Nós gostamos de acreditar que temos controle sobre nossas vidas. Essa crença fornece, pelo menos para alguns, um senso de estabilidade, conforto, ao passo que a ausência dessa sensação de controle pode desencadear quadros desde ansiedade e depressão até síndrome do pânico e mesmo levar ao suicídio. Há pessoas que acreditam que se não tiverem controle sobre a própria vida, não vale a pena viver. Esse controle é, entretanto, falso, é só uma sensação, ele não existe de fato!

Nós não sabemos realmente o que é melhor ou pior para nós mesmos e não temos muito controle seja sobre nós ou sobre nossa própria vida. O conto abaixo relata com clareza essa “mania” que temos de julgar os eventos em nossa vida, rotular as coisas como “boas” ou “ruins”, “certas” ou “erradas” para, depois, buscarmos validação alheia:

Havia uma vila em que um dos habitantes era um velho sábio. Os moradores da vila confiavam nesse homem e esperavam que ele lhes desse respostas para suas preocupações e questões.

Um dia, um fazendeiro da vila visitou o sábio com uma questão angustiante: “Sábio, por favor, me ajude!”, disse ele. “Uma coisa horrível aconteceu. Meu boi morreu e eu não tenho nenhum animal para me ajudar a arar meu campo. Também não tenho condições de comprar outro. Não é a pior coisa que poderia me acontecer?”

O sábio respondeu: “Talvez sim, talvez não”. O homem voltou apressadamente para sua fazenda e reportou aos vizinhos que o sábio estava ficando maluco. Certamente essa era a pior coisa que poderia lhe acontecer, como é que o sábio não conseguia ver isso?

No dia seguinte, um cavalo jovem e saudável foi visto perto da fazenda. Como o fazendeiro não tinha mais um animal para ajudá-lo com o trabalho, ele resolveu capturar o cavalo perdido para substituir seu boi morto. O fazendeiro estava novamente feliz. Ele retornou ao sábio para pedir desculpas. “O senhor estava certo! Perder meu boi não foi a pior coisa que já me aconteceu. Na verdade, foi uma benção disfarçada, pois se meu boi não tivesse morrido, eu nem teria me interessado em capturar o cavalo que, no final das contas, torna meu trabalho muito mais fácil e produtivo do que meu lerdo e velho boi. O senhor deve concordar comigo que essa é a melhor coisa que já me aconteceu.”

O sábio, porém, novamente respondeu: “Talvez sim, talvez não”. “Ah, de novo, não!”, pensou o fazendeiro. “O sábio deve estar ficando maluco mesmo, ele não consegue dar uma resposta certeira, como assim ‘talvez sim, talvez não’? As coisas são certas ou erradas, boas ou ruins, mas esse velho não sabe é nada, por isso é que ele está tentando me enganar com essa conversa mole!”.

Alguns dias depois, o filho do fazendeiro estava arando o campo com o cavalo novo, quando este se assustou com uma cobra e derrubou o rapaz, que quebrou a perna. “Mas que maldição!”, esbravejou o fazendeiro. “Sem a ajuda de meu filho, nós vamos morrer de fome e agora eu ainda tenho que arcar com as despesas de tratamento médico para esta perna quebrada. O aparecimento deste cavalo em nossas vidas só nos trouxe tristeza.”

Mais uma vez, o fazendeiro foi falar com o sábio. Dessa vez, ele perguntou: “Como o senhor sabia que capturar o cavalo não foi uma benção como eu acreditava? O senhor estava certo novamente, meu filho está machucado e não poderá me ajudar por um bom tempo. Dessa vez eu tenho certeza de que isso foi mesmo a pior coisa que já nos aconteceu. O senhor deve concordar comigo, não é possível que o senhor não seja capaz de ver a tristeza e infelicidade dessa situação…”. Porém, assim como havia feito antes, o sábio calmamente respondeu: “Talvez sim, talvez não”. Enraivado e acreditando que o sábio era um farsante, o fazendeiro voltou para sua fazenda.

No dia seguinte, tropas do exército visitaram todas as fazendas e cidades na região angariando todos os homens e rapazes capazes pois uma nova guerra acabara de estourar. O filho do fazendeiro acabou sendo o único homem jovem que não fora levado. Ele viveria, enquanto muitos outros talvez não tivessem o mesmo destino, e seu único mal era uma perna quebrada.

Esse conto nos providencia um grande ensinamento que podemos verificar ao olhar para nossas vidas até o presente momento. Nós julgamos demais, achamos demais, concluímos demais, quando, na grande maioria das vezes, estamos redondamente errados!

O grande perigo desse “achismo” grandioso é pensar que sabemos exatamente o que nos fará feliz ou o que é melhor para nós e apostarmos todas as nossas fichas num determinado futuro, rejeitando outras possibilidades, desencadeando, com isso, ansiedade e expectativa. Tudo em cima da crença tola de que sabemos o que é melhor ou pior para nós. A ansiedade nasce exatamente quando acreditamos que se algo acontecer (ou não acontecer) ao contrário do que esperamos, não ficaremos satisfeitos.

O mesmo comportamento gera as mais diversas divergências entre pais e filhos, amigos e parentes. Um acha que sabe o que é melhor para o outro e, com as melhores intenções, tenta convencer a outra pessoa a seguir o caminho que acha mais correto. O outro, por sua vez, também “tem certeza” de que sabe o que é melhor para si e, ao rejeitar a ajuda, cria-se um conflito.
A verdade é que ninguém sabe nada! Ninguém sabe o que é melhor ou pior, simplesmente não temos visão de conjunto o suficiente para visualizarmos conseqüências no longo prazo para que possamos julgar o presente. O que fazer, então?

O primeiro volume da coleção Carpe Diem – a ser lançado amanhã (18/11) – trata diretamente da questão das expectativas, como lidamos com o futuro, como fazemos nossos planos, o que está ao nosso alcance, o que é perda de tempo e qual o melhor posicionamento para seguirmos pela vida com desenvoltura sem darmos passos em falso por termos muita ou pouca certeza.

ATUALIZAÇÃO:

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Palavras-chave: Planejamento Pessoal