O batido clichê do copo meio cheio ou meio vazio separa otimistas de pessimistas, mas tem gente querendo sair pela tangente e ficar em cima do muro, se autodenominando “realista”. Será que é assim mesmo?

Em trabalhos que realizo com grupos, seja em empresas, escolas ou cursos, em torno de 50% das pessoas, ao serem questionadas, respondem que são otimistas. Outras 40% dizem que são realistas e apenas 10% se reconhecem como pessimistas. Como psicólogo, eu sei que a realidade é bem diferente! É fato que existe um abismo entre o que as pessoas pensam sobre si mesmas e o que elas realmente são. Se eu lhe disser que os outros o conhecem muito melhor do que você conhece a si mesmo, você provavelmente vai começar a desconfiar das minhas palavras e me colocar em descrédito!

Com frequência, em meu trabalho no consultório e mesmo em cursos grupais, as pessoas me contam com ar de pena de si mesmas que ninguém as entende: “Ninguém sabe quem eu sou, doutor!”, “As pessoas na minha família não me entendem”, “As pessoas falam que eu sou isso, sou aquilo, mas elas não me conhecem! Eu não sou nada disso!”. A confusão se instala quando eu respondo que os outros provavelmente estão certos!

Não é o objetivo deste texto entrar no mérito do problema sobre a nossa falta de autoconhecimento, mas dentre todos os traços, problemas, etc., que deixamos de perceber em nós mesmos ou quando formamos uma ideia errada sobre a realidade, a percepção quanto à nossa forma de ver o mundo é geralmente a que está mais equivocada. Muita gente gosta de se dizer realista, mas, como dizia um bom amigo meu, realismo é só para contadores! Nós vivemos em um mar tumultuado e enevoado por nossas emoções e por uma natural falta de visão (não sei você, mas eu pelo menos não tenho a habilidade de prever o futuro!). Realismo é a condição do pragmatismo, ou seja, lidar somente com dados reais, palpáveis, mas fora do mundo dos números exatos do universo dos matemáticos e contadores, tudo o mais na vida cai vítima de nossas emoções, preferências e tendências. Você pode ser realista com relação à sua situação financeira, já que está lidando com números exatos. Se você ganha a quantia X por mês, você sabe o que tem condições de comprar e o que está além do seu orçamento. O pragmatismo cabe dentro de sua vida financeira.

Ninguém é realista de verdade!

Nossa postura pessoal, no entanto, jamais é realista! A verdade é que no mundo existem apenas otimistas e pessimistas. Muitos pessimistas se consideram realistas e isso é um problema sério! O pessimismo, muitas vezes, é disfarçado de visão crítica. A pessoa pessimista vê os furos em uma ideia e acha que está sendo realista. “Humm, mas ver os furos em uma ideia não é bom? Não é assim que se encontram os problemas? Não é assim que a gente analisa a viabilidade de uma ideia?”. Teoricamente, sim, e é nisso que todos nós gostaríamos de acreditar, mas a realidade é que mesmo a ideia mais estapafúrdia e com todo o potencial para dar errado pode eventualmente vir a ser um grande sucesso!

Veja toda a evolução da humanidade e todo o progresso, principalmente científico e tecnológico. Todas as novas ideias que acabaram se tornando equipamentos, descobertas e avanços algum dia foram severamente criticadas, foram alvos de risadas e foram desacreditadas como “não realistas”. Os críticos eram justamente os pessimistas disfarçados de realistas que, baseando-se em um pragmatismo absoluto, aplicável somente aos números, julgaram ideias como a lâmpada elétrica, o telefone, a TV, o computador e inúmeros avanços na área da ciência como “irrealistas”. Quando Pasteur inicialmente propôs à comunidade médica que todos os médicos deveriam lavar as mãos antes de tocar em seus pacientes, ele foi alvo de risadas – “Seja realista”, diziam os críticos, “As mãos dos médicos não são sujas, então por que os médicos deveriam lavá-las antes de tocar os pacientes, como se tivessem mãos sujas?”. Hoje damos risada é dessa visão absurda e imatura. Mas é sempre assim, não? Os “realistas”, que, na verdade, são pessimistas, com suas mentes tão lógicas e pragmáticas, sempre sabem o que é certo e o que é errado, quais ideias são boas, quais não são, e por aí vai. Só não sei por que todos esses realistas de plantão já não são todos milionários, já que todo esse realismo deveria servir pelo menos para que apostassem nas ações vencedoras nas bolsas de valores, escolhessem os investimentos certos, abrissem os negócios certos e… você entendeu, né?! Realismo de verdade só existe na exatidão dos números (o valor que você deve para a receita federal em impostos é bem real!), para tudo o mais, é apostar na esperança e ver no que vai dar! Otimismo é isso.

P.S.: Todos os grandes avanços, descobertas e todas as pessoas que já conquistaram grande sucesso na vida, seja nos esportes, nos negócios ou nas artes, são otimistas de plantão. Elas têm esperança, principalmente. Mesmo que seja uma esperança bobinha, tola, baseada somente em seu coração. Mas vale acrescentar que esperança deve ser acompanhada de proatividade, ou seja, o comportamento de colocar ideias em prática, de ter iniciativa, do contrário, a esperança se vira contra o sonhador e a vida se torna o mar de desilusão que tantos vivem.