A síndrome da grama mais verde: Muito além da grama do vizinho

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A síndrome da grama mais verde vem daquele ditado que diz que a grama do vizinho é sempre mais verde. Neste caso, ela se revela como uma tendência de sempre buscar algo melhor, aquele pensamento de que “existe alguma grama mais verde em algum outro lugar, mesmo que eu ainda não conheça esse outro lugar”.

“A grama do vizinho é sempre mais verde” é aquela coisa de se comparar com os outros, de achar que o que você tem nunca é bom o suficiente e que os outros sempre acabam tendo algo melhor. Como psicóloga evolutiva eu entendo que isso é um mecanismo natural, lembrando que nem tudo o que é natural na psicologia humana é adequado, bom ou desejável. Por ser natural é algo prevalente que afeta praticamente todos nós, mas é um mecanismo que acaba por nos prejudicar.

Como mecanismo natural ele surgiu para que a pessoa se espertasse e não ficasse para trás na corrida social de obtenção de status e garantisse suas melhores chances de sobrevivência e reprodução. Precisamos considerar que a psicologia humana foi moldada lá na idade da pedra e herda muitos traços da evolução pré-humana. Essa coisa da grama mais verde é um processo observado inclusive em animais. Quem tem cachorro sabe que se você dá um biscoitinho pra um, tem que dar pro outro também. Eles têm esse senso de “injustiça” já desenvolvido. Isso existe na natureza justamente pra que os animais, incluindo humanos, recebam sinais psicológicos de que outros estão recebendo ou conseguindo mais do que eles e por isso precisam se espertar pra se igualar ou arriscam ficar pra trás e acabar tendo prejuízos.

É essa competitividade que está por trás dessa síndrome da grama mais verde. Do ponto de vista natural, se você percebe que a grama do vizinho é mais verde e não faz nada sobre o assunto, você fica para trás e o outro vai ter uma vantagem competitiva sobre você. É o colega de trabalho que recebeu uma promoção e você não. É o amigo que arranjou uma namorada muito bonita enquanto você tá sozinho, é o parente que acabou de comprar uma Mercedez zero enquanto você dirige um carro de 10 anos de idade que você comprou usado. As pessoas têm esse mecanismo natural pra se atentar pra essas coisas que revelam vantagem competitiva dos outros e indicam pra elas que elas estão em defasagem social. Isso tem o objetivo de as motivar para agir e conseguir equipar-se aos outros.

Esses mecanismos que permitem com que tenhamos noção do nosso status social em comparação com os outros existe em todos os mamíferos e pássaros. É um mecanismo muito antigo evolutivamente e por isso é muito difícil mexer nessas tendências e tentar colocar novos padrões baseados na nossa nova compreensão moderna que visa a busca da felicidade, do bem-estar, de um senso de satisfação para com a própria vida e envolve inúmeros outros itens que não são previstos pela natureza.

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A felicidade não é natural para nós. A natureza não está nem aí se a gente é feliz ou não. Desde que consigamos sobreviver até a idade adulta, tenhamos uma penca de filhos criados até a idade reprodutiva, os nossos objetivos biológicos estão cumpridos e a natureza não tem mais nada pra nós. Se fizermos todo esse processo extremamente infelizes, a natureza não se importa. Não existem mecanismos psicológicos pra manter um estado de bem-estar e satisfação mais prolongado, que é o que chamamos de felicidade. Se é isso o que queremos, precisamos driblar todo esse arcabouço psicológico e desenvolver novas habilidades que nos tornam capazes de superar a força desses mecanismos naturais.

Essa competitividade pode ser extremamente prejudicial pra nossa saúde mental e até mesmo comprometer nossas chances de real progresso e sucesso em nossos empreendimentos, apesar dela ser desencadeada por um mecanismo natural que existe justamente pra nos ajudar a ter êxito.

Existem inúmeras razões pelas quais esses mecanismos acabam sendo exacerbados na vida moderna em contraste com o ambiente onde eles se desenvolveram ou foram refinados na psicologia humana. Podemos considerar, por exemplo, as diversas diferenças que a nossa vida moderna tem que levam esse senso de competitividade a níveis que a nossa psicologia não consegue administrar.

A síndrome da grama mais verde acaba indo muito além da grama do vizinho. Esse mecanismo se desenvolveu num ambiente onde todos se conheciam. Os grupos ancestrais eram constituídos por grupos de no máximo 150 pessoas, muitas com graus de parentesco entre si. Todos conheciam seus vizinhos, sabiam o que os outros tinham a menos ou a mais e podiam então calcular seu status dentro do grupo. Mas nessas comunidades ninguém tinha demais. O fenômeno de acumulação de riquezas e de posse privada surgiu recentemente na história da humanidade. Estima-se que só depois da invenção da agricultura, o que aconteceu há mais ou menos 10 mil anos, é que as populações começaram a se estabelecer em lugares fixos e começou-se a ter desigualdade social de verdade, onde alguns são proprietário de terra e dos bens de produção e outros trocam seu trabalho pela subsistência pessoal. Com o crescimento das cidades a partir do início da agricultura temos um crescimento populacional que faz com que os habitantes dessas cidades não se conheçam totalmente. Mas ainda estamos falando da idade do bronze!

O que temos hoje na vida moderna nem se compara àquelas cidades de 8, 10 mil anos atrás. Hoje podemos viver numa cidade como Nova York, São Paulo ou Tokyo em que nem que tentemos, jamais poderíamos conhecer todo mundo. E ainda temos uma mobilidade muito maior. Viajamos para outras cidades, cada uma com centenas de milhares a milhões de habitantes.

O que esse fenômeno da vida moderna faz com esses mecanismos de comparação social? Eles são extrapolados a níveis que não temos condições psicológicas de administrar. Se permitirmos com que esses mecanismos guiem as nossas vidas, acabamos numa espiral negativa de frustração, inveja, competitividade extrema e uma insatisfação que jamais é saciada porque sempre vai haver alguém cuja grama é mais verde que a nossa. E ainda há algo pior! Porque na vida moderna nós não conhecemos todos os membros do nosso grupo, todos os habitantes da nossa cidade, todas as pessoas que potencialmente podem competir conosco em algum aspecto, essa síndrome da grama mais verde se torna um medo absurdo do custo de oportunidade, o que acaba por causar estagnação e extrema frustração.

O que que é esse custo de oportunidade?

O custo de oportunidade é um conceito emprestado da área de negócios e de investimentos. Temos recursos limitados, sejam recursos financeiros, tempo, energia, atenção, ou qualquer recurso que tenhamos ao nosso dispor. Quando fazemos uma escolha, de investir dinheiro numa aplicação ou num negócio, ou tempo numa atividade ou energia num projeto, estamos deixando de investir esses recursos em todas as outras oportunidades que poderíamos ter. Então estamos efetivamente abrindo mão do ganho que teríamos em todas essas outras opções. O custo da oportunidade é o que deixamos de ganhar, não necessariamente em termos financeiros, por empatar os seus recursos em uma coisa específica.

Se escolhemos assistir Netflix num Domingo à tarde, estamos abrindo mão de obter conhecimento ao ler um livro ou economizar tempo durante a semana adiantando trabalho, ou mesmo a oportunidade de assistir qualquer outra coisa na TV. De uma forma mais ampla, considerando as possibilidades de futuro e as oportunidades que ainda não conhecemos, isso pode acabar gerando uma sensação de que não podemos nos comprometer muito com o presente porque sempre pode haver algo melhor no futuro.

Isso é a chave aqui!

A síndrome da grama mais verde é o medo de ir com tudo em alguma coisa no presente com medo de que os recursos sejam empatados ou gastos no presente e aí então acabamos perdendo a chance de embarcar em outra oportunidade muito melhor no futuro.

Essa grama mais verde não é real, ela é uma possibilidade que temos medo de perder. Ficamos com medo de olhar pra direita e de repente a oportunidade que tanto queríamos passa bem rapidinho pela esquerda e a perdemos.

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Um exemplo comum é a pessoa que evita se comprometer com um par romântico porque ela sempre acha que pode aparecer alguém melhor. Se ela se compromete de forma mais oficial, de repente alguém melhor aparece mas aí ela já está num relacionamento mais estável e pode ficar difícil desatar os nós. Na vida profissional, é a pessoa que fica ciscando de um lado pro outro, procurando a oportunidade ideal sem entrar mais fundo em nada, sempre achando que há algo melhor que ainda vai aparecer.

Essa mentalidade nasce do mesmo mecanismo da grama do vizinho. Contudo, essa grama verde é hipotética, ela não existe, ela é uma abstração, uma possibilidade de futuro que se traduz como um medo de amarrar o seu bode numa árvore qualquer, então você não o amarra em lugar algum.

A pessoa fica eternamente naquele estado de standby, sempre esperando alguma grama mais verde aparecer pra ela pular e agarrar a oportunidade. Contudo, esse processo não tem fim porque essa mentalidade é circular. Quando a nova oportunidade vira realidade do presente, a pessoa começa a achar que talvez tenha algo melhor ainda mais pra frente. Então ela começa a soltar as amarras, se descomprometendo daquela situação e liga as anteninhas de novo pra procurar alguma outra coisa. Esse fenômeno é extremamente comum em relacionamentos afetivos.

O problema é que nesse processo tudo o que é realmente bom e valioso na vida vai sendo deixado pra trás. A pessoa não dá valor para que o que ela tem no presente, desde relacionamentos sociais, românticos, até profissão. Tudo é visto como menos do que as possibilidades futuras, mas à medida que ela vai caminhando, conseguindo as coisas e ganhando novas oportunidades, tudo isso vai fazendo parte do que não tem tanto valor, porque o que tem valor é sempre o que tá lá na frente, é sempre o que ainda não foi conquistado.

Isso tem uma série de consequências psicológicas que geram efeitos práticos na vida. A pessoa se torna ingrata, insatisfeita, frustrada (porque ela nunca tem o que ela quer), extremamente competitiva (porque ela não suporta ver que há outras pessoas que têm mais do que ela), ela tende a achar que qualquer desvantagem que ela tenha é uma questão de injustiça e que ela merece mais e melhor. E no final das contas, o que as pessoas mais buscam que é a felicidade, que é uma satisfação íntima para com a própria vida, aquele que cai nessa armadilha da busca eterna da grama mais verde acaba não tendo. A pessoa não consegue sentir essa satisfação porque ela está sempre na busca de algo mais, ela sempre quer algo que ela não tem, e a atenção dela sempre está voltada pra detectar essas oportunidades. O resultado é que ela nunca consegue se entregar de corpo e alma para as coisas que já existem na vida dela e isso impacta a forma como ela se sente.

Mas Fran, e se realmente tiver algo melhor no futuro? E se eu perder essa oportunidade porque eu to muito enrolado com as minhas coisas que eu já assumi?

Há duas perspectivas que precisamos avaliar:

A primeira delas é que nada na nossa vida precisa ser necessariamente permanente. Na maioria das situações podemos mudar, seja mudar de par romântico ou de emprego ou até de profissão. Não temos onisciência, não sabemos o futuro. Às vezes o desenrolar da vida nos leva em direções que nos afastam daquela realidade que temos no presente ou nos aproximam de oportunidades que trazem maiores benefícios, benefícios reais, o que nos leva ao segundo ponto.

Esses benefícios reais não são gramas mais verdes, a perspectiva não é de competitividade, ganância ou ambição. Quando mantemos aquela perspectiva de buscar “algo melhor”, esse melhor geralmente é interpretado em termos de competitividade ou de satisfação egocêntrica: um carro mais caro, uma casa maior, um cargo que nos dê status, um parceiro/a mais bonito/a, uma viagem internacional, um barco ou outro bem valioso, ou qualquer coisa que desencadeie inveja nos outros e estabeleça a nossa posição social como superior aos demais.

Mas quando a nossa perspectiva muda para necessidades de evolução pessoal, por exemplo, mudar para algo que combine mais com a nossa personalidade ou com o nosso momento de vida, isso é diferente dessa busca incessante por alguma coisa que hipoteticamente seja “melhor” do que o que temos agora. Então ao passo que a pessoa que está dentro da síndrome da grama mais verde não se compromete com nada porque ela está sempre procurando algo mais; a pessoa que está focada mais em evolução pessoal, em atingir um estado de equilíbrio na vida, se compromete de corpo e alma com as coisas na vida dela. Mas isso não significa até a morte! Há inúmeras circunstâncias na vida das pessoas que podem resultar na necessidade de mudança, seja o término de um relacionamento, uma mudança de carreira, uma mudança de cidade, de país, até mesmo uma reviravolta completa na vida. O fato dela se comprometer firmemente não significa que ela não possa vir a eventualmente abrir mão dessas coisas e fazer opções diferentes ou aproveitar outras oportunidades.

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A diferença está na mentalidade, no foco, na postura mental e isso é que define com a pessoa se sente. Enquanto a pessoa que está sempre procurando algo melhor, e por isso nunca consegue se sentir satisfeita com o que ela tem, não consegue se sentir genuinamente feliz; do outro lado a pessoa que se compromete com suas decisões, por mais que ela saiba que existam milhões de oportunidades melhores no mundo, sente a satisfação de vivenciar aquilo integralmente. Isso proporciona a sensação de felicidade porque existe um senso de tranquilidade, de autoconfiança, de autoestima, que a outra pessoa que está sempre em busca de algo melhor não consegue sentir. Pelo contrário, o que ela sente é uma ansiedade de que ela possa perder oportunidades ou não encontrar nada melhor. Ela sente frustração porque ela acha que o que ela tem não é o melhor. Isso afeta sua autoestima, que fica muito sensível à essa competitividade. Então essa eterna busca ela deixa a pessoa muito infeliz.

O segredo aqui é aprender a se comprometer com as próprias escolhas e entender que nós não precisamos necessariamente do “melhor”. Isso não significa fazer voto de pobreza ou qualquer coisa nesse sentido. Podemos buscar sucesso profissional, sucesso financeiro, novos patamares. Quanto mais estabilidade nós temos na vida, maior a probabilidade de nós nos sentirmos felizes porque a desestabilidade financeira e profissional provoca inúmeras emoções que são a antítese do que definimos como felicidade. Então se comprometer com as próprias escolhas não é meramente aceitar pouca coisa e achar que está muito bom. Não! Podemos ter planos profissionais, metas financeiras e outros patamares que desejamos alcançar, mas ao longo do caminho nos comprometemos com o que escolhemos e entendemos o papel dessas escolhas na construção dessa vida futura. Isso é diferente de ficar constantemente antenado para ver se não perdemos uma oportunidade ou de sempre achar que o que se tem no presente não é ideal e que algo no futuro será melhor. Esse foco no futuro torna a vida no presente infeliz.

O ideal é entendermos que as ações no presente pavimentam a estrada para o futuro e conscientemente trabalhar pra construí-lo. O foco, contudo, está no presente, nas experiências e no aproveitamento do que se tem.

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