Talento é um mito, tanto quanto a motivação. No último artigo, nós conversamos sobre como a ideia de que “devemos estar motivados para agirmos em prol do que desejamos” é enganosa e ilusória. Enquanto esperamos eternamente pela motivação que nunca chega, pessoas bem sucedidas estão simplesmente fazendo o que precisa ser feito, quer elas estejam entusiasmadas com as tarefas, quer estejam totalmente entediadas. Há também uma ideia falsa de que para fazer certas coisas, ou para ter destaque na vida, é preciso ter talento.

Esse tipo de mentalidade é perigosa pois, assim como no caso da motivação, não é apenas uma questão de “não entender” como as coisas funcionam, ou simples falta de informação. Acreditar que é preciso primeiro estar motivado ou ter talento para depois fazer as coisas, conduz à paralisia. A quantidade de livros e “gurus” de autoajuda que falam sobre como precisamos encontrar “nossos talentos” para descobrirmos nossa “missão” de vida também não ajuda em nada e só complica ainda mais a situação de quem tende a permanecer na inércia, enquanto espera “compreender” melhor o que deve fazer para então começar a agir.

Outra armadilha muito perigosa está ligada ao ego. As pessoas desejam descobrir seus “talentos” para que possam fazer algo extraordinário e serem aplaudidas como celebridades. Em um mundo interconectado em que as pessoas ficam famosas pelos motivos mais impensáveis e programas de talento na televisão se multiplicam como ervas daninhas, é preciso tomar muito cuidado para manter o foco no mundo real e não em uma ideia ilusória de sucesso.

A grande maioria das pessoas de sucesso que conheço não possui nenhum talento marcante. É claro que o conceito de talento é bem flexível. Se formos considerar qualidades ou potencialidades como talentos, então não há sequer uma única pessoa no mundo que não seja talentosa de alguma forma. Contudo, a confusão ocorre quando a ideia do que é talento envolve a noção de destaque ou excepcionalidade. Nem todo mundo tem alguma característica extremamente marcante. Pensar em Mozart, Beethoven, Tiger Woods ou Adele não ajuda em nada quando queremos entender melhor o que é talento. Ou ampliamos a definição para algo que compreenda potencialidades normais que todo mundo tem ou separamos essas pessoas excepcionais e jamais nos comparamos a elas.

É claro que nossas potencialidades, o que podemos chamar de talento, possuem um papel em nossas escolhas de vida. Fora esse aspecto de “tendências”, contudo, o ideal é se desligar dessa noção de que “precisamos descobrir no que somos bons primeiro para depois agir”.

Assim como no caso da motivação, pessoas bem sucedidas simplesmente fazem o que precisam fazer, quer elas estejam motivadas, quer não, quer elas tenham aptidão para fazer aquilo, quer não. Disciplina, o que envolve boa administração do tempo, foco e persistência, somada com inteligência emocional, o que envolve principalmente não ficar fazendo drama, são muito, mas muito mais importantes do que ter talento ou mesmo aptidão para se dedicar a uma atividade. A pessoa que fica de “manha”: “ah, não vou fazer isso porque não estou motivado” ou “eu não sei no que eu realmente sou bom, então enquanto eu não souber, vou ficar fazendo essas coisas aqui que eu odeio, mas são temporárias”, geralmente não consegue manter produtividade e foco por tempo suficiente para completar atividades relevantes e construtivas. O temporário vira permanente e a pessoa nem percebe, passa a vida fazendo algo que não quer fazer esperando descobrir no que ela é realmente boa.

Mesmo no ambiente das artes e no esporte onde talento é algo claramente notável, muita gente se dá bem e mantém carreiras longas simplesmente com base em foco e persistência, ao passo que pessoas extremamente talentosas, mas sem disciplina, passam a vida inteira sonhando com o dia em que “serão reconhecidas”.

Minha dica de hoje é: esqueça taleto. Tire essa palavra do seu vocabulário e se foque nas tarefas do dia-a-dia que precisam ser feitas para que você conquiste um resultado que lhe dará a oportunidade de viver (como consequência) a vida que você realmente deseja viver. Foco, persistência, disciplina e inteligência emocional o levarão muito mais longe e garantirão resultados muito mais firmes e confiáveis.



Palavras-chave: Motivação, Talento