“Há uma diferença entre realmente amar alguém e amar a ideia que se tem dela.”

Eu nunca tinha ouvido falar em Gillian Flynn e demorei para conhecer o livro/filme. Eu, que sou bem atrasadinha com essas coisas culturais, só ouvi falar do filme quando começou o burbirinho do Oscar em Janeiro (2015). Eu descobri que era um filme baseado em um livro. Eu tenho esse hábito… gosto de assistir filmes e séries só depois de ter lido o livro (quando é o caso da história ser baseada em um). Lá fui eu embarcar em um livro que eu não sabia nem sobre o que se tratava!

Foi um dos melhores livros que eu já li nesse gênero (suspense/crime). É muito, muito bom mesmo e se você ainda não assistiu ao filme, leia o livro antes! No Brasil, o título é Garota Exemplar (de Gone Girl no original) e é publicado pela editora Intrínseca. Como seria de esperar de um filme, cuja história precisa “caber” em 2 horas de imagens e encenação, só assistindo o filme você acaba não tendo o impacto que essa história realmente pode causar. O filme é bom, mas como na maioria dessas situações de livro que vira filme, não é tão bom quanto. Se você quer refletir mais sobre a análise que eu vou fazer aqui, leia o livro!

Sobre o título

Eu sempre odeio traduções de nomes de livros/filmes que não são bem traduções. O original é ‘Gone Girl’ que significa ‘Garota Desaparecida’. Em espanhol ficou ‘Perdida’, menos mal! O “exemplar” é baseado em outra tradução pobre, a série de livros que os pais da personagem principal, Amy, escrevem, que se chama “Amazing Amy” (‘Incrível Amy’), mas foi porcamente traduzido para Português como “Amy Exemplar”! Mas tudo bem, esse post não é sobre o título do livro/filme!

Qual a história

Vou escrever aqui sobre o que se trata o filme sem nenhum spoiler, então pode ler sem medo!

Na manhã do 5º aniversário de casamento de Nick e Amy Dunne, o marido recebe uma ligação no trabalho dizendo que há algo estranho em sua casa, a porta da frente está aberta e o gato (que nunca sai) está andando pelo jardim. Nick volta correndo e vê que há indícios de que sua esposa, Amy, possa ter sido raptada. Ele chama a polícia, que começa a investigação, mas como em todo caso de mulher desaparecida, o primeiro suspeito é sempre o marido. A vida de Nick então vira um inferno com a imprensa, parentes e moradores da cidade lhe pressionando para “confessar” o assassinato da mulher.

O livro é narrado em primeira pessoa, alternando entre Nick (tempo real) e Amy (em uma cronologia desde o dia em que conheceu Nick). O que vemos de Amy é o seu diário que narra a evolução do seu relacionamento e aos poucos a cronologia vai se aproximando do tempo real, mas aí eu não vou contar porque você precisa ler o livro!

O raio X de um casamento

Amy narra a desintegração do seu casamento, como ela foi de garota apaixonada para garota frustrada e, para não perder o trocadilho com a tradução literal do título, garota desaparecida.

Apesar de parecer que o livro quer enquadrar o marido como vilão e a mulher como pobre vítima, nessa história nada é o que parece! Ninguém é vilão e ninguém é vítima, mas ao mesmo tempo, ambos são caça e caçador! Essa confusão leva o leitor a horas ficar ao lado do marido, horas ficar ao lado da mulher. É uma visão interessante se formos comparar com a realidade (sem contar os fatos relacionados ao desaparecimento que marca essa história). Na vida real, cada um de nós tem sua própria perspectiva e por mais que queiramos ter razão, muitas vezes, a outra parte também está certa dentro de seu próprio ponto de vista, direitos e condições.

Ao ler Garota Exemplar, isso fica claro. Como mulheres, temos a tendência de querer sempre ficar ao lado de Amy e colocar Nick como culpado de tudo, mas ao ler o lado dele da história, nós ficamos com a pulga atrás da orelha, achando que talvez ele possa também ter razão.

O arquétipo da mulher perfeita

Em um ponto específico, contudo, não posso de deixar de concordar com Amy! Em uma determinada fase do seu casamento, Amy sente que Nick se tornou distante, já não se interessa por ela e talvez não a ame mais. Ela chega a conclusão, escrevendo em seu diário, de que os homens superficialmente estão sempre procurando a “garota legal” e que nós mulheres somos culpadas por fingirmos ser “garotas legais” a fim de conquistarmos esses homens. Quando invariavelmente nós deixamos cair a máscara e começamos a mostrar quem realmente somos os homens perdem o interesse.

“Os homens realmente acham que essa garota existe. Talvez se deixem enganar porque muitas mulheres estão dispostas a fingir ser essa garota. Durante muito tempo a Garota Legal me ofendeu. Eu costumava ver homens — amigos, colegas de trabalho, estranhos — babarem por essas medonhas mulheres fingidas, e eu queria sentar com esses homens e dizer calmamente: Você não está saindo com uma mulher, você está saindo com uma mulher que viu filmes demais escritos por homens socialmente estranhos que gostariam de acreditar que esse tipo de mulher existe e poderia beijá-los.”

A tradução para o Português deixou a desejar. O livro original é extremamente bem escrito, quase poético, mas o tradutor tenta demais traduzir ao pé da letra e algumas frases ficam “esquisitas” como esta última. Mas de qualquer forma, Amy explica que existe um tipo de mulher no imaginário masculino tachada de “garota legal”. Essa mulher é gostosa, se veste de forma provocativa, porém não depravada (a garota legal não dá pra qualquer um!). Ela está sempre linda, bem produzida e disponível para o que der e vier. Ela curte todas as coisas que os caras também gostam como esportes e bebidas. Não reclama, está sempre com tesão e pronta para transar. Ela é autoconfiante, mas não dominadora. Ela sabe o quer e corre atrás, mas não tem tanto sucesso, nem tanto dinheiro quanto o cara. Ela deixa seu parceiro sair com os amigos e ainda acha muito legal, não fala nada se os caras quiserem vir e ficar jogando X-Box até 3 da manhã enquanto ela dorme quietinha (e sozinha) no quarto.

Acreditem ou não, meninas, essa é a imagem que os homens fazem de uma mulher muito “legal”, a mulher que eles sonham, um dia, encontrar, namorar e casar. É uma modernização tosca da “Amélia”, a mulher ideal dos sonhos dos nossos pais e avós: aquela que limpa, cozinha, passa, e ainda se veste bem e nunca diz não pro sexo, afinal de contas, seu papel de mulher é fazer a vida do “seu homem” maravilhosa e feliz.

“…talvez ele seja vegetariano, então a Garota Legal adora carne de soja e é ótima com cachorros; ou talvez ele seja um artista de vanguarda, de modo que a Garota Legal é uma nerd tatuada e de óculos que adora revistas em quadrinhos. Há variações na fachada, mas, acredite em mim, ele quer a Garota Legal, que é basicamente a garota que gosta das mesmas merdas que ele e nunca reclama.”

Amy descreve com perspicácia que a “garota legal” muda seu jeito, seus gostos e personalidade para se adaptar ao que ela “acha” que o cara novo em sua vida espera dela. Ela se esforça para ser a mulher dos sonhos dele. Homens também fingem ser o que não são na fase da conquista, são ultra românticos, cuidam de higiene, se vestem bem e adotam uma pose de bem sucedidos e fodões. Depois de um tempo, relaxam e esperam que suas mulheres virem suas novas mães. Contudo, dificilmente, um homem vai mudar seus gostos, preferências e personalidade por causa de uma mulher que ele esteja a fim. Ele espera que ela faça isso! E aí é que nós nos lascamos… a maioria das mulheres cai na armadilha. Isso não é um fenômeno da sociedade moderna não! Mesmo nas sociedades mais primitivas, sem contato nenhum com a civilização, vemos esse efeito da mulher se adaptar ao que o homem espera dela e se desdobrar em mil para ser perfeita ao mesmo tempo em que tenta dar conta da própria vida e ser feliz.

A antropologia explica que na antiguidade as mulheres eram tidas como deusas pois carregavam o poder da fertilidade. Contudo, quando os homens perceberam seu próprio papel na reprodução, houve uma mudança significativa nos papéis sociais. Isso ocorreu ao mesmo tempo em que o homem se organizava em sociedade e o problema da transferência hereditária da propriedade privada começou a se tornar uma questão social. Os homens precisavam ter certeza de que aqueles filhos, que seriam seus herdeiros, eram realmente seus. Daí nasceu a instituição do casamento, a aliança (para mostrar aos outros que aquela mulher tinha “dono”) e as severas punições para adultério feminino. Não poderia haver possibilidade que a mulher tivesse relações com outros homens, pois como não existiam exames para comprovar a paternidade, ela precisava ser garantida de outras formas.

Agora, por mais que as mulheres tenham se rebelado ao longo dos milênios contra esse tipo de opressão e mais fortemente no Século XX quando conquistamos direitos e espaço, quando reduzimos todo esse contexto social para a vida de duas pessoas, nós caímos na armadilha de tentarmos nos adaptar ao que esperam de nós a fim de sermos “aprovadas” e então “escolhidas”. A liberdade e independência que nós conquistamos nos últimos 150 anos também nos trouxe o poder de escolha. Não temos mais que nos casar com os homens que nossos pais escolherem e nossos pais tampouco fazem qualquer esforço nesse sentido, além de talvez uma simples pressão para que façamos nossa escolha “a tempo” e que, de preferência, seja a certa! Essa liberdade também tira o peso das costas dos homens, eles não são obrigados a namorar ou casar com qualquer pessoa. Isso tudo é muito bom e, apesar de ainda não termos atingido um grau completamente satisfatório de independência (como argumento no artigo: Por que você está solteira?), temos o direito de escolher e até mesmo de não escolher e isso é uma vitória incrível considerando o histórico da nossa civilização.

“…a Garota Legal se tornou a garota-padrão. Os homens acreditaram que ela existia — não era apenas uma garota dos sonhos em um milhão. Toda garota tinha que ser essa garota, e, se você não era, então havia algo de errado com você.”

Intuitivamente, nós sabemos o que os homens do Século XXI querem, nós temos o script da garota legal todinho em nossas cabeças. Contudo, porque temos tanta liberdade, nenhum homem é obrigado a “nos escolher” (e vice-versa). Nesse mundo onde podemos nos dar ao luxo de tentarmos diversos pares antes de nos decidirmos em um que vale a pena casar, esses pares estão fazendo o mesmo conosco!

Agora, o que complica tudo é que “os homens são de Marte e as mulheres são de Vênus”! hahaha Mas é verdade, gente, isso complica demais as coisas! O fato é que nos final das contas homens e mulheres não se gostam realmente! Nós nos sentimos atraídos uns pelos outros por razões meramente biológicas. Uma vez que a atração tenha passado, talvez alguns meses ou anos depois do primeiro encontro, aquela pessoa (que acreditávamos amar loucamente) se torna uma completa estranha. Ambos sentimos isso, homens e mulheres.

Em Garota Exemplar, podemos ver a degradação dos sentimentos de Amy e Nick um pelo outro. Ficamos com raiva dos personagens, mas ao mesmo tempo, não conseguimos evitar a sensação de que conhecemos aquele lugar em que os “desapaixonados” chegam.

Quando nos apaixonamos – e isso ocorre tanto com homens quanto com mulheres – nos encantamos com a ideia do que aquela pessoa representa para nós, ou seja, nos apaixonamos pela representação de nossas próprias expectativas. Frases como “ele/ela é tudo o que eu queria” evidenciam esse efeito. O que nós queremos na realidade é uma pessoa que não existe, um arquétipo, uma representação de um ideal. Assistimos filmes (cujos produtores, roteiristas e diretores sabem muito bem sobre toda essa história de expectativas) que nos mostram vidas imaginadas e reforçam essa esperança de que aquele cara ou aquela garota realmente existem no mundo real. Mas eles não existem! Até mesmo nos filmes eles estão “se fazendo” (e eu não estou falando da atuação dos atores!).

Apesar de todas as nossas conquistas, ainda vivemos em um mundo machista. É possível que daqui 100 anos, as mulheres olhem para um artigo como esse e achem graça (ou tenham pena de como nós costumávamos ser!). Nesse mundo dominado pelos homens, nós mulheres, apesar de independentes, ainda sentimos que precisamos nos adaptar ao que ELES esperam de nós para sermos as “escolhidas”.

Com tanta oferta, mulheres que se negam a jogar o jogo e que não fingem ser a “garota legal” quando conhecem um cara novo, acabam tendo menos chances de ter um relacionamento. Para os homens, primeiras impressões são tudo. Criaturas visuais (e sexuais) como eles são, ser gostosa e “linda” é o primeiro teste da garota legal. Eu participei de várias pesquisas com foco nos relacionamentos na faculdade de psicologia e constatei que é universal a ideia que os homens têm de que se a mulher não passar no primeiro teste (eu foderia essa aí?), ela não vai passar mais em teste nenhum. Sexo é a coisa mais importante na vida de um homem (e não adianta espernear, pois é sim!), logo, se o cara não consegue se imaginar transando com uma determinada mulher, aquela mulher só serve pra ser amiga (às vezes nem isso…). Sim, eu sei que você pode argumentar que mulheres feias ou fisicamente desinteressantes também namoram, mas aí vai muito do cara. Tem muito homem que não consegue foder um mulherão (mas continua precisando de sexo!), então vai a feia mesmo!

Depois deste primeiro teste, os homens querem saber se a menina é legal e o código para “legal” varia bastante, mas em geral possui os seguintes quesitos:

– A garota não é chata, não reclama. O cara pode fazer o que quiser, ela fica quietinha e ainda dá risada!

– A garota não é (muito) burra. Mulher burra só serve para foder, mas não pode ser apresentada em público senão faz o cara passar vergonha! Agora, ela não precisa ser muito inteligente não, viu! De preferência que não seja mais inteligente e articulada do que o cara!

– A garota curte as mesmas coisa que o cara: comida, música, atividades sociais, filmes, etc.

Depois desse segundo teste, o cara já sabe se vai querer se empenhar ($$$) para levar ela pra cama e já tomou uma decisão se só vale a pena para foder de vez em quando ou “algo mais”.

O terceiro teste é o sexo (seria o primeiro se o cara conseguisse transar com qualquer mulher que ele estivesse interessado no ato!). A garota legal gosta (bastante) de sexo. Essa mulher está sempre pronta para transar e topa qualquer coisa (anal, oral, com mais uma mulher, em público, etc.). É claro que isso depende do cara, mas cada um tem a expectativa de encontrar uma garota que goste muito de sexo e tope fazer tudo o que ele gosta ou quer experimentar.

Se a garota passa nesses três testes e o cara estiver gostando da companhia, ele pode decidir torná-la exclusiva. Durante todo esse tempo, a menina está usando uma máscara. Ela está se esforçando para manter o corpinho em dia, bem produzida toda vez que sai com o cara, transa sempre que o cara está a fim, mesmo que seja três vezes por dia, afinal de contas, começo de relacionamento, né? Cê sabe como é que é! Mas os problemas saem da esfera física. Ela engole em seco quando alguma coisa não a agrada, porque deuzulivre ela reclamar, o cara vai achar que ela é uma chata, exigente, “alta manutenção” e vai “jogá-la fora”. Ela finge que não se importa com os maus hábitos do cara, com os amigos idiotas dele. Ela está interpretando o papel da garota legal e a fim de manter o relacionamento, ela não pode arriscar sair do personagem!

Mas sabe o quê? Essas meninas, pobres coitadas que se fazem de garota legal, estão erradas! Mas não pelos motivos mais “óbvios” politicamente falando!

Nós mulheres temos o poder da vagina! Um amigo Norte Americano que me “ensinou” esse termo amplamente usado nos EUA (the power of the pussy) para explicar que os homens na realidade são uns bobos, facilmente manipulados por quem detém o “poder da buceta”, numa tradução mais literal! Ele ainda acrescentou um “ah, se as mulheres soubessem do poder que elas têm, nós é que estaríamos fudidos!”

Você que se rói para não reclamar, firme em seu papel de garota legal, já viu aquelas mulheres dominadoras que fazem seus homens de gato e sapato, reclamam (muito) e ainda por cima dão ordens e pisam em cima?!

Pois é, essas mulheres sabem que possuem o poder da buceta e o usam amplamente!

Nossa Garota Exemplar, Amy Dunne, não sabia que era tão poderosa e tentou por muito tempo ser a garota legal, até que um dia…

Eu odiei Nick por se surpreender quando eu me tornei eu mesma. (…) Você pode imaginar, finalmente mostrar quem você verdadeiramente é ao seu cônjuge, sua alma gêmea, e ele não gostar de você?

Mulheres poderosas também correm o risco de serem trocadas, traídas, abandonadas, mas não só o risco é menor – elas detêm um maior controle sobre seus homens – como também conseguem maior margem de autenticidade para se manifestarem dentro e fora do relacionamento.

Até certo ponto, como eu já disse, nós precisamos usar uma máscara para sobreviver civilizadamente nesse mundo. Todavia, quanto mais conseguirmos impor nossa verdadeira identidade, mais feliz e satisfeitas podemos nos sentir. Se alguns homens não gostam de mulheres desse tipo, o problema é deles. Não seja você mais uma garota legal, anulando sua própria identidade para ser o que um homem qualquer espera que você seja.



Palavras-chave: Amor, Feminismo, Garota Exemplar, Gone Girl, Mulher moderna, Mulheres, Rosamund Pike, Sociologia