Desde que Daniel Goleman publicou seu best-seller, Inteligência Emocional em meados dos anos 90, muitos estudiosos tentam verificar se Goleman estava mesmo certo ou não. Alguns pontos do argumento do autor em prol da inteligência emocional já foram refutados ou questionados (como o famoso experimento do marshmallow), mas muitas pesquisas recentes estão concluindo que realmente, certos traços da personalidade possuem muito mais peso nos resultados alcançados na vida do que o grau de inteligência, formalmente medido pelo QI.

O que temos visto nos últimos tempos é uma depuração dessas características, ou seja, uma explicação mais clara de quais traços de personalidade contribuem para uma vida de sucesso e quais não são tão relevantes do ponto de vista do êxito e da felicidade. Também estamos conseguindo enxergar com mais clareza qual o papel da inteligência cognitiva, já que apesar de ser considerada “menos” importante, o bom senso se encarrega de evidenciar que uma pessoa desprovida de um grau razoável de inteligência – com perdão da palavra, uma pessoa “burra” – simplesmente não tem condições cognitivas de construir uma vida bem sucedida, não importa o quão destacada ela seja em outras áreas.

Compreende-se hoje que o sucesso sustentável – que é diferente do sucesso como resultado de um lance de sorte ou oportunidade – se constrói em cima de uma personalidade que tem além de inteligência cognitiva (portanto, sem QI não dá!), outras características de personalidade, que no nivelamento competitivo, se sobressai.

Como assim?

Vou te dar um exemplo da minha atividade profissional. Faço parte do comitê de admissão da Weill-Cornell University tanto para alunos de doutorado quanto para medicina. Para entrar tanto em medicina quanto em um curso de doutorado nos EUA, o aluno precisa ser “aceito” pela universidade. Como a competitividade é muito grande, já não podemos mais contar com resultados de exames seletivos. Para entrar em medicina, os alunos prestam um exame nacional chamado de MCAT e para entrar no doutorado, os alunos prestam outro teste chamado GRE.

Esses testes medem a inteligência cognitiva do aluno e antigamente eram suficientes para garantir uma vaga. Com a intensa competição, contudo, muitos alunos (mais do que o nosso número de vagas) tem desempenho muito similar nesses testes, ou seja, temos muitos alunos com as mesmas notas perfeitas, mas não temos vagas para todos eles. Foi necessário então criar novos métodos para selecionar os candidatos que já se mostravam adequados intelectualmente.

Ao longo das últimas décadas em que essa situação de competição foi se desenvolvendo, as instituições de ensino aqui nos EUA criaram métodos para avaliar os alunos de uma forma mais holística, a fim de excluir da “fila” os alunos que são bons no papel (QI), mas fracos na vida (QE). Hoje ainda podemos ver médicos e doutores formados em tempos pretéritos quando a atenção às características de personalidade ainda não era refinada. Podemos notar que muitos deles, apesar de altamente inteligentes, não possuem bom trato com seus pacientes e colegas.

Espera-se que com os novos métodos de seleção, os médicos e professores do futuro sejam, além de inteligentes, gentis, simpáticos, amigáveis, empáticos e coerentes. Essas características de personalidade são avaliadas pela equipe de admissão através de inúmeros fatores que incluem entrevista pessoal com o aluno, cartas de recomendação escritas por ex-professores ou empregadores que possam descrever o candidato com clareza, currículo de atividades extracurriculares em que são avaliados envolvimento com artes, esportes, voluntariado e assistência.

Todo esse conjunto nos mostra quem é o indivíduo por trás dos números, por trás do papel. O resultado é que aqueles que possuem personalidade mais expansiva, são perspicazes, empáticos, solícitos e equilibrados acabam conseguindo as vagas, mesmo que tenhamos que abrir mão de alguns candidatos com notas perfeitas, mas sem um histórico de comportamento tão exemplar.

Eu expliquei todo esse processo para exemplificar que mesmo em um meio onde é a medida a inteligência do aluno é crucial, é a inteligência emocional é que garante uma vaga. Ou seja, sem inteligência cognitiva, o aluno não tem chance, mas só com ela, ele também nã entra. Quando você se encontra em um meio onde todos possuem nível intelectual muito parecido com o seu, ser inteligente não basta.

No mercado de trabalho está ocorrendo o mesmo. O papel da entrevista de emprego é justamente avaliar a personalidade do candidato. Pessoas que se mostram antipáticas, nervosas ou difíceis em seleções, acabam não conseguindo a vaga.

No ambiente de trabalho, a inteligência emocional, que engloba diversas características como empatia, capacidade de lidar com pressão, equilíbrio íntimo e sociabilidade é testada mesmo que intuitivamente por todos, colegas, subalternos e superiores. Todo mundo observa todo mundo. É natural, nós seres humanos fazemos isso o tempo todo.

Em uma carreira solo, a capacidade de “vender o seu peixe”, seja um produto, um contrato, um serviço, depende da sua capacidade de “encantar” e “seduzir” seu público-alvo. E como você faz isso? Com a sua personalidade, com o seu “jeitão”, a sua simpatia, a sua capacidade de fazer uma conexão de ser humano para ser humano. Quantas vocês você mesmo já não comprou alguma coisa só porque gostou do vendedor?

Quando avaliamos a vida através de uma perspectiva de longo prazo, somos capazes de ver com clareza o efeito da inteligência emocional (ou da falta dela). No curto prazo, nós temos lances de sorte e azar, nós temos ajuda de terceiros, nós temos circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis. Uma pessoa com toda a inteligência emocional do mundo pode se dar mal, várias vezes, devido a situações acidentais, influência negativa de terceiros, situações fora do seu controle. É somente no longo prazo que conseguimos ver se a pessoa tem o que precisa mesmo ou não.

A pessoa com a “personalidade certa” sempre consegue, mesmo que algumas vezes possa levar um tempo, superar esses momentos de baixa. Talvez essa característica, isoladamente, possa ser apontada como a número 1. Cair todo mundo cai, agora, ser capaz de se levantar vez após vez, e mesmo machucado, seguir andando, isso só faz quem tem inteligência emocional.

Quem não tem, não faz. Por quê? Porque a pessoa sem inteligência emocional desfoca a responsabilidade sobre a sua vida para alguma outra coisa, seja outra pessoa, o governo, Deus, seus “problemas” e então desanda a chorar as mágoas, se autovitimizando, justificando “porque” ela não está fazendo (ou não fez) o que deveria. Enquanto ela está dando esse showzinho, o tempo está passando e levando consigo as oportunidades. Ela perde o bonde, não sabe o que aconteceu e aí então chora porque as chances já passaram.

Se formos elencar uma segunda característica da inteligência emocional que se constrói em cima dessa primeira, podemos citar a coragem. A coragem é um traço da maturidade psicológica porque ela garante que a pessoa não deixará de fazer o que for preciso por medo ou insegurança. Tem que fazer? Ela vai e faz com a cara e a coragem, aconteça o que acontecer. É importante frisar, contudo, que coragem não é irresponsabilidade e a pessoa corajosa não é aquela que sai saltando de paraquedas e escalando montanhas. Riscomania, a vontade de correr riscos, nada tem a ver com verdadeira coragem nem com maturidade.

E por fim, a terceira mais importante característica da inteligência emocional é o equilíbrio íntimo, ou seja, a capacidade de manter o turbilhão interno quente, mas não fervendo! Isso envolve lidar bem com pressão, controlar sensações como a raiva, a ansiedade e a impulsividade.

Por que essas três características são as mais importantes e não outras como sociabilidade, empatia e extroversão, já que lidar com os outros é tão importante?

Essas três características ajudam muito a lidar com os outros, acredite! Entretanto, a principal razão é que há muitas pessoas muito “dadas”, extrovertidas, divertidas, falantes e empáticas que são muito legais para conversar e ter por perto, mas elas podem não ser bem sucedidas. Extroversão em si não garante o sucesso de ninguém! Inclusive há pessoas introvertidas altamente inteligentes emocionalmente. Isso prova que esses três traços avaliados são mais importantes para o sucesso do que a capacidade de se dar bem com todo mundo. A sociabilidade ajuda muito sim, mas precisa ser construída em cima desse tipo de personalidade, baseada nessas três características. Do contrário, a pessoa sociável vira arroz de festa, só quer se divertir, não constrói nada e acaba não tendo sucesso em seus empreendimentos.



Palavras-chave: Ansiedade, Coragem, Inteligência Cognitiva, QI, sucesso