Esses dias estava lendo um blog sobre um estudante de uma cidade de interior que foi aceito em Harvard. Os comentários afloravam com respostas de esperançosos que queriam saber o que deveriam fazer para seguir os passos do garoto prodígio. A maioria corria nas linhas do “esse é meu maior sonho, como é que eu faço para entrar em Harvard?” e dentre elas, respostas de pessoas que qualquer um dotado de bom senso sabia que jamais iriam pisar em Cambridge, quem diria entrar pelas portas de Harvard como aluno. A maioria dessas respostas desses “sonhadores” continha inúmeros erros gramaticais e relatos de um caminho escolar que “não combina” com Harvard. Aqueles dotados de bom senso, por sua vez, respondiam alertando os tais sonhadores para a irrealidade de tal meta – “o cara não sabe nem escrever direito e está sonhando com Harvard!” – respondiam alguns. Outros alertavam os sonhadores para o fato de que entrar em Harvard não é “bem assim”, não é só ser “dedicado e esforçado” – já que a escola escolhe a dedo e subjetivamente seus alunos. Esses que tentavam trazer os sonhadores à realidade só levavam lenha, sendo criticados por “azarar” o sonho dos outros.

Esse é um tema bem comum: vem um sem noção, fala de seus sonhos, alguém “com noção” tenta fazê-lo por os pés no chão, acaba levando lenha, é vaiado pelos demais.

Não é politicamente correto expor as falhas nos sonhos e expectativas dos outros. Todo mundo tem direito de sonhar o que quiser…

Talvez algo não esteja bem certo com essa visão cor-de-rosa do nosso mundo moderno, afinal de contas, estamos aqui para ajudarmos uns aos outros, não estamos? Então por que não podemos alertar alguém quando nossa “noção” nos permite ver algo que o outro “sem noção” não está conseguindo enxergar?

Pois é… a maioria das pessoas não vê a vida por esse prisma… É claro que nesse caso dos sonhadores de Harvard, a maioria deles provavelmente em alguns anos terão esquecido totalmente que um dia pensaram que podiam sonhar com a faculdade mais concorrida e elitista do mundo. Só citei esse exemplo pois foi o que desencadeou a ideia para escrever esse artigo. Esse exemplo me fez pensar nos inúmeros “sem noção” que sonham com coisas que jamais poderiam realizar… e realmente, passado o tempo, não realizam.

Essas expectativas irreais são tremendos focos de infelicidade, pois a pessoa começa a associar o fracasso dos seus sonhos com falhas pessoais, o que na maioria das vezes, é uma comparação desnecessária e injusta.

Digamos que um desses “sem noção” que sonha em ir para Harvard, leva mesmo a sério e passa anos “sonhando” com a badalada universidade. O tempo passa, nada acontece. No final das contas, quando ele percebe que o sonho não se realizou, nem vai mais se realizar, ele começa a pensar que não conseguiu entrar em Harvard porque ele próprio é um fracasso. Todavia, o que ele não se dá conta é que o sonho em si já estava fadado ao fracasso desde o início, ele é que não sabia. Ele não preenchia os “prérequisitos” para entrar em Harvard, mas ele não sabia, e não sabia simplesmente porque nunca se deu o trabalho de se informar. Não importa o que ele fizesse – se é que tenha tentado fazer qualquer coisa – esse “sonho” jamais teria se realizado. É essa falta de noção que faz com que muitas pessoas sonhem com coisas que elas jamais poderiam realizar – o que elas desconhecem é o que encobre a razão que justifica a falha do sonho.

Você não pode refletir sobre aspectos do seu sonho que você nem mesmo conhece e isso é um grande problema, isso o torna um “sem noção”. Todos aqueles comentaristas jogando lenha em cima dos “críticos” ao sonho de Harvard no tal blog não fazem ideia de como funciona o processo seletivo para entrar nessa universidade e sem esse conhecimento, elas não tem como saber se o sonho dos outros ou deles mesmos têm fundações sólidas ou não. Eles estavam apenas defendo a inocente visão politicamente correta de que qualquer um pode realizar o que quiser, basta sonhar.

Quem acredita que é assim mesmo acaba frustrado com a quantidade de sonhos que não se realizaram em sua vida e nem chega a saber porquê. Muitas pessoas chegam à meia idade com depressão por esse exato motivo. Muitos dos seus sonhos não se realizaram, elas não sabem por que, a única razão lógica é que elas em si são um fracasso, o que nem sempre é verdade. O impacto dessa percepção na autoestima é dilacerante. Com o amor próprio, vai embora também a autoconfiança e a pessoa começa a acreditar que não é capaz de realizar nada, pois afinal de contas, provas ela tem de que sonhou, sonhou, sonhou e não conseguiu realizar nada.

A minha solução para esse dilema é deixar de ser um “sem noção”. Hoje em dia é possível descobrir qual o caminho das pedras para fazer qualquer coisa. Sonhar no escuro, sem ter ideia de como conquistar o que se deseja, não é mais necessário. Informações existem em abundância, em livros e na internet principalmente para as fases investigativas iniciais. O “sonho de Harvard”, por exemplo, seria desvendado se os tais sonhadores se dessem o trabalho de ir investigar o que é necessário para “ser aceito” nessa instituição – não é preciso ir mais longe do que o site da própria Universidade e umas pesquisas básicas no Google. Muitos iriam se dar conta logo de cara de que simplesmente não preenchem os prérequisitos que a universidade exige, independente de quão “dedicados e esforçados” eles sejam. Por outro lado, para aqueles que se enquadram no perfil do estudante de Harvard, saber exatamente como o processo funciona torna o sonho uma meta real, que passa a ter chances de ser de fato realizada. Isso parece tão óbvio, não?!

Pois é, mas eu fico abismado de ver a quantidade de gente que sonha, sonha, sonha, por anos a fio e nunca SE DEU O TRABALHO de procurar qualquer coisa sobre como se conquista aquele sonho! Alguns fazem uma busca no Google, entram em alguns sites e desandam a deixar comentários e enviar e-mails para os respectivos proprietários e autores fazendo perguntas, que seriam descobertas, por sua vez, se o indivíduo tivesse um pouco de vergonha na cara e continuasse sua pesquisa, ao invés de preguiçosamente perguntar para os outros. Nada contra perguntar, não me leve a mal! Mas eu pessoalmente considero um desrespeito para com os outros perguntar algo cuja resposta poderia ser facilmente encontrada se o cara se desse o trabalho de procurar. Eu acho essa postura desrespeitosa porque a outra pessoa precisará despender seu tempo para redigir uma resposta e eu considero o tempo das pessoas a coisa mais preciosa que elas têm. Se vai perguntar algo, então pergunte algo cuja resposta não pode ser facilmente encontrada ou referente à opinião pessoal da outra pessoa – “o que você acha disso ou daquilo” é uma coisa, ao passo que: “como é que eu faço para…” é outra!

No caso do blog de Harvard, os leitores estavam postando comentários como “esse é o meu maior sonho! Como eu faço para entrar em Harvard?”. Humm, ok.. então esse é seu “maior sonho”, mas por alguma razão obscura e misteriosa, você nunca se deu o trabalho de ir buscar informações sobre como funciona o processo e precisa perguntar para estranhos e desqualificados em um blog na internet? Só pela pergunta já dá pra arriscar o palpite de que ela jamais pisará na grama do Harvard Yard. Alunos aceitos em escolas concorridas costumam, no mínimo, ser proativos… se a pessoa fosse proativa, ela já saberia como funciona o processo para entrar em Harvard, já que essa é uma informação disponível em abundância por toda a internet e considerando que esse é “maior sonho” dela… Isso que eu estou implicando com a proatividade, o começo da história, não estou nem considerando a “sem noçãozisse” de fazer uma pergunta num blog, passivamente esperando que alguém responda – e responda correta e completamente.

O tal blog tinha mais de 200 respostas nesse artigo específico, inúmeros “sem noção” perguntando a mesma coisa – como faço para estudar em Harvard?” e NENHUMA resposta satisfatória, apenas críticos, alertando os “sem noção”, gente criticando os críticos por serem críticos e gente apoiando o “sonho” dos outros dizendo coisas politicamente corretas como “é isso aí”, “vai em frente”, “seja bastante esforçado e dedicado e um dia você chega lá”. Não seria de alguém lá pela centésima resposta, prestes a postar outra pergunta idêntica, vasculhar as respostas anteriores e perceber o padrão? Perceber que não obteria nenhuma resposta conclusiva? Não…

É fácil perceber esse tipo de comportamento em blogs e sites pela internet. Ao ler os comentários, eu fico de cara com a ousadia do leitor de preguiçosamente perguntar algo que, por exemplo, está respondido no próprio artigo na qual o comentário está sendo postado. Outra situação é ver comentários que perguntam coisas cuja resposta seria complicada e longa demais para ser dada (se é que alguém responderia) em uma simples resposta de um comentário em um site aleatório. Pelas perguntas que uma pessoa faz, mesmo que inocentemente, num site da internet, já é possível dizer se aquela pessoa é ou será bem sucedida na vida ou não. Pessoas bem sucedidas correm atrás das coisas, principalmente de informação, elas descobrem como se faz as coisas num piscar de olhos, já que informação é o que não falta no mundo de hoje. Se elas perguntam algo para os outros, é uma questão bem formulada, algo pertinente ao que está sendo discutido (no caso de um comentário em um blog) e não uma pergunta generalista que demonstra que a pessoa não se deu o trabalho de se informar primeiro e quer tudo na mão.

Em fórums de discussão online, os usuários mais ativos costumam ser bem grossos e estúpidos com usuários que chegam do nada e perguntam coisas que já foram respondidas centenas de vezes e estão disponíveis para qualquer um que se dá o trabalho de procurar. Praticamente todas as comunidades grandes online possuem regras em seus termos de uso que pedem para que os usuários pesquisem o fórum ou artigos, buscando a resposta para suas dúvidas ANTES de postar algo perguntando para os membros. É claro que isso não funciona na maior parte do tempo, pois os “sem noção” nunca leem essas regras e partem do princípio de que todo mundo que participa do fórum tem obrigação de responder satisfatoriamente sua dúvida.

Já dizia Einstein que o tipo de pergunta que você faz revela muito sobre você. Uma de suas mais famosas frases é:

“se eu tivesse apenas 1 hora para resolver um problema e minha vida dependesse disso, eu usaria os primeiros 55 minutos para formular a pergunta certa, pois assim que eu tivesse a pergunta certa, poderia resolver o problema em menos de 5 minutos.”

Os maiores problemas na vida das pessoas decorrem do fato de que elas não se dão o trabalho de pensar e refletir a ponto de formular as perguntas certas a fim de compreender seus sonhos e a si mesmas e assim sendo, fazem as perguntas erradas, focando-se no genérico (como eu faço para fazer tal coisa?), ao invés de parar, pensar, daí proativamente pesquisar, entender o problema e aí então, formular uma pergunta específica, certeira que irá finalmente fechar a questão e resolver o problema. Na maioria das vezes, se ela se dá o trabalho de pensar e pesquisar por conta, ela nem precisa perguntar nada para os outros, ela formula as perguntas, corre atrás das respostas e encontra as soluções sozinha.

Pois é, eu sei que estou sendo meio áspero hoje e posso até aborrecer alguns leitores. Desculpa o tom agressivo! Mas eu realmente fico encasquetado com a falta de proatividade do povo de simplesmente não procurar por informações que estão a alguns cliques de distância, ou na leitura de um livro e depois perder tempo sonhando com algo que não se sabe como conquistar – por simples falta de informação – e terminar depressivo, com a autoestima baixa, achando-se um fracassado porque não conseguiu conquistar os próprios sonhos… É o fim da picada, não é?



Palavras-chave: Infelicidade, Metas, Objetivos, Sonhador, Sonhar