Você já ouviu falar no livro de Joseph Keller Catch-22? (em português, a tradução seria algo como beco sem saída, sinuca de bico ou mesmo um círculo vicioso). Mesmo que você não conheça o livro, eu acho que você pode reconhecer quantos de nós brincam com a paradoxal lei do catch – uma lei de lógica autocontraditória circular em nossas vida diárias. Desesperados por ter mais tempo para passar com a família e os amigos, fazer exercícios ou se dedicar ao que nos dá realização pessoal, as situações que criam o que precisamos parecem nos impedir de conseguir o que queremos.

catch-22

Esse beco sem saída é aquela situação em que se tentarmos resolver o problema, o complicamos ainda mais, mas deixar as coisas como estão também não é uma boa opção. Talvez aquele antigo ditado popular seja o que temos mais próximo desse conceito: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come! A moral da história é que a vida nos enrola de tal forma que caímos numa “pegadinha” – a situação atual não nos faz feliz e realizados, mas qualquer tentativa de solucionar nossos problemas promete ainda mais confusão. O grande dilema é o que fazer então?

Estou lendo o livro de Parker Palmer A imensidão escondida: a jornada a uma vida sem divisões. Palmer é meu escritor favorito quando o assunto é ensinar, ele mostra a importância da autodidática. Seu foco na cultura do medo e suas idéias de uma vida sem divisões através de uma melhor educação são algo que nossos sistemas educacionais realmente precisam ouvir e aprender.

Em um dos primeiros capítulos Palmer explica sua visão do catch-22. Ele diz:

“Catch-22, o clássico romance satírico-histórico de guerra de Joseph Heller, analisa a ‘lógica’ que rege a vida de um bombeador da Força Aérea Americana. Se você compreender o risco que sua vida corre perigo e pedir para ser liberado de sua missão, você não terá seu pedido concedido. Por quê? Porque o fato de você compreender o perigo de sua missão faz de você uma pessoa sã e, contudo, apenas as pessoas insanas podem ser liberadas de suas missões. Então você tem que continuar voando, mesmo que isso seja insano!” – É um beco sem saída!

Naturalmente, Palmer mostrou que essa é uma concepção pertinente para a nossa época, visto que nossas vidas conturbadas e fragmentadas nos põem em risco e nos fazem precisar de relações restauradoras, seja na comunidade ou com aconselhamento. Contudo, nossas próprias vidas, as razões de nossas necessidades fazem com que seja impossível que mantenhamos esses tipos de relações. Como ele aponta: “A mesma situação que cria a necessidade de um espaço seguro parece nos impedir de conquistar o que queremos.” Arriscar ser feliz ou encontrar a realização profissional pode exigir atitudes que comprometem tudo o que mais prezamos na vida, a própria segurança e equilíbrio que já lutamos tanto para conseguir.

Palmer, contudo, afirma que se trata de uma ilusão induzida culturalmente que faz com que acreditemos que nós não podemos conquistar genuinamente aquilo de que precisamos, mantendo-nos focados na idéia de uma aparente loucura. Consideramos o risco uma insanidade, mesmo que a promessa de sucesso no final do caminho ofereça justamente tudo o que sempre quisemos na vida.

Qual a solução?

Para Palmer, o ponto vital é eliminar a ilusão. Ilusões, ele diz, são “feitas para serem superadas. Estou ocupado demais? É claro que estou. Estou ocupado demais para viver minha própria vida? Somente se eu a desvalorizo tanto a ponto de me deixar vencer pelo inimigo.”

Às vezes fico pasma de ver as babaquices que as pessoas priorizam em suas vidas e que preenchem todo o tempo que elas reclamam tanto não ter. Eu costumo dizer que todos aqueles que assistem entretenimento televisivo não possuem o direito de reclamar da falta de tempo. A lógica é coerente, não? Se o cabra reclama que não tem tempo para fazer certas coisas na vida, mas desperdiça horas e horas diariamente na frente da telinha ele não tem direito algum de reclamar. A situação mais crítica, no entanto, é quando a pessoa desperdiça tempo por não otimizar produtivamente suas próprias atividades, principalmente profissionais e aí a catch-22 é resgatada como desculpa: não tenho tempo para otimizar minhas atividades!

Muitos anos atrás, Stephen Covey, em Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes disse a mesma coisa em seu sétimo hábito – “Afine o instrumento”. É uma história semelhante à de capturar a loucura de nossa época. O lenhador que trabalha freneticamente e ineficientemente com um serrote cego sabe que o serrote precisa ser afiado, mas acredita estar ocupado demais para perder tempo afiando-o. Loucura, com certeza, mas uma loucura que todos nós conhecemos muito bem.

Então, que decisão vamos tomar hoje? Já é hora de nos livrarmos da ilusão? Vamos concordar com a loucura do catch-22 ou vamos parar de nos render às nossas próprias ações?

Estou ocupado demais para viver minha própria vida? Minhas crenças irracionais podem abastecer mais adiamentos desnecessários?

O truque é tornar-se consciente de quais são as coisas que realmente importam em sua vida e a partir daí questionar-se: por que é que eu perco tanto tempo com todas essas coisas que não têm importância alguma para mim?

Cuidado para não cair vítima da desculpa da obrigação, que acaba sendo mais um exemplo de catch-22 (eu não me importo com todas essas coisas que faço, mas sou obrigado a colocar tempo nelas, pois tenho contas para pagar). O que muitos de nós deixamos de perceber é que não existem obrigacões reais no mundo de hoje. Responsabilidade sim, mas obrigação não! Ninguém mais é escravo e todos nós só fazemos realmente o que queremos, o que nos permitimos fazer – e é aí que está o segredo, na permissão. Há pessoas que não se sujeitam a fazer certas coisas, com senso de obrigação ou não, elas simplesmente não fazem e pronto e adivinha só? Elas encontram uma forma, uma saída. Quase todo mundo encontra. É claro que vivemos em um mundo em que uma determinada parcela da população parece realmente ter um leque muito limitado de escolhas, ou mesmo nenhuma opção, mas se você está sentado na frente de um computador lendo isso, é porque você faz parte do grupo dos que têm escolhas.

Esse ponto nos leva ao real problema que empata nossas vidas: procrastinação! Levar com a barriga e postergar a tomada de decisão ou mesmo a reflexão sobre as possíveis soluções para nossos problemas é o que faz com que percamos tanto tempo com nada, atividades inúteis e tolas ou mesmo obrigação sem sentido. É como se nos sentissemos em modo de espera enquanto não chega a hora H de tomar aquela decisão ou pensar naquele assunto importante – enquanto a minha vida não deslancha deixa eu passar o tempo aqui fazendo coisas sem importância. O problema, entretanto, é que procrastinação é mais do que deixar para depois ou o frenesi de última hora correndo contra o tempo para fazer algo que deveria já ter sido feito, mas sim um problema para dar prosseguimento à própria vida.



Palavras-chave: Decisão, procrastinação, produtividade