No artigo anterior, falamos sobre como lidar com a decepção de sonhos frustrados. Nos focamos na armadilha de evitar o planejamento ou mesmo expectativas devido ao medo de se decepcionar, optando pela ilusória fantasia de “deixar a vida levar”. Muitas pessoas deixam de sonhar, deixam de planejar e deixam de agir tamanho é o medo de que “as coisas não deem certo”. Esse é um dos mais comuns mecanismos de defesa, evitar expectativas para não se decepcionar. É claro que o tiro sai pela culatra, quem não se move proativamente em direção ao progresso fica estagnado. A frustração é muito maior. Mas e quando enfrentamos o medo, tomamos atitudes em prol dos nossos sonhos e a vida nos dá uma rasteira? E aí? O que é que a gente faz?

Em primeiro lugar, é preciso pontuar, parafraseando o que já foi dito no primeiro parágrafo: a possibilidade de fracasso dos nossos sonhos jamais deve ser motivo para não planejar ou não criar expectativas. Medo de se decepcionar é um dos medos mais bobos que existe! Sim, dói, mas a dor do fracasso completo por não se ter feito nada é muito maior! Em segundo lugar, vale acrescentar que expectativas irreais podem dar margem a grandes decepções, mas é o caso de “cavar a própria cova”. Cabe a cada um estudar, pesquisar e refletir sobre seus sonhos e reais possibilidades a fim de estimar realisticamente quais as chances de que aquilo realmente venha a acontecer ou dar certo. É claro que muitos sonhos precisam ser realmente grandiosos e desafiar as estatísticas, mas cada um deve estar ciente dos seus próprios riscos e assumir com coragem a responsabilidade sobre o próprio destino. Sonhar levianamente, ou seja, simplesmente querer que alguma coisa aconteça mas não se dar o menor trabalho de correr atrás de informações e depois ficar decepcionado porque as “coisas não aconteceram como você esperava” não é só ingenuidade, no mundo de hoje em que informações brotam do chão, é burrice mesmo! Que informações seriam estas? Pesquisas e estudos sobre “como se faz aquilo” ou como as pessoas que conquistaram aquele sonho chegaram lá, organizar todos os achados, refletir fazendo paralelos sobre as próprias possibilidades em relação ao que foi encontrado, enfim, descobrir o caminho das pedras. Hoje em dia, com a internet, isso é elementar, mas pode ser trabalhoso.

Ontem mesmo eu estava conversando com um colega que está fazendo doutorado em engenharia química no MIT (Massachusetts Institute of Technology), uma das faculdades de engenharia mais concorridas do mundo. Ele cresceu em uma família pobre no interior do Rio Grande do Sul. Com muito esforço conseguiu se formar em engenharia química pela UFRGS, mas durante muito tempo, seu horizonte se restringia aos empregos na indústria química em seu estado de origem. Foi quando ele começou a dar aulas de química para alunos de ensino médio e pré-vestibular que ele se apaixonou pela área educacional e acadêmica. Ele sabia que para progredir no mundo acadêmico e se tornar pesquisador e professor universitário, ele precisaria de mais educação do que seu diploma de bacharel. Ao pesquisar sobre o assunto ele resolveu pensar grande e definiu que faria seu mestrado e doutorado na maior instituição para engenheiros do mundo: o MIT em Boston/Cambridge. Ele não queria só ser professor universitário, ele queria ser cientista de verdade, inventar o futuro, participar das mais quentes inovações tecnológicas em sua área. Ele tomou essa decisão em 2005. A partir daí ele se muniu de tudo quanto era informação sobre como se candidatar a cursos de nível superior em universidades nos EUA, como financiar seus estudos, como sobreviver em uma das regiões mais caras do mundo, melhorou seu inglês, fez 2 pós graduações para aprimorar seu currículo e no final de 2010, quando ele considerou que sua aplicação já estava nivelada com o perfil dos alunos que entram no MIT, ele se candidatou. Ele garante que sem todo esse processo de pesquisa e preparação, ele teria sido mais um dos sonhadores que tenta entrar no MIT e é solenemente recusado. Mas e se não tivesse dado certo? Ele também considerou essa possibilidade. Depois de tantos anos se preparando para o MIT, ele estaria também preparado para entrar em instituições de menor prestígio caso não fosse aceito. Ele tinha suas expectativas ajustadas à realidade e estava pronto para lidar com uma rejeição, que felizmente não ocorreu.

Um outro caso que não teve o mesmo desfecho feliz foi de uma amiga que sonhava em estudar direito na Universidade de Oxford na Inglaterra. Ela também estudou bastante o processo de admissão, se aplicou, fez tudo direitinho, mas em duas tentativas, foi recusada em ambas. Como ela lidou com essa decepção? Ela me conta que fica triste que esse sonho tenha sido frustrado, mas que não acha que todo o seu processo de preparação tenha sido em vão. Assim como o amigo engenheiro, ela tinha planos alternativos, mas ao contrário dele, ela precisou lançar mão deles. Ela está em processo de aplicação para outras instituições no momento.

Ao sonharmos e planejarmos, é muito importante manter a mente aberta e não botar na cabeça que se aquilo não acontecer do jeitinho que a gente quer, o mundo vai desabar na nossa cabeça! Há muitos casos, inclusive, em que a nossa visão é que está deturpada e se o que quiséssemos tivesse realmente acontecido, hoje estaríamos em uma situação muito pior. A frase “há males que vêm pra bem” às vezes faz muito sentido!

Uma das melhores formas de fazer isso é ter sempre planos alternativos já previamente pesquisados, refletidos e planejados. O desespero do fracasso quando não se tem nada alternativo em vista pode ser mais perigoso do que o resultado em si. Muitos suicídios ocorrem nesses momentos, quando a pessoa não vê mais a linha do horizonte a sua frente e acredita que tudo está acabado.

Isso não quer dizer que você irá se dedicar meia boca aos seus sonhos, só porque você já sabe de antemão que está tudo bem se não der certo, pois você tem outros planos! Ter alternativas ajuda muito também a diminuir a ansiedade, a preocupação e o estresse, pois o peso do acerto fica um pouco mais leve. O nível de ansiedade quando só temos (ou só conseguimos enxergar) uma única opção é altíssimo, mas quando sabemos que se não der certo, existem outras soluções, ficamos mais tranquilos.

Quando as coisas não dão certo, é importante também parar, se distanciar da situação, não fazer drama e refletir profundamente sobre o que realmente você está querendo alcançar com o que está buscando. As coisas não darem certo às vezes é uma dádiva, mas você só se dará conta disso se tiver a capacidade de se distanciar do sonho e olhar friamente e calculadamente para a sua vida. Mantemos sonhos às vezes sem motivo algum, definimos alguma coisa muito desafiadora, difícil, que parece ser “muito legal” e achamos que queremos aquilo. Outras vezes somos tão influenciados pelo meio onde vivemos, a família, a sociedade, que absorvemos metas que são na verdade o que os outros esperam de nós. Também temos o caso dos caprichos pessoais, não sabemos o que queremos, não temos ideia do destino que queremos dar à nossa vida, mas ai se alguma coisa não der certo! Um exemplo comum de capricho são os casamentos fadados ao fracasso em que uma das partes simplesmente se nega a abrir mão. Não há mais amor, não há mais vontade de ficar junto, mas o casamento não pode dar errado de jeito nenhum! Às vezes isso é influência social, familiar, outras é teimosia mesmo, egoísmo, dificuldade de abrir mão de algo que você considera “seu”.

E por fim, é fundamental manter a mente aberta e nunca associar o fracasso de um sonho com fracasso pessoal ou achar que sua “vida acabou” porque uma coisa não deu certo, mesmo algo muito importante como um casamento ou uma empresa. O bom e velho otimismo é a salvação para esses momentos. Mesmo quando não há mais espaço para plano B, nem C nem D e que é hora de partir pra outra mesmo, o melhor de tudo é enxergar a vida como um mar de possibilidades. Tudo pode acontecer, tudo pode dar certo, tudo pode dar errado, mas quem está sempre se movendo tem muito mais chances de passar várias vezes pela roleta das oportunidades; enquanto quem tem medo, paralisa e fica sempre no mesmo lugar.



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