ideia naquela época, mas hoje, acredito que vou tentar medicina mesmo. Se eu não passar no vestibular por 2 anos seguidos, combinei com meus filhos que vou então tentar psicologia.

A minha dica mais séria para o aluno pensando em qual curso fazer é pensar em seu próprio perfil. Se eu tivesse me atentado para isso naquela época, não teria desistido de psicologia ou até mesmo teria considerado medicina. Administração nunca teve nada a ver comigo, nem naquela época, mas eu era ingênua demais para perceber. Pense no dia-a-dia da profissão, não no conteúdo das matérias do curso! Procure saber o que cada profissional faz no cotidiano. Hoje com a internet, que eu não tinha na minha época, você tem a grande vantagem de poder ler sobre as experiências de profissionais já formados, suas frustrações, suas alegrias, suas realizações, seus medos. Evite pensar em extremos, como pessoas famosas na profissão ou as coisas “legais” que você pode fazer em cada carreira. Avalie estatisticamente suas probabilidades de sucesso e nunca faça uma escolha apostando que você será uma exceção. A matemática está contra você! Pense sempre: se eu não for uma exceção, se eu acabar sendo um profissional mediano, eu vou me sentir realizado e confortável realizando essas atividades?

Eu concordo com a Mariana em gênero, número e grau! Nós fizemos administração juntos, como eu mencionei e eu também me arrependo de ter feito esse curso. Minha carreira na área educacional (faço seleção de alunos em cursos de mestrado e doutorado nos EUA) não tem nada a ver com o curso que eu fiz, nem o curso me ajudou a conseguir os diversos empregos que eu já tive em grandes universidades como Harvard e Oxford. Tive que corrigir meu rumo fazendo mestrado e tive sorte de conseguir entrar nessa carreira que é bem seletiva. Se eu pudesse voltar no tempo, faria engenharia química (nada a ver com o que eu faço, né!), mas é uma profissão sólida que me daria uma carreira fazendo algo que gosto que é a área bioquímica e biotecnológica.

Se você é aluno de ensino fundamental e médio e ainda tem chance de fazer a escolha certa, guarde esse artigo e reflita bem sobre esse assunto. Procure afastar os mitos e as ideias fantasiosas sobre cada profissão. No dia-a-dia das atividades de cada profissional, o que importa mais, como a Mariana disse, é ter perfil específico para fazer aquilo, não um gosto específico pela área (como gostar de biologia ou de matemática). Eu tive vários colegas de ensino médio e cursinho que cederam às pressões dos pais e fizeram cursos que inicialmente eles “não tinham nada a ver”, mas resultariam em profissões sólidas. Todos eles, sem exceção, ou melhor, com exceção dos que fizeram direito, estão super felizes e realizados. Como a Mariana disse, direito tem potencial para ser uma profissão maravilhosa, se você tem perfil, se não tem, ela se torna uma maldição. Medicina e engenharia, além dos outros cursos que a Mariana citou como “segundos da fila”, odonto, veterinária e arquitetura, não conheço um só profissional que diga que se arrepende, que é “infeliz” e que quer mudar de carreira!

É muito importante entender que o “gostar de fazer o que você faz” tem muito mais a ver com o dia-a-dia da profissão do que a natureza da mesma. Eu acho que já citei aqui o caso da minha amiga de ensino médio, muito louquinha, festeira, odiava matemática e física, mas acabou seguindo o conselho dos pais e foi fazer arquitetura. Os colegas todos diziam que ela não ía passar do primeiro ano (ela chegou a reprovar em matemática no ensino médio). Hoje ela é uma arquiteta formada, podre de rica, feliz da vida com a profissão de decoradora de interiores. Ela não lida com matemática, nem física no dia-a-dia. Aliás, a maioria dos arquitetos não lida diretamente com cálculos, já que há softwares que fazem os cálculos.

Pense sempre em como é a vida do profissional na carreira que você pensa em seguir, em quão segura é a profissão, não nas matérias que você vai estudar na faculdade. Também afaste ideias ilusórias sobre como “deve ser” a vida em determinadas profissões. Jornalismo não vai levá-lo a entrevistar celebridades ou trabalhar na Globo; turismo não vai proporcionar a oportunidade de viajar o mundo; administração não vai ensinar como ser empreendedor e abrir sua própria empresa; como publicitário você não vai criar comerciais de TV.

Deixe as ilusões de lado e procure ler relatos de gente que já está na profissão, e principalmente, leia os relatos dos arrependidos! Você pode acabar encontrando muitos relatos positivos, escritos por profissionais numa tentativa de explicar para os pré-vestibulandos como é o dia-a-dia da profissão. Esses relatos podem ser um pouco otimistas demais. Ler as opiniões de quem mudou de ideia e desistiu ou quer desistir revela as dificuldades e podres da profissão. Não que você vá fazer uma escolha baseada nas possíveis facilidades (se fosse assim, ninguém faria medicina ou engenharia), mas é preciso que você tenha noção dos desafios. Há desafios que a gente pessoalmente tem mais jeito para enfrentar, enquanto outros desafios simplesmente não são nosso perfil.

Testes vocacionais nem sempre funcionam. Se você é uma pessoa ultra criativa, por exemplo, pode sair em um teste vocacional que você deve fazer publicidade e propaganda (comunicação social em algumas faculdades). Contudo, criatividade é algo que pode ser usado em praticamente todas as profissões. Gostar de organizar as coisas não é sinal de que você deve fazer administração – gente organizada é bem vinda em todas as profissões! Ser bom com números não significa que você deva fazer contabilidade, administração ou engenharia. E assim por diante. No final das contas, as matérias que você gosta hoje na escola não vão importar nem um pouco no cotidiano de sua profissão futura, então evite escolher uma carreira com base nessas tendências. Prefira pensar no seu perfil.

– Você é uma pessoa que prefere trabalhar em equipe ou sozinho?

– Você é mais motivado para resolver os problemas dos outros ou em atingir metas amplas?

– Você tem capacidade de liderança?

– Como é a sua comunicabilidade? Você é extrovertido ou introvertido?

Alguns testes vocacionais abarcam esse tipo de pergunta e esses testes são bons. Às vezes, gosto por uma área do conhecimento específica pode afunilar sim suas opções, desde que você tenha consciência de que está fazendo uma escolha que vai resultar em uma profissão sólida que vai pagar suas contas em primeiro lugar e depois te “fazer feliz”, que é uma ideia um pouco ilusória de qualquer forma, já que felicidade e satisfação são coisas que dependem de uma série de fatores que vão além da atividade profissional em si e tem muito a ver com as circunstâncias na qual a profissão está sendo praticada – que nos leva de volta para o perfil certo para cada profissão!

Não entre em armadilhas mentais “socialistas” do tipo “ah, eu vou fazer o que eu gosto, vou ser pobre, mas vou ser feliz”. Essa sua felicidade vai acabar rapidinho quando você não tiver dinheiro para pagar a conta de luz! Além disso, como eu e a Mariana falamos, essa ideia de “fazer o que gosta” é muito, muito, muito relativa! Quando a gente tem 18 anos a gente não sabe o que vai gostar de fazer. Fazemos previsões e geralmente estamos redondamente errados. Gostamos de uma área ou de outra por motivos totalmente efêmeros, interesses curiosos, imaginação.

No final das contas, felizes são aqueles que escolheram uma profissão “de verdade”, que lhes permite ter uma vida completa e próspera, pagar as contas, criar os filhos com segurança e qualidade e se aposentar com dignidade. Como meu pai dizia (e eu não dei ouvidos): “não vai escolher cursinho de merda!”



Palavras-chave: Carreira, Profissão, Vestibular