Como mencionei no artigo Lidando com a ansiedade normal no dia-a-dia, praticamente inexistem pesquisas científicas sobre a ansiedade comum, essa que enfrentamos no dia-a-dia, mas que não é um caso psiquiátrico.

Por esse motivo, psicólogos e médicos têm uma certa dificuldade para lidar com casos que parecem patológicos, mas não são tão sérios. Muitos, na dúvida, preferem sempre medicar o paciente.

Ainda temos a linha que segue a máxima de que as emoções e humores são uma questão de pura química cerebral e que, portanto, a ansiedade e demais distúrbios do gênero não são culpa da pessoa, apenas o cérebro “falhando” e que, logo, medicamentos são a solução. Se você já é meu leitor, você sabe que eu abomino completamente essa visão biológica dos problemas emocionais. Essa visão coloca mais lenha ainda na fogueira do egocêntrico e dramalhão que faz tempestade em copo d’água com tudo e está louco para ouvir de uma fonte confiável (como um médico ou psicólogo) que seus problemas não são culpa sua e que a solução é fácil e indolor como tomar um remedinho no horário certo todo dia.

Eu sou totalmente contra essa visão covarde e esquiva dos problemas emocionais, mas é difícil manter o argumento quando tantos profissionais da área insistem em passar a mão na cabeça dos pacientes e chamá-los de coitadinhos, injetando ainda mais drama em suas cabeças já corrompidas pela própria vaidade.

Cabe ao próprio paciente e optar por profissionais que ao invés de passar a mão na cabeça lhes forçam a encarar a própria realidade de frente e resolver problemas de forma madura e consciente, por mais difícil que esse processo seja do que simplesmente tomar um remedinho e se enganar, achando que problemas causados por sua perspectiva da vida serão afetados pela bioquímica cerebral. Isso porque a ansiedade é, em primeiro lugar, um problema de opinião, é uma postura pessoal, uma perspectiva. É a própria pessoa que escolhe ficar ansiosa porque ela quer teimosamente que o futuro aconteça bem do jeitinho que ela imagina, do contrário ela vai dar “piti” e fazer cara feia. Isso se conserta com remédio? Não, claro que não!

Permitir-se vivenciar a vida com os cinco sentidos, viver intensamente, sem expectativas, sem ansiedade é algo alcançado primeiro na própria postura da pessoa, nas idéias que a pessoa mesma tem da vida e de si própria. Se remédios pudessem mudar as idéias das pessoas, quem sabe não inventam um remédio da matemática?! Eu gostaria de tomar uma pílula e aprender a gostar de matemática! E quem sabe não criam outro remédio para acabar com a inveja! E outro para pessoas teimosas! Brincadeiras à parte, o fato é que contar que a ciência convencional e a medicina nos forneçam todas as respostas para nossas dúvidas sobre saúde física e emocional é perigoso. Manter o senso crítico é fundamental. A minha dica é sempre manter o pé atrás quando receber uma opinião “profissional” sobre sua saúde, seja mente ou corpo. É importante não perder perspectiva de que a ciência, apesar de todos os avanços, ainda engatinha. Novos achados que invalidam “verdades” anteriores são encontrados o tempo todo. Isso significa que a visão que se tem hoje de que problemas psicológicos são de origem biológica pode se tornar piada num futuro breve e daí como ficam todos aqueles que se medicaram até não poder mais quando os médicos acreditavam nessa versão da realidade? Bom, para esses pobres coitados, tudo o que os médicos têm a dizer quando novas descobertas substituírem velhas verdades é um fraco “sinto muito”. Nas palavras de Martin Seligman, Ph.D., autor de diversos livros na área psicológica, “Os remédios como Valium, Xanax e Lexotan fazem você relaxar milagrosamente e tornam a vida mais cor-de-rosa. Mas basta parar de tomar e a ansiedade volta com força total. Pior: você descobre que durante todo o tempo em que tomou o remédio, não fez nada para resolver os problemas que estão por trás da ansiedade. Se a ansiedade é uma mensagem para você mudar alguma coisa na sua vida, os remédios impedem que você as receba. São paliativos, como o álcool”.

Veja que se você sofre de ansiedade num nível considerado clínico, podem, sim, haver problemas de origem biológica tratáveis com medicação e até agora ninguém encontrou solução melhor para esses casos de distúrbio químico. No entanto, se o seu problema é uma simples ansiedade comum, apreensão, frustração, expectativas exageradas no dia-a-dia, procure ficar longe dos medicamentos e busque uma mudança em sua forma de ver o mundo. Os resultados práticos dessa postura são muito mais benéficos, saudáveis e duradores do que a felicidade ilusória do Prozac.

Nota pós publicação: A pedidos de muitos leitores, re-formatei o artigo para retirar trechos que foram considerados ofensivos! É muito importante compreender que a ansiedade é uma condição generalizada, praticamente todo mundo tem em algum nível. Casos mais graves não são apenas ansiedade, geralmente há um diagnóstico específico. Para esses casos, nas quais não discutimos aqui, tratamentos diversos com medicamentos são ideais. A minha opinião sobre não utilizar medicamentos é adequada somente para pessoas “normais” que sofrem apenas de ansiedade ordinária, mas não sofrem de nenhum tipo de distúrbio emocional clínico. A minha crítica é que a medicina (psiquiatria) adotou o hábito de medicar todo e qualquer caso, incluindo casos bem leves, ou pessoas que simplesmente chegam no consultório e “reclamam” de qualquer coisa em troca de uma receita (querem o remédio, mas não têm nada).