Dentre todos os componentes de uma vida de sucesso, a capacidade de “suspender a descrença” e dar pulos no escuro é a mais importante. Muito se fala em autoestima, determinação, persistência, foco, autoconfiança, entre outros atributos de pessoas bem sucedidas. Todos esses elementos têm a sua importância, alguns mais do que outros. Porém, existe um elemento que é responsável pela abertura das portas, item que é invariavelmente indispensável para qualquer mudança: a capacidade de dar passos (ou pulos!) no escuro, sem saber o que vai acontecer, sem ter perspectiva do que o futuro ou aquela oportunidade vai trazer, simplesmente confiar e ir.

Eu achei importante escrever sobre isso, pois na minha área de planejamento, muita gente fica engessada na ideia de que você deve ter perspectiva clara do que o futuro reserva e planejar muito bem como vai chegar onde você quer. Isso é bom e funciona em certas circunstâncias. Por exemplo, se eu quero escrever um novo livro, ajuda muito planejar, definir exatamente o que eu quero abordar, pesquisar o que existe para falar sobre aquele assunto, montar um esqueleto do livro e então começar a escrever, preenchendo os capítulos já pensados e planejados. Esse processo torna o autorado mais fácil e mais rápido.

Entretanto, nem tudo na vida é como escrever um livro. Há situações que podemos imaginar inúmeros desfechos, otimistas e pessimistas, mas nada que possamos fazer no presente realmente pode nos ajudar a prever – e mesmo planejar – como as coisas realmente se desenrolão uma vez que comecemos a caminhar. Para esses casos, a solução é deixar o medo de lado e se arriscar mesmo, no escuro, sem planejamento, deixando as coisas acontecerem. Vale traçar cenários? É claro! E nós fazemos isso automaticamente. Sonhamos acordado com os possíveis desfechos, tanto os bons quanto os ruins e nesse processo vamos estudando as peculiaridades daquela oportunidade que vislumbramos. Analisamos o que precisaremos abrir mão caso tomemos uma decisão de seguir em frente, colocamos essas percepções em uma balança mental que avalia os valores que damos às coisas em nossa vida e aquilo que queremos para o futuro. Pensamos no que podemos ganhar ou perder e nossa decisão de tocar o barco geralmente ocorre quando botamos fé na ideia de que temos mais a ganhar do que a perder seguindo em frente.

Algumas pessoas, contudo, têm muita dificuldade para tomar essa decisão de seguir em frente mesmo que vislumbrem muitos benefícios em diversas oportunidades que encontram pela frente e pouco a ser deixado para trás. O medo de se arriscar – mesmo que o risco seja mínimo, os possíveis ganhos muito grandes e as possíveis perdas mínimas – ainda as controla a ponto de as manter em um nível muito inferior ao que poderiam conquistar na vida.

Um dos problemas centrais desse tipo de personalidade é a necessidade de controle. Pessoas que precisam controlar os mínimos detalhes de cada situação, de cada pessoa ao seu redor, cada possiblidade futura, acabam amargando uma vida de fracassos (provocados por hesitação), pois o sucesso exige largar uma corda sem medo, mas também sem garantia de que conseguiremos alcançar a outra. Podemos levar um tombo, podemos perder muito, mas também podemos ganhar muito.

Uma solução para esse tipo de insegurança é desdramatizar os tombos, as perdas. Uma das características que observo em pessoas bem sucedidas é que elas caíram diversas vezes – e continuam caindo de vez em quando – mas elas não dão a mínima, simplesmente se levantam de novo e seguem em frente. Essa postura de não ligar para a possiblidade de cair, de perder, de fracassar, é que lhes dá a autoconfiança para dar esses pulos no escuro, ao passo que a pessoa que acaba fracassando, perde por ter tanto medo das possíveis quedas. Ela faz uma tempestade em copo d’água, um drama enorme com o mero risco de que as coisas possam eventualmente dar errado e nessa, ela se recusa a dar qualquer passo no escuro.

Essa perspectiva, todavia, é uma ilusão. A vida é um salto no escuro por si só. Qualquer um de nós pode tombar morto amanhã, sem qualquer aviso prévio, quer tomemos precauções, quer não. Tudo pode acontecer a qualquer pessoa. Esses dias mesmo eu estava conversando com uma pessoa cuja filha de 28 anos está morrendo de câncer no pulmão sem nunca ter colocado um cigarro na boca. Pessimismos à parte, meu objetivo aqui não é adotar um tom catastrófico, mas simplesmente abrir os olhos dos meus leitores para o fato de que zelo demais para com a própria vida só nos furta de viver experiências extremamente gratificantes que jamais viveríamos se continuassemos nos escondemos em nossos casulos falsamente protegidos dos males do mundo.

A vida é tempo e muito do que nos acontece ou que fazemos acontecer é uma questão de timing, ou seja, estar na hora certa no local certo em contato com as pessoas certas. Se esperamos muito, se ponderamos demais, se temos medo de nos arriscar, perdemos muitas dessas oportunidades que são levadas pelo tempo. Quando finalmente estamos prontos, já é hora errada e as pessoas que poderiam nos ajudar já não estão mais lá, já seguiram em frente, enquanto ficamos para trás comendo poeira.

Não dá pra aproveitar tudo na vida, ou sempre estar em todos os lugares ao mesmo tempo para poder aproveitar todas as oportunidades que em tese estariam disponíveis para nós, mas quanto mais nos escondemos da vida, mais acabamos nos dessincronizando desse “timing” perfeito que nos levaria a encontrar justamente o que estamos procurando ou o que seria ideal para nós.

A ideia de assumir riscos calculados também é ilusória… Ao assumir um risco, ao tomar uma decisão no escuro, correr atrás de uma oportunidade qualquer, nós temos que assumir a responsabilidade por eventuais perdas. Tudo pode dar certo e nos catapultar para novas fases e patamares na vida, assim como tudo pode dar errado e nos colocar de volta no ponto zero. Há muito tempo eu decidi que posso voltar ao ponto zero quantas vezes forem necessárias, mas vou sempre fazer o que eu quiser. Minha vida tem sido uma sequência de saltos no escuro, algumas empreitadas deram muito certo, outras deram muito errado e eu me vi algumas vezes de volta naquele fatídico ponto inicial, me senti andando em círculos várias vezes, mas por sempre estar em movimento eu sempre consegui sair de qualquer buraco que eu tenha me enfiado e é isso o que recomendo aos meus leitores: a vida é um jogo, às vezes você perde, às vezes você ganha, o truque é nunca parar de jogar! Nunca pare de se mover, nunca desista de acertar.



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