Essa pergunta tem aparecido com bastante frequência nos artigos sobre educação. As pessoas querem saber qual formação leva a “ser um neurocientista”. Bom, pra começo de conversa, neurocientista não é uma profissão específica. É mais uma jogada de marketing do que uma descrição de um cargo específico.

Ninguém se forma neurocientista como se formam médicos, psicólogos ou arquitetos. Neurociência não é uma profissão. Muitas pessoas “acham” que querem ser neurocientistas porque tem essa curiosidade sobre o funcionamento do cérebro e acham “essas coisas legais” e “muito interessantes”. Alguns usam termos como “fascinado pelo cérebro” e “eu sempre quis trabalhar com o cérebro”. Isso é um pouco de ilusão. Os curiosos de plantão precisam estudar um pouco mais o assunto para descortinar seus reais interesses.

Uma viagem pelo cérebro: A via rápida para entender neurociência

Uma excelente introdução à neurociência que pode ajudá-lo a decidir se essa á a área certa para você.

A maioria dos cientistas que se “autodenomina” neurocientista é psicólogo ou profissional de outras áreas, como biologia e química, que fez doutorado em psicologia cognitiva. Há também doutorados em neurociência, mas esses variam muito, indo de uma psicologia cognitiva com nome de neurociência até, apropriadamente, cursos que se focam na biologia e bioquímica do sistema nervoso.

Humm?? Mas eu achava que para ser neurocientista era preciso ser médico? Não?

Não! A medicina não tem ligação com a neurociência. Para quem acha que neurologia é a especialidade da medicina que estuda o cérebro, pesquise um pouco mais! Só um pouquinho mesmo e você vai descobrir que neurologistas tratam de acidentes vasculares como derrame, AVC, epilepsia, Mal de Parkinson, Mal de Alzheimer, esclerose múltipla, dores de cabeça, distúrbios do sono, entre outras desordens neurológicas. Tudo isso tem a ver com o cérebro, evidentemente, mas o neurologista não passa seus dias estudando todas aquelas “coisas legais” sobre o cérebro que nós lemos em revistas como Super Interessante e Scientific American, como memória e criatividade. Isso é campo da psicologia cognitiva.

Há médicos, das mais variadas especialidades, em campos que podem ser chamados de “neurociência”, desde neurologia, até psiquiatria e genética. Contudo, não é comum médicos passarem da área médica para a área de pesquisa, o que nos leva ao principal ponto a ser compreendido sobre a neurociência:

Neurociências

Popular livro-texto de neurociência usado em diversos cursos universitários. Se você já tomou a decisão de estudar neurociência, este livro lhe dará uma boa introdução ao tema.

Neurociência é exatamente isso, uma “ciência” e ciência é feita dentro de universidades e laboratórios. Portanto, neurocientista é o cara que faz ou fez doutorado em alguma área ligada ao estudo do sistema neurológico, o que inclui além do cérebro, a coluna vertebral e as células nervosas espalhadas pelo corpo.

Existem algumas formações universitárias de neurociências surgindo em muitos países, mas é preciso muito cuidado para não cair em uma armadilha. Não existe profissional “neurocientista”. Cientista de qualquer coisa é um doutor, ou seja, alguém que fez doutorado, e que trabalha dentro do laboratório de uma universidade ou na iniciativa privada. Fora do ambiente de pesquisa, essas pessoas não são cientistas pois não estão mais “fazendo ciência”.

Formação em neurociência é jogadinha de marketing para atrair mais alunos. Esses cursos nada mais são do que uma junção de biologia com psicologia. O campo de trabalho é praticamente zero, ou seja, se a pessoa não deseja realmente seguir sua educação com um doutorado, ela fica com essa formação que não lhe torna um neurocientista de verdade e só serve para ela pendurar o diploma na parede e se fazer de neurocientista para os amigos e familiares que não sabem como a coisa funciona! Emprego mesmo ela não vai conseguir, pois essa área exige doutorado.

Se você quer realmente ser um neurocientista, você precisa primeiro decidir se prefere lidar com o “comportamento” ou com a “biologia”. O estudo do cérebro, o que se convencionou chamar de neurociência, se divide entre:

– as pesquisas comportamentais, que hoje em dia abarcam também os exames de imagem do cérebro como ressonância magnética;

– as pesquisas a nível celular e molecular que ocorrem dentro de laboratórios propriamente ditos. Esses profissionais fazem bastante pesquisa em animais também, como ratos, cães, primatas, entre outros.

Ambas as formações estão disponíveis somente no nível de doutorado. Pós-graduações que se proliferam por aí são apenas cursinhos em psicologia cognitiva que não tornam ninguém neurocientista de verdade, mas podem servir para enganar chefes e fazê-los acreditar que você sabe alguma coisa sobre o cérebro.

A História da Neurociência

A história da neurociência desde a época dos antigos gregos, passando por Descartes, Willis e Golgi até o trabalho de cientistas que ganharam o prêmio Nobel. A história da neurociência entrelaça narrativas da filosofia, da religião, da psicologia, da física, da anatomia, da química, da farmacologia e de uma série de outras ciências.

Qualquer programa de doutorado que se descreva apenas como neurociência, cai na segunda opção: os alunos e posteriormente, os doutores em neurociência, trabalham em laboratórios e suas pesquisas se restringem a investigar partes do cérebro ou células nervosas no microscópio, avaliar e testar biotecnologia de ponta (o que em sua maior parte não é feita pelo neurocientista, mas sim por engenheiros), e desenvolver sistemas biológicos para otimização do sistema neurológico (não só no cérebro, nós temos nervos no corpo todo, não temos?!). Esse grupo pode também ser absorvido pela indústria de biotecnologia e farmacêutica para desenvolvimento de novos produtos e medicamentos.

Eu, pessoalmente, tenho um grande interesse por essa área, mas eu entendo que muitos leitores ao perguntarem sobre neurociência não estão pensando em biologia celular ou estudo do sistema neurológico. Elas também não estão pensando em trabalhar com ratos, o animal mais usado em neurociência.

Quando leigos falam em querer ser neurocientistas porque eles acham o estudo do cérebro “o máximo”, eles caem na primeira opção: pesquisas neuropsicológicas ou comportamentais. São esses caras que ficam filosofando sobre como a memória funciona, como o cérebro de Einstein o tornava um gênio, o que faz as pessoas devanear, por que é tão difícil manter a atenção focada, etc.

Então se você quer trabalhar com jaleco em laboratório olhando pedaços de cérebro no microscópio, faça doutorado em neurociência; se você quer discutir assuntos que envolvem a filosofia do comportamento e funcionamento do cérebro, faça psicologia cognitiva, também chamada de neurociência cognitiva.

E, sim, você precisa fazer doutorado se quer ser “neurocientista”! E o que você vai fazer depois? Como é o trabalho de um neurocientista?

Um neurocientista trabalha geralmente em uma universidade, como professor usualmente ou como pesquisador (geralmente ambos) ou é absorvido pela iniciativa privada (geralmente empresas voltadas para a área biológica do sistema neurológico) em empresas de biotecnologia ou farmacêuticas. Há espaço também em consultoria e hospitais (na área de pesquisa).

Então, o que eu recomendo para os interessados em neurociência é, em primeiro lugar, definir o que é que o atrai nesse campo. É o aspecto biológico do sistema nervoso? Ou é o aspecto cognitivo?



Palavras-chave: Doutorado, Neurociência, Neurologia, Psicologia cognitiva