Como desenvolver a criatividade?

Franciane Ulaf

Como Desenvolver a Criatividade

Não conheço ninguém que não queira ser mais criativo! Esse é um talento universal que traz inúmeros benefícios em absolutamente todas as áreas da vida. Algumas pessoas pensam em criatividade somente em termos de artes e estética, mas na realidade, a criatividade está em tudo. Podemos ser mais criativos ao solucionar nossos problemas, podemos ser mais criativos em nossos relacionamentos, podemos ser mais criativos em nossa comunicação, podemos ser mais criativos no trabalho, enfim, ter a capacidade de conceber formas diferentes e não óbvias de se chegar a um determinado fim é a própria essência da vida. Sem criatividade ainda viveríamos na idade da pedra, ou talvez já teríamos perecido como espécie.

A dificuldade em deixar a criatividade fluir pode nascer de diversas formas. A primeira delas decorre dessa associação com a arte. Algumas pessoas acreditam que criatividade só ocorre quando você faz algo muito diferente, original. Não… todos nós praticamos a criatividade diariamente. Basta termos um problema, a solução, quando não é óbvia, é criativa. Podemos não pensar que nossas “saídas” são criativas, mas são!

Outro motivo pelo qual muita gente acha difícil ser criativo é a crença de que criatividade é algo muito grandioso e excepcional, algo que ocorre em um momento singular. Pensamos em pessoas como Isaac Newton embaixo da árvore, tendo o insight que desvendou a força da gravidade e mudou a ciência ou Arquimedes se dando conta de que seu próprio peso modificava o volume da água em sua banheira. Como raramente temos momentos assim, tendemos a pensar que não somos criativos e fazemos uma força enorme “tentando ser” quando na realidade, somos muito mais criativos do que imaginamos.

Essas duas percepções acabam colocando um peso muito grande em cima da nossa expectativa de criatividade. Queremos ser criativos, mas ficamos esperando que o “evento” da criatividade ocorra como em um filme, um momento isolado, grandioso, em que teremos a revelação da solução dos nossos problemas ou uma ideia sensacional, como a maça caindo da árvore e Newton descobrindo a força da gravidade (uma descoberta que foi muito mais complexa e longa do que esse “evento” isolado!).

Quando pensamos em Isaac Newton, Albert Einstein, ou Arquimedes, nos lembramos das historinhas que aprendemos na escola e ficamos imaginando que eles não estavam fazendo nada quando, de repente, tiveram a maior revelação de suas vidas e mudaram o mundo. Insights e eventos criativos são representados dessa forma em livros e filmes, o que reforça ainda mais nossa percepção.

Para sermos mais criativos, precisamos compreender a natureza da criatividade, e para isso precisamos deixar de lado alguns dos mitos que a cercam. Ideias inovadoras e revolucionárias geralmente não aparecem na cabeça de uma pessoa do nada, mesmo se essa pessoa for um gênio! Elas são produto de raciocínio contínuo e, principalmente, troca de ideias.

Para muitas pessoas é surpresa quando explico que Albert Einstein não era a única pessoa em sua época que estava pensando sobre tempo e espaço. De fato, há muita gente que alega que Einstein não descobriu a relatividade, e na realidade “roubou” as ideias de outros cientistas. Se isso é verdade ou não, eu não tenho gabarito e conhecimento para julgar, mas é sim verdade que muitos pesquisadores da época estavam todos chegando à mesma conclusão – e Einstein estava no meio.

Em todas as grandes descobertas da humanidade, se formos pesquisar realmente a fundo a vida dos envolvidos, vamos ver que na época haviam muitas pessoas tentando chegar às mesmas conclusões, e essas pessoas frequentemente trocavam ideias. A era do Iluminismo, por exemplo, foi marcada por uma intensa troca de informações que resultou na maior guinada social e científica da história. Isso ocorreu porque o intercâmbio entre os pensadores era intenso. Eles se reuniam nos famosos salões literários em capitais Europeias como Paris e Londres para discutir e socializar. Essas interações deram fruto a imensos avanços em todas as áreas do conhecimento humano.

Quando estamos tentando ser criativos, muitas vezes não nos damos conta de que o processo de desenvolvimento da nossa ideia, solução, ou criação é lento e passa por vários momentos em que sentimos que temos “revelações” que nos ajudam a avançar o caminho. Com “revelações” não estou querendo dar uma conotação religiosa ou qualquer coisa nesse sentido, mas ilustrar aqueles momentos em que nos damos conta de que podemos avançar de uma forma que não tínhamos pensado antes. Esse processo é massivamente potencializado se começamos a trocar ideias com outras pessoas. Essas pessoas, contudo, devem ser indivíduos que “estão na mesma página” que nós, ou seja, pessoas que também estão buscando soluções similares. Um amigo ou parente que não entende, nem concorda com o que estamos fazendo não terá qualquer impacto no processo criativo. Isso não quer dizer que não devemos aceitar críticas, mas o ideal é que as críticas venham de gente que entende “do que estamos falando” e não de quem simplesmente não acredita no que estamos fazendo e não bota fé em nosso sucesso. Esses devem saber o quanto menos possível.

Algo importante que devemos compreender sobre a criatividade é que ela nem sempre é um insight isolado, como James Bond se safando de uma dificuldade impossível. O processo criativo pode ser lento e ir se construindo aos poucos. A cada nova informação, a cada novo insight, vamos clareando as ideias até sermos capazes de enxergar o assunto sob uma nova perspectiva. É nesse ponto que somos criativos, ao termos ideias que não teríamos antes de todo esse processo.

Como a criatividade é algo lento, que se constrói aos poucos, é imprescindível organizarmos as informações que vamos adquirindo e os insights que vamos tendo, do contrário, isso acaba se perdendo e como consequência nos afogamos em confusão. Todos os grandes pensadores da história mantinham anotações, cada um em seu estilo particular, de tudo o que lhes vinha à cabeça relacionado às suas ideias e de suas interações com outros pensadores. Através do estudo desses cadernos, historiadores podem entender melhor como cada um deles chegava às suas fantásticas conclusões. De Leonardo da Vinci à Thomas Edison, grandes descobertas podem ser atribuídas, pelo menos em parte, às anotações que registravam para a posterioridade ideias, comentários, e insights que poderiam ter sido simplesmente esquecidos ou não valorizados. Às vezes só damos valor para uma determinada informação quando a vemos de longe, olhando do presente para o passado. Quantas informações e ideias nós já deixamos passar que poderiam ter nos ajudado a solucionar problemas ou criar coisas novas? Muitas vezes não sabemos, porque quando não anotamos, tendemos a simplesmente esquecer. Sempre achamos que não vamos esquecer das coisas, não mesmo? Mas nós esquecemos!

Além de manter anotações de tudo o que é relacionado às nossas ideias, outra estratégia que podemos aprender com os grandes pensadores é socializar com pessoas que estão fazendo o mesmo, seja na área profissional ou pessoal. Se você é um empresário, por exemplo, participar de eventos locais, expondo-se a outras pessoas que estão no mesmo barco, pode lhe dar excelentes ideias, assim como você pode ajudar essas pessoas com seus projetos. Às vezes a ajuda não é algo formal. Uma simples frase, uma informação, um comentário pode ser tudo o que você ou outra pessoa precisa para “fechar” um quebra-cabeças e resolver um problema. Esse tipo de interação leva à criatividade na prática. Você descobre coisas que estão em seu ponto cego, coisas que você nem desconfiava que precisava saber. Lembre-se: é impossível saber que precisamos aprender algo que não sabemos existir! Esse tipo de problema só se resolve quando os outros nos dão informações, revelando mais uma peça no quebra-cabeças que estamos tentando montar. De fato, grandes empreendedores sempre dizem que um dos fatores chave em seu sucesso foi a troca de ideias e interação com outras mentes empreendedoras quando estavam começando. Lembrando que nessa era digital, essa interação não precisa ser somente local. Podemos participar de fóruns de discussão, blogs, ler artigos, enfim, entrar em contato com ideias alheias não é algo que exige contato pessoal – apesar desse tipo de interação definitivamente ter um peso maior.

A criatividade no dia-a-dia, contudo, não depende de um conjunto de pequenas descobertas. Para sermos criativos “à lá MacGyver” precisamos desenvolver o hábito de conceber formas diferentes para resolver problemas ordinários. As ideias que vimos até aqui ajudam um pouco a se libertar do “medo” de ser criativo e aprender mentalmente como chegar a conclusões e encontrar soluções. Mas para conseguir realmente aplicar a criatividade para solução de qualquer problema na vida cotidiana é preciso desenvolver o pensamento estratégico e a engenhosidade. Esse é um assunto por demais complexo para explorarmos nesse artigo sem sair em uma tangente de 10 páginas! No próximo artigo vamos continuar discutindo esse assunto para examinarmos esse lado mais dinâmico da criatividade.

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7 comentários em “Como desenvolver a criatividade?”

  1. Gostei bastante desse artigo. Como citado no texto, tenho a tendência natural de não dar o devido crédito às minhas criatividades, o que acaba por vez a num futuro próximo eu perder oportunidades.

    Grato pelo compartilhamento desse texto.

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  2. Pelo que entendi, devemos exercer nossa criatividade começando por coisas pequenas e simples. Poderíamos procurar um meio diferente de fazer as coisas das quais as outras pessoas estão acostumadas.

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  3. Adorei muito esta parte:
    Um amigo ou parente que não entende, nem concorda com o que estamos fazendo não terá qualquer impacto no processo criativo. Isso não quer dizer que não devemos aceitar críticas, mas o ideal é que as críticas venham de gente que entende “do que estamos falando” e não de quem simplesmente não acredita no que estamos fazendo e não bota fé em nosso sucesso. Esses devem saber o quanto menos possível.

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