Uma das perguntas que mais recebo é como evitar escolher as metas erradas, como evitar tomar decisões que nos conduzem a caminhos que se demonstram infrutíferos no futuro.

Definição de metas é primariamente uma questão de tomar as decisões certas, na hora certa. É muito comum o caso da pessoa que estuda definição de metas e então tenta aplicar tudo aquilo que aprendeu “no vácuo”, como se nada mais importasse na vida, só ela e o objetivo a ser alcançado. Também é comum vermos pessoas tentando alcançar metas aleatórias, sem muito critério, sem se questionar o que é que realmente estão fazendo, qual o propósito daquela meta, por que querem aquilo.

Essas questões frequentemente conduzem a arrependimentos e erros. Metas que se demonstram sem sentido após meses ou até mesmo anos. Obstáculos intransponíveis que não foram previstos na fase de “planejamento”. Escolhas erradas.

O processo de tomada de decisão está intrinsecamente ligado à definição de metas. Más escolhas nos levam a escolher metas erradas, ou inapropriadas das quais acabamos nos arrependendo futuramente. Então antes de se preocupar em definir metas, pense em como você toma decisões. A decisão errada que conduz à escolha de uma meta inadequada jamais irá conduzi-lo a resultados verdadeiramente positivos. Mas o que eu quero dizer com “verdadeiramente positivos”? Muitas vezes, nós achamos que sabemos o que é melhor para nós mesmos, aliás, “temos certeza”! Mas o futuro cuida de nos mostrar que estavamos errados. Toda aquela certeza se esvai, e a meta que achavamos que iria nos fazer felizes ou “consertar todos os nossos problemas” agora nem sentido faz.

Da onde vem isso? Por que tomamos decisões erradas e acabamos selecionando metas inadequadas para o nosso contexto?

Por vários motivos e cada erro pode acabar sendo causado por um motivo diferente, dependendo da circunstância. Cada pessoa é vulnerável a um grupo de deficiências de julgamento específico à sua própria personalidade. Tem aqueles que acham que “a felicidade está no futuro” e fazem de tudo então para encontrar essa sensação efêmera e elusiva. Suas decisões são baseadas no potencial de felicidade. “Essa meta vai me fazer feliz?” “Vai me fazer mais feliz do que essa outra aqui?” e assim por diante. Se a meta promete trazer felicidade, a pessoa corre atrás, se por outro lado, ela não vislumbra “grandes emoções” no final da linha, ela perde o interesse. Essa esperança de felicidade acaba sendo um ponto fraco. É isso o que leva, por exemplo, pessoas a terminarem relacionamentos: “meu parceiro não me faz mais feliz”. Há uma ideia de que o propósito de um relacionamento é ser feliz e nada mais, então quando o paceiro deixa de providenciar uma determinada emoção que a pessoa espera sentir, ela acha que o relacionamento acabou. A origem disso é ainda mais profunda, vem das ideias que a pessoa tem na cabeça sobre como a vida deve ser, como as pessoas devem se comportar, como devemos nos sentir, etc. Quando decisões são tomadas em cima dessas pressuposições, as chances de cometer erros é altíssima.

Há também aqueles que ficam andando em círculos procurando alguma coisa, na maioria das vezes dinheiro. Suas metas refletem essa busca. As decisões são sempre tomadas seguindo o parâmetro: “quanto dinheiro isso vai me fazer e quão rápido?”. Isso leva a pessoa a não se firmar com nada por tempo o suficiente para realmente obter o que ela quer: dinheiro! Isso porque ela pula para outra meta antes que possa colher os frutos no caminho atual. A outra meta promete dinheiro “ainda mais rápido” ou “mais fácil” e assim sendo, como dinheiro é o único parâmetro, ela não tem qualquer motivo para continuar se dedicando a uma meta que “parece” não ser frutífera e segue em frente com uma nova ideia, uma nova meta. Esse processo se repete indefinidamente e pessoas que tomam decisões dessa forma geralmente acabam sem o que elas mais querem. Tem até um ditado que diz que quem só quer dinheiro, acaba duro.

Mas há outras deficiências que prejudicam nossa capacidade de julgamento como a pessoa que é muito competitiva e acaba sendo facilmente atraída por metas que são simplesmente cenouras em uma pista de corrida. A pessoa corre, corre, corre atrás como um coelhinho tendo ganhar a corrida, mas por nenhum outro motivo mais “bem pensado”.

Há ainda aqueles cujo parâmetro para tomada de decisão é apenas manter o status quo. Evitar mudanças e desafios é a ordem do dia. Qualquer que seja a meta, que não ameace mudar nada, nem exigir “aventuras para fora da zona de comforto”. As metas são selecionadas de acordo com o potencial de acomodação. Quanto menos “perturbações à ordem natural das coisas” melhor.

É desnecessário argumentar que em todos esses casos, todos muitos comuns, as pessoas escolhem suas metas baseando-se em fatores, digamos, “inautênticos”. São parâmetros interesseiros, levianos, ingênuos, ou simplesmente “mal pensados”. Um grande mentor costumava frisar que a coisa que as pessoas mais precisam e menos fazem é refletir, pensar profundamente sobre as coisas em suas vidas. Às vezes, para evitar uma dessas armadilhas, basta parar para pensar, olhar a situação nua e crua, sem ilusões, sem expectativas, apenas analisando o que aquilo realmente é e o que aquela meta realmente promete – e principalmente, o que é que você tem a ver com aquilo ou se é algo que você realmente quer em sua vida. É muito fácil nos convencermos de que queremos alguma coisa por algum motivo trivial que passa em nosso teste de julgamento pela mera falta de reflexão e começamos então a perseguir aquilo até mesmo com motivação só para depois nos darmos conta de que aquela meta não “cabia em nossa vida”, aquilo não era pra nós, ou até mesmo resultou em um erro ou desvio sério.

Gosto muito de usar técnicas estruturadas de reflexão e análise. Quando digo que as pessoas devem “refletir bem” sobre suas possíveis metas, não tenho certeza de que realmente me entendem ou de que colocam isso em prática. Utilizar técnicas como planilhas, testes e questionários torna esse processo mais organizado, mais objetivo, mais sólido. É muito fácil enganar a si mesmo achando que o assunto já foi pensado e analisado quando nem cinco minutos de reflexão foi dedicado seriamente a avaliar a questão. Além disso, estrutura nos providencia visão de conjunto, amplitude. Quando precisamos pensar sobre algo sério, uma decisão a ser tomada, muitas coisas ficam em nosso ponto cego, muitos ângulos ficam escondidos da nossa visão direta, ou simplesmente não nos passa pela cabeça pensar em certos detalhes. Uma estrutura pré-definida, pré-formatada, torna esse processo simples e claro. Os itens a serem avaliados são dados ao invés de precisarem ser “buscados” na mente através de um processo criativo. Por exemplo, uma decisão comum como decidir comprar uma casa pode envolver tantos parâmetros diferentes que é difícil avaliar a questão profundamente apenas pensando no assunto. Uma colega me disse esses dias que comprou seu novo apartamento em um impulso. O lugar era maravilhoso, em um prédio seguro, um bairro moderno, tudo parecia perfeito… até que ela se mudou e começou a perceber os detalhes. A rua era super movimentada, coisa que ela odeia. Há barulho até de noite. A vaga de estacionamento é longe da entrada e ela deve passar por uma área sem cobertura, o que certamente é um ponto muito negativo em dias de chuva ou neve. Algumas janelas dão de frente para outros apartamentos e se ela quiser ter privacidade, terá que manter as cortinas fechadas permanentemente. Para chegar na via principal, ela precisa passar por um cruzamento conhecido por acidentes fatais. Esses detalhes, contudo, são coisas que ela já sabia que não gostava. Ela já tinha tido esse tipo de experiência antes. Quando ela me contou essa história, ela me disse que da próxima vez fará uma lista de itens a serem verificados no imóvel para que sua empolgação não faça com que ela deixe de perceber detalhes que se mostram importantes depois.

Como você pode ver, esse processo de reflexão do qual estamos falando pode ser algo tão simples quanto uma checklist para que você não se esqueça de observar e pensar sobre certos aspectos da decisão que você está para tomar. Em outros casos, procurar testes (na internet mesmo!) como testes psicológicos para avaliar e refletir sobre o seu perfil para determinadas metas pode ser útil. O propósito é estimulá-lo a pensar em detalhes que você não pensaria se não tivesse uma “deixa”: algo que evidencia um possível ponto negativo, algo que mostra que talvez o que você esteja esperando como resultado não é o que parece, algo que faz você mudar de perspectiva e perceber os pontos cegos da situação, enfim, essa “reflexão estruturada” pode ser qualquer combinação de material que o ajude a pensar melhor sobre a decisão a ser tomada. Pode ser escrever seus pensamentos em um diário ou journal, pode ser fazer perguntas a si mesmo de forma a investigar melhor suas reais intenções, responder a questionários (sejam preparados por você ou não) a fim de levantar mais informações sobre o contexto e também sobre como você vê a situação e o que espera. Nós geralmente achamos que sabemos bem o que pensamos e quais são nossas expectativas. Se nos perguntarem, provavelmente respondemos com tom até mesmo irritadiço como se a pergunta fosse redundante e óbvia, mas não paramos para pensar nem com leve profundidade em muitos aspectos que podem nos dar uma nova compreensão do que estamos querendo alcançar: o que mesmo você está esperando obter com isso? Qual o impacto que você acha que isso o que você está esperando obter como resultado terá em sua vida? Por que você quer perseguir essa meta? De onde surgiu essa ideia? O que isso te diz sobre a origem da sua motivação para atingir essa meta?

Você pode ter esse tipo de questionário já preparado em seu computador e usá-lo sempre que tiver uma decisão importante a tomar ou estiver pensando em perseguir uma meta nova. Só o fato de estar fazendo perguntas sobre a situação já faz com que você pare para pensar ao invés de dar de ombros e jogar respostas rápidas, como se fossem óbvias, ou simplesmente ignorar pontos que posteriormente se mostram importantes.

Vale mencionar que lógica nem sempre deve ser o principal critério. Quem começa esse processo de reflexão pode ser levado a acreditar que as decisões devem ter uma lógica, de que “esse é o segredo”. Pode ser aparentemente lógico tomar certas decisões ou escolher certas metas, mas veja que lógica é uma relação de ideias dependente das informações que temos no momento e é fortemente influenciada pelos nossos valores. Conheço muitas pessoas quer fizeram medicina, engenharia, ou direito porque era a escolha mais lógica na época, profissões “seguras e sólidas”. Quem se arrependeria de ter feito medicina, certo? O futuro, no entanto, acabou por demonstrar que o que parecia lógico não era adequado para a vida daquelas pessoas. Contexto e perfil pessoal, nesses casos, é muito mais importante do que uma lógica externa, uma solução aparentemente acima de qualquer suspeita, “boa pra todo mundo”. Não existe nada “bom pra todo mundo”, cada um de nós tem um grupo de necessidades muito específico.

Esse processo de reflexão nos ajuda entrar em contato com nosso “eu” autêntico, com quem realmente somos e levantarmos informações sobre o que realmente queremos, o que esperamos como resultado da decisão. Isso nos mostra o que devemos buscar no ambiente, no contexto. Isso nos diz o que devemos fazer, qual o caminho certo, e quais os caminhos “inadequados”. Inadequado não é errado, é apenas algo que não “bem” pra nós. Isso nem sempre é lógico. O que é melhor para nós pode ser uma combinação de preferências pessoais, necessidades evolutivas, oportunidades e valores.



Palavras-chave: Como definir metas, definição de metas, escolhas, escolher metas, metas erradas, tomada de decisão