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Todo dia dois de fevereiro celebramos aqui nos EUA o Dia da Marmota. É um ritual centenário no qual uma marmota (um bichinho da família do esquilo) dá uma de meteorologista e “prevê” se o inverno vai durar mais seis semanas ou se a primavera vai chegar mais cedo! O evento mais famoso ocorre numa cidadezinha da Pensilvânia chamada Punxsutawney (lê-se “Panksatâni”).

O filme Feitiço do Tempo (com Bill Murray e Andie MacDowell) se passa nessa cidade e o pano de fundo para o enredo é o Dia da Marmota. Esse filme vem sendo usado desde que foi lançado em 1993 em inúmeros cursos de desenvolvimento pessoal e administração do tempo devido a sua riqueza em conceitos que comumente são abordados nesse tipo de evento.

Basicamente, o filme se desenrola quando Phil (Bill Murray), um repórter do tempo, vai até Punxsutawney cobrir o evento com sua produtora e um cinegrafista, preparado para voltar para casa no final do dia. Uma nevasca interrompe seus planos e ele se vê preso na cidade sem poder sair. O enredo começa a se desenrolar quando, ao acordar no dia seguinte, Phil se dá conta de que acordou no dia anterior.

Todo dia ele acorda no dia dois de fevereiro e precisa reviver as mesmas experiências, cobrir o evento, encontrar as mesmas pessoas, etc.

Já faz muitos anos que eu assisto a esse filme todo Dia da Marmota. Como o filme é sempre exibido na TV nessa data, eu aproveito para tirar o dia para uma reflexão pessoal e reciclagem a partir dos meus insights sobre o filme. Mesmo já tendo assistido a ele, literalmente, mais de dez vezes, a cada vez que eu assisto, a percepção é diferente, eu percebo coisas novas e tenho novos insights – não do ponto de vista cinematográfico (sobre isso eu não sei nada!), mas quanto à reciclagem que o próprio personagem passa durante o filme.

Este ano, eu percebi uma mudança significativa na minha percepção sobre o filme que eu quero compartilhar aqui com vocês. Nos últimos anos, eu estava encasquetada com a idéia de que esse é um filme sobre a utilização e valorização do tempo… Na verdade, percebi dessa vez que esse é apenas um pequeno detalhe. A moral da história é a mudança de atitude, a reciclagem pessoal realizada pelo personagem.

Os pontos que saltaram mais para mim dessa vez foram:

– A reciclagem, a mudança íntima não depende das circunstâncias. As pessoas culpam tanto as circunstâncias, situações e condições de vida pela sua infelicidade ou felicidade que não percebem que o que estão procurando de verdade, aquela paz interior que elas nem sabem o que é, é “encontrável” e independente de qualquer circunstância de vida. Isso fica claro no filme – o dia é sempre o mesmo, no entanto, o personagem passa por diversas fases, adotando as mais diversas atitudes, de revoltado a despreocupado, de depressivo a engajado e motivado. Tudo em seu mundo era o mesmo, no entanto, era sua postura íntima que determinava “o que acontecia” em sua vida.

No fundo, as pessoas sabem disso. Chega a ser um clichê, mas, na prática, as pessoas ficam o tempo todo pensando em como podem mudar as circunstâncias numa tentativa de alterar a forma como se sentem com relação a si mesmas e à vida. “Quando eu terminar a faculdade”, “quando eu me mudar daqui”, “quando meus filhos crescerem”, “quando eu terminar de pagar minhas dívidas”, “quando, quando, quando”… É uma esperança que nunca morre, de que algo futuro acontecerá e tornará a vida melhor.

Isso não é nenhuma novidade, mas, na prática, quase ninguém tem a atitude ideal, a atitude de quem não espera que o mundo em volta mude para ela mudar, a atitude de quem vai lá e faz e não espera nada em troca, a atitude que todos querem ter. Mas e por que é assim? Ah, não me venha com o super clichê “mas é que não é fácil, né?”. A questão não é ser fácil ou difícil, é o preço que se tem que pagar! É por isso que o mundo se arrasta a passos de formiga e sem vontade…

O que mais mantém as pessoas num nível abaixo da sua própria capacidade é o apego aos ganhos secundários, sejam eles financeiros, emocionais ou mentais. Para prosseguir e superar qualquer coisa na vida é preciso sair de um degrau e ir para o próximo. A maior dificuldade das pessoas é justamente abrir mão do que se tem no degrau em que ela está e enfrentar o desconhecido presente no degrau seguinte.

O preço a pagar é abrir mão de tudo o que já foi conquistado no ponto em que se está – principalmente do ponto de vista emocional e mental. O quero dizer com isso? Do ponto de vista emocional, temos nossos medos, preferências, nosso temperamento. Uma pessoa tímida, por exemplo, se apega ao ganho secundário do que ela já conhece sobre a sua condição e, mesmo se odiando por ser tímida, ela não tem coragem de enfrentar o desconhecido proporcionado pela auto-exposição. Ela, então, evita se expor e se fecha em seu mundinho, esperando que algo de fora mude para que ela deixe de ser tímida – como, por exemplo, uma situação externa em que ela se sinta confortável o suficiente para se expor sem vergonha. Porém, mudar de verdade e não sentir vergonha em nenhuma situação está fora do seu alcance, chega a ser uma ideia aterrorizadora para ela, por mais que seja uma condição extremamente desejada!

Do ponto de vista mental, as ideias e conceitos que as pessoas têm sobre as coisas estão entre os fatores que encabeçam a lista de impedimentos para uma reciclagem íntima mais profunda. Uma ideia equivocada sobre um assunto gera atitudes e comportamentos que repetidamente não dão certo e a pessoa fica batendo a cabeça na parede se perguntando por que aquilo não funciona, enquanto a ideia que gera a atitude equivocada é mantida mais por conforto do que por qualquer outra coisa. O ser humano é um bicho difícil! Preferimos a certeza do saber (mesmo que o que sabemos esteja errado) à dúvida e a incerteza do que está fora do nosso alcance. É por esse motivo que as religiões são tão populares. As pessoas precisam de respostas, mesmo que sejam esdrúxulas, mentirosas ou completamente sem sentido!

Frente a essa realidade, simplesmente jogar um “mas não é fácil” não funciona muito! Fácil ou difícil, a pessoa precisa, em primeiro lugar, estar intimamente disposta a abrir mão do que a mantém confortável em sua situação atual. Uma técnica para se fazer isso é clarificar a intenção por trás de suas vontades e atitudes sem se “autocorromper”, ou seja, sem mentir para si mesmo só para ser politicamente correto. E isso é realmente uma das coisas mais difíceis de fazer, fugir das respostas socialmente aceitáveis, as respostas prontas que repetimos como papagaios – assim como o velho clichê “mas não é fácil”!

Um exemplo claro desse caso seria uma mulher casada de meia idade que se motiva para se vestir bem para o trabalho todo dia. Sua real motivação é atrair os olhos da população masculina do escritório, mas a mentira que ela conta para si mesma (e para os outros) é que ela é uma pessoa com uma boa autoestima e que gosta de se valorizar, se vestindo de forma “profissional”. A verdade real ela provavelmente jamais admitiria para si mesma. Ela está confortável demais apegada à mentira de que sua aparência é uma questão de autoestima, sendo que autoestima é o que ela menos tem!

Como você pode ver, uma real reciclagem íntima vai muito além do binômio fácil x difícil. Não é uma questão de não ser fácil, é uma questão de preço a pagar e de sua disponibilidade íntima para ser realmente sincero consigo mesmo e admitir intenções que podem ser tão vergonhosas (do ponto de vista pessoal) quanto o caso da mulher de meia idade que gosta de atrair a atenção masculina no escritório.

Se a mudança real ocorre por dentro, ela começa por uma maior compreensão do que você realmente quer, dos motivos pelos quais você faz o que faz. Dentre todos os obstáculos para o crescimento pessoal, a sinceridade para consigo mesmo é a coisa mais difícil!

– Outro ponto que ficou claro dessa vez foi o fato de que o caminho nem sempre é conseguir o que se quer. Se Phil tivesse encontrado o gênio da lâmpada no começo daquele dia e pudesse realizar seus três desejos, todos eles o colocariam de volta na mesma situação de vida que ele tanto odiava. Phil queria desesperadamente sair de sua cidade, queria outro emprego, ou seja, ele queria que as circunstâncias mudassem e achava que se o que ele queria acontecesse, se sentiria melhor. Ele estava errado! O que ele precisava mesmo era ficar na cidade (mas, se dependesse da vontade dele, isso não aconteceria).

Esse é o grande problema de confiarmos em nossas vontades e desejos ao procurar por melhoria pessoal. Se dependermos de nosso ego, vamos viver uma vida fútil e preguiçosa até cansarmos de nós mesmos (essa foi, aliás, uma das fases pela qual Phil passou durante o filme, a fase da “diversão” de passar tempo fazendo coisas inúteis e se divertindo). Quando nos deparamos com qualquer situação que ameaça nosso conforto (seja emocional ou físico), nosso primeiro impulso é reagir contra a instalação da situação ou tentar sair dela o mais rápido possível e voltar à zona de conforto. Nosso primeiro pensamento é achar que as coisas estão dando errado pelo simples fato de que elas não estão saindo como esperávamos. Não há nada de errado com isso, na verdade, visto que se trata de um dos impulsos mais básicos do ser humano. O que faz toda a diferença é o foco. Pessoas que têm o foco na assistencialidade, por exemplo, podem até ter uma vida confortável, mas se for necessário passar por algum desconforto para ajudar o próximo, tudo bem, não tem problema, nem reclamação.

O ponto principal aqui é nos questionarmos sobre qual a raiz do que desejamos – por que queremos o que queremos? Mais uma vez caímos no dilema da intenção. Estamos simplesmente evitando o desconforto porque queremos só sombra e água fresca? Nossas ações são resultados de intenções que temos vergonha de admitir até para nós mesmos como no caso da mulher “bem vestida” no escritório? Estamos evitando passar por uma situação que exigirá mais de nós do que estamos dispostos a pagar como no exemplo da pessoa tímida que se recusa a se expor? Do que estamos fugindo quando lutamos contra uma situação qualquer? Mais uma vez, nós, mestres da enganação pessoal, damos a nós mesmos desculpas esfarrapadas e acreditamos nelas como uns patinhos e pronto, fim de papo, ficamos confortáveis como a nossa explicação sobre nossos motivos e fica tudo por isso mesmo.

É aquele negócio: nós nos convencemos de que se fizermos X nossa vida será perfeita, mas nem nos damos conta de que deveríamos estar nos preocupando com Y e, nessa obsessão com X, nós nem nos damos conta de que Y existe! Vivemos atrás de formas de conseguir o que queremos, sem ao menos nos questionarmos se os resultados realmente farão qualquer diferença positiva em nossa vida.

Quanto mais desejamos algo, mais criamos expectativas em cima da idéia de que precisamos ser/ter/fazer aquilo. Uma mulher solteira coloca tantas expectativas na idéia de uma “alma gêmea”, de um homem perfeito que, quanto mais o tempo passa, mais ansiosa ela fica, mais expectativas ela cria e isso a torna cada vez mais exigente, reduzindo cada vez mais a possibilidade de que qualquer relacionamento a satisfaça – a vida real nunca é tão boa quanto nossas fantasias, quanto mais fantasiamos, mais nos decepcionamos com a realidade! O jovem executivo coloca tantas expectativas em sua carreira, achando que sua vida será perfeita quando ele atingir o topo de sua profissão, que ignora todo o resto: família, saúde, nada tem tanta importância quanto sua carreira. A jovem mãe coloca tantas expectativas em cima da maternidade que sufoca os filhos e termina por afastá-los na maturidade.

Expectativas são poderosas armadilhas. Raízes da ansiedade, expectativas criam um rol de conflitos emocionais e truques mentais que têm o poder de enganá-lo e ludibriá-lo através de sua “máscara” preferida: a esperança. As pessoas constroem castelos, mundos ideais, realidades perfeitas em suas mentes e as alimentam com essa falsa esperança. Quando a realidade começa a demonstrar desvios, vem a ansiedade, o medo e a teimosia de querer que as coisas se desenrolem como imaginado. Quer saber como lidar com isso? O filme apresenta uma das melhores retratações da “personalidade ideal”, mostrando como, no final do filme, o protagonista conseguiu mudar sua realidade sem mudar absolutamente nada em suas circunstâncias externas.

Enquanto estivermos nesta “lenga-lenga” de mentirmos para nós mesmos, contando coisas que sabemos que queremos ouvir, ficaremos na situação da pessoa que deseja ter paz interior, deseja ser feliz realmente, deseja ser aquela pessoa pró-ativa, corajosa e determinada que ela tanto admira, mas, no final das contas, todas as suas tentativas morrem na praia. Isso acontece porque por trás das mentiras que contamos a nós mesmos está a verdade sobre nossas reais intenções e, no final das contas, elas sempre nos puxam o tapete na hora H!

Traga o filme para a sua vida. Para muitos, a metáfora cai como uma luva. No filme, o dia não passava, na vida real, os dias passam. Mas, assim como no filme, na vida de muita gente nada muda, tudo é sempre igual, como se fosse Dia da Marmota todo dia!

A maior lição que podemos tirar do filme é que justamente o que está fora não precisa mudar, pode continuar tudo igual, quem tem que mudar é você! Você mudando, tudo em volta muda, mesmo que seja apenas uma questão de perspectiva. O mundo reage à sua atitude, as pessoas reagem ao que você apresenta a elas. Se você quer que as pessoas mudem com relação a você, mude com relação a elas.

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Palavras-chave: Dia da marmota, expectativas, Expectativas Emocionais, Feitiço do Tempo, Groundhog Day, paradigmas

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