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Na sociedade em geral, existe uma certa antagonia à ideia de planejamento. A fantasia da literatura e do cinema passa uma ideia ilusória de que a vida deve ser vivida de forma espontânea, que devemos nos deixar levar e nos surpreender com as surpresas do destino, supondo ingenuamente que essa postura nos levará a viver aventuras, emoções e serendipidades positivas. A ideia de planejamento vem dar um banho de água fria nessa expectativa de uma vida de Hollywoodiana. Ela passa a impressão de inflexibilidade e rigidez. É como a criança se sente como a mãe avisa que a brincadeira acabou e que é hora de tomar banho e ir para a cama – ah, que chato!

O planejamento é encarado como chato. Talvez um mal necessário, como ir para a escola ou sentar numa sala de espera. Além de chato, ele não é “obrigatório”. Sendo assim, então, a grande maioria das pessoas o evita como a praga e continua inocentemente esperando que serendipidades Hollywoodianas aconteçam em suas vidas. Tais ocorrência são raras. E pior, quando a vida é “abandonada” ao acaso, a tendência é a deterioração. Começa pelo corpo, que se não cuidado com apreço – e planejamento como dietas alimentares, exercícios e cuidados – tende a dar problemas. As finanças, a família e os sonhos seguem o mesmo caminho, sem cuidados focados – e planejados – tudo tende à entropia e estagnação.

De vez em quando, alguma surpresa boa aparece, fugindo à regra do planejamento e caracterizando o que podemos chamar de “serendipidade Hollywoodiana”, uma coincidência boa, uma oportunidade que “cai do céu”, uma surpresa positiva. Contudo, esses eventos ocorrem randomicamente, sem garantia alguma de que acontecerá na vida de todo mundo. Simplesmente não podemos viver esperando por esses momentos. De certa forma, sempre precisamos respeitar a potencialidade de acaso que existe em nossas vidas, para o bem ou para mal. Hipoteticamente, qualquer coisa pode acontecer na vida de qualquer um de nós. O problema todo reside no nível de poder que assumimos com relação ao nosso próprio destino. Supondo que nada muito drástico ocorra na vida, nós temos um papel em branco para escrevermos nossa própria história, a qualquer momento. Tudo depende de quão firme nós seguramos as rédeas. Eventos inesperados – positivos e negativos – podem ocorrer e devemos refletir sobre como lidar com eles caso venham a acontecer, entretanto, o poder pessoal adquirido pela pessoa que planeja abre uma vantagem incomparável para moldar a vida de acordo com a vontade pessoal. O planejamento oferece a oportunidade de literalmente criarmos a vida que desejamos. Ao invés de simplesmente sonhar e esperar passivamente que “coisas boas” aconteçam, por que não simplesmente ir lá e fazer acontecer?

Existem outros motivos que impedem com que muitas pessoas tomem a iniciativa de planejar – e são temas de outros artigos – mas um dos mais sérios é a percepção de que o planejamento “engessa”, que ele é chato e que “impede” com que as “surpresas” positivas aconteçam. Essa ideia é ingênua, ilógica e até mesmo tola. A vida continua, com toda a sua força, para o bem ou para o mal, independente de qualquer planejamento que possamos ter. Serendipidades acontecem na vida de qualquer um, de quem planeja e de quem não planeja. Acidentes e fatos negativos a mesma coisa.

O planejamento não é uma ferramenta de “bloqueio” da vida numa tentativa de controlar fatores incontroláveis. Pelo contrário, o planejamento é uma ferramenta para melhor navegarmos o conturbado mar de compromissos, sonhos e obrigações que todos nós temos. Gosto muito de comparar o planejamento de vida com a navegação. Desde que o homem começou a se aventurar nos mares o planejamento é a ferramenta que define o sucesso ou o fracasso. O mar tem vida própria e o navegador, em momento algum, acredita que ao planejar, ele estará “controlando” a natureza, impedindo com que tempestades ocorram ou que correntes marítimas mudem de direção. Ele também não espera pacificamente pegar seu barquinho e “sonhar” chegar no porto desejado, esperando ansiosamente que a vida o leve para onde ele quer ir. Evidentemente, as coisas não funcionam dessa forma e nenhum navegador, amador ou profissional, é tão ingênuo. Por que então as pessoas são tão “sem noção” em terra firme com relação aos seus sonhos e expectativas? Por que não compreendem que, assim como no mar, para se chegar a um determinado porto, é necessário traçar metas, planejá-las e se programar para chegar lá? Por que apesar de terem esse conhecimento teoricamente – todo mundo já “ouviu falar” em planejamento e metas – pouquíssimos colocam em prática?

A resposta é simples e tola: as pessoas não sabem que podem nem sabem como fazer! Não aprendemos a planejar na escola, muito menos com nossos pais, que na maioria das famílias lutavam com muita dificuldade para colocar comida na mesa e educar os filhos. Pelo contrário, crescemos vendo filmes de Hollywood e ouvindo e lendo contos de fadas em que as “coisas” simplesmente acontecem “do nada” na vida dos personagens. Crescemos achando que “deve” ser assim, afinal de contas, não vemos ninguém planejar nos filmes e nos livros, muito menos na “vida real”. Tudo o que nos resta é criar expectativas e sonhar, esperando ansiosamente que algo bom venha em nossa direção e morrendo de medo de que algo ruim acabe acontecendo.

No meio desse bolo de desinformação e expectativas ingênuas, a ideia do planejamento acaba sendo antipática e desestimulante. Ao mesmo tempo em que as pessoas acham que se coisas boas estão para acontecer, elas devem ocorrer como “surpresas”, o planejamento também desencadeia o medo do fracasso – mas e se não der certo? Ambas as percepções são fruto da ingenuidade – não é bem assim!

Planejar ou esperar é uma escolha. O esperto planeja, enquanto o ingênuo espera. No final das contas, o primeiro desfruta dos louros do sucesso e da estabilidade, enquanto o segundo amarga a desilusão de não ter visto seus sonhos realizados e com toda a ingenuidade do mundo, sem saber por quê.

Aquele que planeja entende que a possibilidade de fracasso existe – às vezes as coisas não dão certo mesmo. E daí? Esse assunto em si já rendeu outros artigos, pois existem diversas formas de encararmos os riscos, os erros e os fracassos. O X da questão é desencanar e perder o medo de tentar. A possibilidade de fracasso jamais deve ser motivo para não planejar.

Por outro lado, o planejamento em si não é tão difícil quanto parece. Muita gente deixa de planejar, não por medo do fracasso ou antagonia à percepção de rigidez, mas devido a uma simples ideia de que planejar “deve” ser muito difícil. É claro que existem níveis de complexidade, um planejamento de uma grande empresa é obviamente mais complexo do que o plano pessoal para que um indivíduo adquira maior independência financeira, por exemplo. Na vida pessoal, o planejamento pode ser bem simples e em muitos casos de sucesso, nem sequer é registrado de forma escrita, existindo apenas na cabeça do “sonhador”. É claro que colocar o plano no papel é altamente recomendado, mas só para que você tenha uma noção de quão simples o planejamento pode ser, é importante saber que muitas pessoas bem sucedidas chegaram lá tendo planos simples e enxutos em suas cabeças.

O importante é TER um plano e manter-se focado nele. O resto é detalhe. O importante é deixar de ser bobo e ficar eternamente esperando as “surpresas” da vida e começar a tomar a iniciativa para fazer acontecer.

Também é importante compreender que planejamentos podem ser isolados, ocasionais e determinados, ou seja, você não precisa planejar cada detalhe da própria vida. Essa noção de que ou você não planeja nada ou planeja absolutamente tudo também ajuda a manter o mito da inflexibilidade do planejamento. Ninguém planeja a vida toda, quem faz planos, organiza a concretização de metas específicas como escrever um livro, abrir uma empresa ou aumentar a renda pessoal. O resto da vida continua à mercê do acaso, como não poderia deixar de ser. Além disso, o plano em si não engessa nem restringe, já que a flexibilidade no planejamento é um dos pontos mais importantes de quem atinge o sucesso. A vida vem com suas surpresas, e a pessoa esperta absorve, analisa e até mesmo muda seus planos para se adaptar a novas realidades e aproveitar oportunidades. Quem tem “medo” de planejar não vê que é assim e acha que se planejou, tem que fazer exatamente o que “está no papel”, se mudar, é “porque não deu certo”. Isso é o que deixa a pessoa ressabiada com a ideia de planejamento, com medo de se sentir “engessada”.

Você percebe como a inflexibilidade está na própria pessoa e não nos planos? O planejamento é simplesmente uma ferramenta e como tal está aí para ser usada e abusada como bem desejamos, não é uma sentença absoluta que uma vez determinada tranca nossa vida dentro do que foi estabelecido. Há quem veja o planejamento dessa forma, esses acabam fracassando mesmo. Ao estudar histórias de sucesso, você pode perceber o quão flexível são aqueles que chegaram lá, todavia, tudo começou com uma meta e um plano. Ninguém é bem sucedido no vazio.

A questão é que sem metas e planos, você espera ser o que da vida?



Palavras-chave: como planejar, Deixa a vida me levar, Surpresas da vida

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