Namoros podem alimentar as mais profundas ansiedades. Você se identifica com isso? Namoros, por si só, são situações em que duas pessoas ainda não se comprometeram com uma relação permanente. Então, para muitas pessoas (se não for para a maioria delas), namoros são sinônimo de experiências de insegurança e, conseqüentemente, de ansiedade. A propaganda do popular livro de Joy Brown, Dating for dummies (Namoro para Leigos), é: “Se você é jovem e ainda não namorou muito ou se é mais velho e está fora de circulação há tanto tempo que esqueceu como se paquera, namorar pode ser intimidador”. Inexperiência juvenil ou falta de prática recente, contudo, não são os problemas centrais da ansiedade nos relacionamentos. A chave está nas respostas a essas duas perguntas: “Ele(a) será bom(a) pra mim?” e “Serei bom(a) suficiente para que ela(e) me ame?”.

Ansiedade de receber

Eu acabei de conhecer uma mulher solteira que está vivenciando um tipo diferente de ansiedade. A pessoa com quem ela está saindo parece ter vontade e ser capaz de suprir suas necessidades mais profundas. Você deve estar pensando que ela está extasiada por finalmente ter encontrado o que ela esperava há tanto tempo. Contudo, para ela (e ela está longe de ser a única), esse reconhecimento de uma oportunidade excelente causa um medo de receber. Para ela e muitos outros, ter necessidades pode vir em conjunto com uma dor não prevista. “E se eu me acostumar com isso e ele me deixar? Eu ficaria devastada! É melhor não deixar isso acontecer”.

Frequentemente, esse tipo de pessoa que sofre de medo de receber tem plena convicção de não ser “amável”. Ou que não são amáveis a menos que se doem, supram e cuidem da outra pessoa. Então quando alguém se doa a eles, eles sentem que perderam o que têm de mais desejável neles mesmos.

Para dar mais um exemplo da ansiedade de receber, um homem, por exemplo, estava na casa de uma mulher e ela ofereceu a ele uma taça de vinho. Ele aceitou e após alguns segundos, vivenciou uma ansiedade aguda. Ele pensava consigo mesmo: “Depois, ela vai se ressentir de ter feito algo por mim e vai passar a me criticar”. Para ele, reconhecer sua ansiedade de receber foi certo progresso, porque antes ele simplesmente evitava mulheres generosas e gentis. Ele se sentia atraído por mulheres narcisistas que só se importavam com elas mesmas.

Outra mulher, ao perceber que o homem com quem estava saindo era seu par perfeito, convenceu-se de que devia ter alguma coisa errada. “É muito bom pra ser verdade, então provavelmente não é”, ela pensava. Falta de confiança nele foi sua primeira reação. Sua primeira atitude com relação a ele foi perguntar dele pra todo mundo, buscar seu nome no Google e prestar bastante atenção para prováveis passos em falso dele. Quando ele se atrasava cinco minutos ou tinha que adiar planos por causa do trabalho, ela imaginava que ele estava saindo com inúmeras outras mulheres.

O que faz a ansiedade de receber aparecer?

Uma idéia sobre a dinâmica da ansiedade de receber é que suprir necessidades atuais pode fazer com que a pessoa se sinta ameaçada de sentir o contraste da dor de ter suas necessidades passadas não supridas. Essa idéia é chamada “dor do contraste”. Satisfação atual relembra momentos de insatisfação passados.

Outra maneira de enxergar a ansiedade de receber é quando há a experiência de receber algo prontamente seguida pela rejeição desse algo que foi dado pela própria pessoa que o deu. Um exemplo é a mãe que compra roupas novas pra criança ir à escola ao mesmo tempo em que reclama que não sobra dinheiro suficiente para que ela possa comprar algo para ela mesma.

Para cada pessoa, as experiências passadas e as marcas deixadas por essas experiências são únicas. Mas eu vejo alguns padrões comuns que costumam ocorrer com relação à ansiedade de receber.

No exemplo citado acima, o que é que a criança deve sentir? Provavelmente culpa por estar privando a mãe de algo que ela deseja, vergonha por querer ou precisar de algo, talvez ressentimento por estar sendo agredido com a insensibilidade da mãe em perceber como essa rejeição vai afetar a criança. E quem sabe mais culpa e vergonha por se sentir ressentida e agonia por saber que não pode expressar seu ressentimento sem que isso cause rejeições futuras.

Outra situação pode ser um pai que dá mesada aos filhos ao mesmo tempo em que discursa que “dinheiro não dá em árvore” e “não espere nada de graça”. A criança enxerga esse ganhar dinheiro como uma acusação e se sente indigna. O problema com esse tipo de comunicação não são as lições sobre direito e valores. É o efeito de raiva e tristeza que o pai causa no filho ao dar algo a ele.

Em ambas as situações, a criança pode criar a idéia de que precisa ser independente, de que não pode precisar de nada, nem se submeter a ninguém. Mais tarde, receber pode causar vergonha por não ser independente.

O que se pode fazer com relação à ansiedade de receber?

1. Reconheça os sentimentos.

Boa parte de lidar com o medo de que a pessoa “é boa demais pra ser verdade” é reconhecer e dar nome às ansiedades, medos, preocupações e dúvidas. Simplesmente reconhecer os sentimentos ajuda a contê-los.

2. Aprenda com quais pensamentos e expectativas você preenche o espaço do desconhecido.

Outro passo é reconhecer que uma vez que namorar é lidar com o desconhecido, é útil conhecer seus próprios padrões de como lidar com o desconhecido.

3. Reconheça que, realmente, você não conhece o futuro.

Outra maneira simples, mas eficaz de aquietar sua ansiedade é adicionar “Mas eu realmente não sei” a cada pensamento que você tiver sobre o futuro. O “mas eu realmente não sei” desafia a aparente verdade de tudo que pensamos. Essa frase também é uma maneira de desafiar as crenças negativas por detrás da ansiedade. Repeti-la nos permite questionar idéias inflexíveis. Se repetida sempre, ela pode puxar o tapete de várias de nossas estimadas crenças. Nós não costumamos questionar nossas crenças. E como cada linha de pensamento tem alguma crença implícita, quando questionamos nossos pensamentos, questionamos essas crenças.

A prática de “não saber” como as coisas serão é diferente de confusão e dúvida. Confusões não são inteligentes: a pessoa confusa geralmente se sente perdida e à parte da vida. Com duvidas, a mente é contraída por hesitação e indecisão. Ambos estados emocionais tendem a obscurecer ao invés de esclarecer. Além disso, confusão e dúvida não são escolhidas, são automáticas. O “não saber” é uma escolha. E é feita para trazer paz.

4.Tente agir de forma a acreditar que tudo que você imagina vai dar certo e que você ficará bem, não importa o que aconteça.

Porque você vai ficar.

Espero que se você estiver preenchendo seus pensamentos sobre o futuro com idéias preocupantes, se parecer bom demais pra ser verdade, que você se conforte com a idéia humilhante de que você, eu, ou qualquer outra pessoa “realmente não sabe” o que está por vir.



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