Um dos maiores símbolos do feminismo é, na realidade, um evento que nunca ocorreu. No dia 7 de Setembro de 1968, centenas de mulheres protestavam do lado de fora de um teatro em Atlantic City, nos Estados Unidos, onde ocorria a coroação da Miss América. As mulheres carregavam consigo símbolos que representavam a submissão da mulher: cílios postiços, sapatos de salto, detergentes, vassouras e os famosos sutiãs. Elas pretendiam colocar tudo dentro de uma lata de lixo e queimar os objetos. O plano foi abortado pela ordem da prefeitura em não permitir o uso de fogo durante a manifestação.

Surpreendentente, o que as pessoas “lembram” desse episódio é justamente os “sutiãs (que nunca foram) queimados”. Esses detalhes não são tão importantes quanto o significado do evento, contudo. As mulheres em 1968 não estavam lutando por uma igualmente literal entre homens e mulheres como muitos acreditam, mas sim por direitos humanos. O Século XX assistiu a uma reviravolta das mulheres que reinvindicavam seus direitos e exigiam serem consideradas em pé de igualdade aos homens.

Mais de meio século depois desta marcante manifestação, ainda vemos todo o tipo de desigualdade entre homens e mulheres, até mesmo no país onde tudo começou. Em muitas carreiras, as mulheres Norte Americanas ganham até 30% a menos do que os homens nas mesmas posições – até mesmo na medicina! Discriminação sexual é lugar comum, não só no mercado de trabalho, mas também no dia-a-dia, em casa e na rua. Problemas de verdade existem, mas o que vemos hoje no movimento pósfeminista acaba sendo uma deturpação do objetivo inicial. Enquanto as feministas originais buscavam direitos cívicos e menos sexismo, hoje tenta-se incompreensivelmente atingir uma condição que beira a androginia, uma tentativa de ser homem e mulher ao mesmo tempo (sem ser homossexual ou bissexual).

Uma vez ouvi um palestrante “zen” explicar que para se atingir o equilíbrio a partir de uma posição extremista, é preciso ir até a outra ponta primeiro, para depois voltar aos poucos e “conquistar” o ponto do meio. Não me lembro quem era, nem o que mais ele falou, mas isso ficou comigo durante anos e em muitas situações eu observava a veracidade do que ele havia exposto. A própria condição de crescimento entre a infância e a adultidade: a adolescência, demonstra esse efeito claramente. O adolescente sente necessidade de ir ao outro extremo para “provar” seu ponto, para mostrar aos pais que “ninguém manda nele” e ele faz o que quer, que ele é uma pessoa autência, dona da sua própria vida. Na prática, olhando de fora, vemos esses adolescentes como patéticos, “idiotas” querendo “se fazer”. Entretanto, a própria antropologia há chegou a conclusão de que o mesmo efeito ocorre em todas as sociedades, inclusive as mais primitivas sem contato com a civilização moderna, o que prova que o extremismo adolescente faz parte do processo natural de maturação humana.

O que vemos com o feminismo neste último século é um movimento semelhante. Elas começaram se rebelando contra seus maridos e chefes, “querendo” queimar sutiãs (e o que elas iriam usar para sustentar os seios?!), detergentes e vassouras! É claro que a intenção era simbólica, mas isso evidencia a necessidade de extremismos para que o equilibrio seja alcançado. Em 1968, tal atitude se fez necessária e teve um impacto gigantesco que reverberou através das décadas seguintes.

O meu problema com tudo isso é que muitas mulheres HOJE acreditam que precisam tomar atitudes extremas, antinaturais e até mesmo prejudiciais à própria autoestima em nome da conquista da liberdade feminina ou para provar que são mulheres modernas.

Desigualdade ainda existe? Sim. Mas nós já passamos (e faz tempo) do ponto em que precisamos permanecer do outro lado oposto do espectro. A sociedade ocidental (nem vale a pena falar da oriental aqui neste contexto!), já está quase chegando ao ponto de equilíbrio. O que isso significa? Isso significa que as mulheres não precisam mais ter “atitude de adolescente” para se autoafirmar como independente ou “igual”.

Uma coisa é certa, mulheres e homens SEMPRE serão diferentes. Há um traço de igualdade que as feministas tanto querem que jamais será conquistado. No mundo real, não existem mulheres como Lara Croft. Mulheres no exército? Sim. Mulheres guerreiras? Sim. Mas o conjunto que o arquétipo da Lara Croft tenta passar, não. Mas por que eu estou falando da Lara Croft? Porque ela é um símbolo do feminismo. Uma mulher completamente independente, rica, forte, autêntica, autoconfiante, mas que na realidade, é um James Bond na pele de uma mulher. Nenhuma mulher em sã consciência deseja ou acredita que um dia será como essa personagem, isso é óbvio. O que não é óbvio é o ideal que ela representa no inconsciente da mulher moderna. O que Lara Croft representa (independente da “carreira” totalmente inverosímel que ela pratica), é de uma mulher que é literalmente um homem em um corpo de mulher. Ela tem casos com homens lindos, mas não se envolve emocionalmente nem sofre por eles, ela bate em qualquer um que lhe atravessar o caminho, ela se foca em seus objetivos acima de tudo, é muito perspicaz, inteligente, tem um senso de humor afiado, sabe dar “respostas espertas” que calam a boca do interlocutor, enfim, o comportamento dela é um sonho de consumo para qualquer mulher (é mesmo!?).

Homens e mulheres acima de tudo jamais deixam de ser animais humanos. Por mais que possamos evoluir tecnológica e culturalmente, uma mulher sempre será um “bicho fêmea” e um homem sempre será um “bicho macho”. Essa diferença determina um tipo de desigualdade que simplesmente não temos como renegar. O comportamento de uma mulher que quer se autoafirmar como moderna e feminista é antinatural. Ela acha que por ter “direitos iguais” deve se comportar como um homem, fingindo ser forte, não chorando, dando pra todo mundo como se sexo casual fosse uma prova de que ela realmente é independente e “autêntica”, e se comportando no trabalho como um “machão”. Não dá certo…

O efeito desse comportamento na autoestima começa a ser sentido, muitas vezes, depois de anos. O “bicho fêmea” tem necessidades biológicas de ter um par fixo. Não faz parte da natureza feminina ter múltiplos parceiros sexuais. O “bicho fêmea” é emotivo, ele chora e demonstra suas emoções com facilidade. É prejudicial para a saúde segurar as emoções só para fazer “como os homens fazem” numa tentativa de ser vista como “igual”.

Só para deixar claro, não sou contra o sexo casual. Sou contra mulheres se desrespeitarem e irem pra cama só para se autoafirmar como “independente” e “feminista”, sem vontade nenhuma, se sentindo mal depois, se sentindo “mal amada” e “usada” como muitas ficam depois de “casos” com homens que não querem nada além de sexo. Quer transar com um cara que acabou de conhecer por pura vontade? Ótimo. Só não faça isso porque acha que precisa dar pra provar que é uma mulher moderna.

Uma coisa é certa: a própria biologia masculina faz com que eles jamais nos vejam como iguais e vice-versa. Podemos eventualmente conquistar igualdade no mercado de trabalho e na vida cívica. Isso sim, nós merecemos e devemos continuar lutando para conquistar o equilíbrio. Agora, ao se comportar literalmente como um homem na vida pessoal, imitando comportamentos que são ditados pela fisiologia do corpo masculino, nós estamos apenas traindo nossa própria natureza e não estamos conquistando nada com isso.



Palavras-chave: Feminismo, Lara Croft, Mulher moderna, Mulheres