Um dos maiores mitos socialmente difundidos é a ideia de que “os outros” sempre sabem mais do que você, principalmente se tiverem qualquer autoridade moral ou profissional que lhes providencie expertise no assunto.

Com muita frequência nos pegamos pedindo a opinião dos outros sobre a roupa que usamos, nosso corte de cabelo, nossas ideias de negócios, nossas decisões na vida. É claro que há variações de grau de solicitação alheia, homens não costumam perguntar aos outros sobre sua aparência, por exemplo, mas em compensação, pedem mais opinião sobre negócios e decisões grandes na vida, como casamento – uma pesquisa realizada nos EUA mostrou que 65% dos homens pede a opinião de pelo menos três amigos ou parentes próximos antes de se comprometer e 40% desiste do casamento caso a opinião dos consultados seja negativa.

Quando o assunto é negócios ou dificuldades pessoais como as que discutimos aqui, por exemplo, a porcentagem de pessoas que solicita conselho alheio é enorme, passando dos 85% (média de pesquisas realizadas em países ocidentais).

Mas pedir conselho às vezes não é bom?

Essa pergunta é um tanto “guarda-chuva”! Há muitas questões embaixo dela!

Há pessoas que pedem conselhos porque se sentem inseguras para tomar decisões ou simplesmente não sabem o que fazer. Nesse caso pedir conselho NÃO É INDICADO.

Há pessoas que pedem a opinião alheia numa tentativa de buscar aprovação do grupo em cima das decisões que pretendem tomar. Nesse caso pedir conselho NÃO É INDICADO.

Há pessoas que pedem conselho por pura inércia, não sabem o que buscam, como fazer o que desejam ou como resolver um problema e querem terceirizar a solução. Nesse caso pedir conselho NÃO É INDICADO.

Há pessoas que partem do princípio de que experts ou profissionais especializados sempre sabem mais e poderão guiá-las corretamente no caminho que pretendem seguir. Surpreendentemente, nesse caso, pedir conselho também NÃO É INDICADO!

Em primeiro lugar, não tem outra pessoa no mundo (nem seu parceiro(a), filhos, pais ou melhores amigos) que sabe o que você sabe, sente o que você sente, quer o que você quer, tem as mesmas potencialidades, pensa da mesma forma ou se satisfaz com as mesmas coisas. Como cada pessoa é única, é realmente muito difícil dar (e receber) conselho, pois quando damos uma opinião a baseamos em nossa própria experiência, em nosso próprio mundinho individualíssimo. Isso vale também para os supostos experts e profissionais especializados.

Competições televisionadas são um ótimo exemplo de como os melhores profissionais do mercado em uma determinada área como cinema ou música podem errar feio ao criticar ou parabenizar participantes dessas competições. Quantos candidatos que não ganharam acabaram se tornando estrelas mundialmente aclamadas, enquanto os ganhadores caíram na obscuridade?

Ou mesmo quantos cantores e bandas foram recusados por gravadores repetidamente antes de encontrarem o sucesso? Elvis Presley e Beatles me vem a mente com facilidade. “A melhor vingança é o sucesso estrondoso.” – disse Frank Sinatra, que amargou anos de rejeição.

Os exemplos no mundo literário são de cair o queixo. Stephen King, o rei da ficção de terror há mais de 30 anos, foi solenemente recusado por dezenas de editoras. Um editor respondeu em uma carta, recusando seu futuro best-seller, Carrie, com as seguintes palavras: “Nós não estamos interessados em obras de ficção com enfoque negativo. Elas não vendem.”

O romancista da guerra fria, John Le Carré, mostrou os manuscritos de sua primeira obra, O espião que saiu do frio, para um amigo editor, a qual lhe respondeu: “infelizmente meu amigo, você não tem futuro como escritor”. Imagine se ele tivesse seguido o conselho do amigo, que afinal de contas, era muito “sabido” na área editorial… Ele certamente não teria sido um dos maiores romancistas do século XX.

Um dos mais famosos livros da história, O Diário de Anne Frank, foi recusado por diversas editoras e chamado de chato e “bobo” por alguns experts em literatura.

O caso de J.K. Rowling, autora da série Harry Potter é bem conhecido pelos fãs. Rowling amargou anos de rejeição e opiniões sarcásticas de editores e experts que lhe diziam que o mercado não queria uma história de um menino mago.

Esses exemplos no mundo editorial são interessantes pois as rejeições vieram de experts, não de gente “incapaz” ou sem conhecimento.

No mundo do cinema, essas histórias também correm o mundo depois que, contra todas as expectativas, cinestas e atores explodem e se tornam conhecidos. Steven Spielberg e Tim Burton são ótimos exemplos, esse último tendo até recebido uma carta (que corre a internet) da Disney que rejeitou os scripts de Beetlejuice e Halloween no Natal, alegando que as historinhas eram muito simples, bobinhas e não iriam “encantar” um público acima de 4 a 6 anos.

No mundo dos negócios também há exemplos como Steve Jobs, que chegou a ser demitido da Apple pelos acionistas ou o maior inventor da história, Thomas Edison, que ouviu de seu professor que “era muito burro para aprender qualquer coisa”. Walt Disney foi demitido por um editor de jornal porque “não tinha muita criatividade nem boas ideias”.

Essas histórias nos ensinam uma coisa uma importante: a opinião alheia não representa a opinião do resto do mundo ou mesmo a verdade absoluta, por mais expertise que nosso interlocutor possa ter.

Refraseando, ninguém sabe avaliar nosso potencial, nossas ideias e nossos problemas. As pessoas estão sempre muito focadas em seu mundinho pessoal para realmente se importar com o mundo alheio. O resultado é opiniões tendenciosas e rejeições individualíssimas, ou seja, só mesmo aquele indivíduo pensa daquela forma. Às vezes, o pensamento, a opinião é coletivada dentro de um grupo que, por associação, adota práticas homogêneas, como ocorre na música, no cinema ou no mercado editorial.

Quando o assunto é resolver nossos problemas pessoais, a situação fica ainda mais crítica. Não há expert, psicólogo, psiquiatra, cartomante, escritor ou amigo que possa te dizer o que você deve fazer da vida ou como resolver seus problemas. Pedir ajuda pode até mesmo ter um impacto negativo, por duas razões, principalmente:

– Você atribui autoridade à pessoa a quem pediu auxílio e parte do princípio de que ela deve saber, portanto o conselho dela só pode estar certo, correndo perigo de acabar tomando uma decisão ou atitude errada pela cegueira que a autoridade alheia pode causar;

– Você terceiriza a responsabilidade pelo resultado para o outro – se foi o outro que disse para você fazer de tal forma, se não der certo, a culpa é dele, não sua.

Mesmo um coach ou psicólogo não diz o que o paciente deve fazer. Um bom profissional jamais dá conselho para seus clientes. A melhor ajuda é guiar o outro a fazer suas próprias escolhas, incentivando o paciente a ter maior autonomia e autoconfiança,nunca dar uma opinião direta ou dizer o que ele deve fazer. Dizer o que os outros devem fazer não é ajudar, é uma postura controladora, autoritária e arrogante. Se em tese, ninguém tem bola de cristal para ver o futuro, nem consegue nos enxergar como realmente somos, ninguém tem autoridade alguma para nos dizer o que devemos fazer e mesmo se hipoteticamente, alguém tivesse esse poder, não deveríamos aceitar sua opinião.

Por quê? Porque a responsabilidade sobre sua vida é só sua, suas decisões não interessam a mais ninguém. É claro que algumas decisões precisam ser compartilhadas como decisões familiares ou em contextos empresariais (ainda assim, limitando a tomada de decisão para dentro do grupo). Não importa quanto conhecimento a outra pessoa tenha, ela não pode te dizer o que fazer ou que decisão tomar. A opinião dela pode, inclusive, como vimos nos exemplos, mesmo cheia de expertise e experiência, estar redondamente errada.

Mesmo em âmbitos em que a autoridade e o expertise são evidentemente necessários como na área médica, você ainda pode ser vítima de erros se confiar demais na opinião alheia, visto a quantidade de erros médicos e diagnósticos mal feitos por aí.

Pedir uma opinião deve sempre ser um ato investigativo, um busca por ângulos diferentes que você talvez não consiga enxergar, um parecer profissional como um diagnóstico médico ou um levantamento de ideias, sempre considerando que o outro pode ter cometido um erro de julgamento ou pode não ter uma perspectiva adequada dentro da sua situação específica.

Quando as opiniões alheias somam ao que você já confiantemente possui, você só tem a ganhar, contudo, quando você pede conselhos com base em insegurança pessoal, você corre o risco de cometer erros. Você atribui autoridade demais ao outro, dá muito poder para quem talvez nem se importe tanto assim com você. Mesmo no caso de uma opinião médica, por exemplo, em casos mais sérios, sempre é indicado buscar uma segunda, uma terceira, até uma quarta opinião, para contrabalançar o risco de erro médico.

Confiar cegamente em um expert só porque a pessoa “estudou” para fazer aquilo e deve naturalmente sempre saber o que fazer é uma ingenuidade sem tamanho. Isso vale para qualquer tipo de opinião vinda de profissional, um médico, um advogado, um editor, um produtor, um arquiteto, um engenheiro, um decorador, etc. Não é porque a pessoa sabe muito sobre sua determinada área que a opinião dela sobre a SUA situação vai necessariamente estar certa.

Pedir conselho e confiar por pura insegurança é uma situação ainda pior.

Mas o pior de tudo é culpar quem deu o conselho quando as coisas dão errado. Não existe irresponsabilidade maior do que não assumir as decisões que se toma.

No final das contas tudo se resume a responsabilidade. A pessoa responsável por suas próprias decisões é mais confiante, mais segura, confia mais no próprio taco e quando pede conselho ou opinião, o faz para somar-se ao que já está se construindo, não para saber o que o outro pensa ou “descobrir” o que fazer de um ponto de vista inseguro.

Autoconfiança e reflexão sempre devem estar acima da confiança na opinião alheia, por mais autoridade que o outro tenha. Se alguém te der um conselho, o melhor é refletir: tem lógica? Esse ponto de vista é realmente melhor? Por quê? Dependendo da questão, ajuda muito se informar e saber o máximo que você possa sobre o assunto. Quando o conselho é baseado em potencial, principalmente em termos de resposta do público, como nos exemplos que eu dei no mundo das artes, a opinião alheia não vale nada. Se alguém soubesse o que público vai gostar e aprovar, esse alguém já seria a pessoa mais rica do mundo!

O mesmo é válido para ideias de negócios, se você tem alguma, nem perca tempo (e ânimo) compartilhando com os outros em busca de opinião, siga sua intuição e confie no próprio taco. Consultar especialistas ocasionalmente para aumentar sua perspectiva é uma coisa, perguntar para os outros o que eles acham da sua ideia como uma forma de avaliar se vai dar certo ou não é besteira, ninguém sabe.

Com relação à superação de suas dificuldades pessoais, seja timidez, ansiedade ou solução de problemas, a consulta alheia é ainda mais inútil. “Dicas” para solucionar problemas você acha em tudo quanto é lugar, livros, internet, etc., fora essas dicas, as decisões propriamente ditas que você deve tomar, se vai ou não aplicar uma dica ou outra ou o que vai fazer da vida, são decisões exclusivamente suas (e quando o contexto exige, junto com sua família). Os “outros” não tem nada a ver com isso e seus conselhos, se você se importar em solicitá-los, correm um grande risco de se mostrarem infrutíferos no médio, longo prazo. Às vezes nem é porque a pessoa não sabe do que está falando, mas simplesmente porque cada caso é um caso, e ela não sabe da sua vida, nem tem bola de cristal para ver o futuro.

Da sua vida, quem sabe é você e ninguém mais. Tome suas próprias decisões!



Palavras-chave: Conselho, insegurança, Opinião, Responsabilidade pessoal