Criatividade é um processo, não um evento

James Clear

Criatividade é um processo

Em 1666, um dos cientistas mais influentes da história estava passeando por um jardim quando foi atingido por um flash de brilho criativo que mudaria o mundo.

Enquanto estava sob a sombra de uma macieira, Sir Isaac Newton viu uma maçã cair no chão. “Por que essa maçã sempre deveria descer perpendicularmente ao solo?”, Newton se perguntou. “Por que não deveria ir para o lado ou para cima, mas constantemente para o centro da Terra? Certamente, a razão é que a terra o atrai. Deve haver um poder de atração na matéria.”

E assim nasceu o conceito de gravidade.

A história da maçã caindo tornou-se um dos exemplos duradouros e icônicos do momento criativo. É um símbolo do gênio inspirado que preenche seu cérebro durante aqueles “momentos eureca” quando as condições criativas são ideais.

O que a maioria das pessoas esquece, entretanto, é que Newton trabalhou em suas ideias sobre a gravidade por quase vinte anos até que, em 1687, publicou seu livro inovador, The Principia: Mathematical Principles of Natural Philosophy. A queda da maçã foi apenas o começo de uma linha de pensamento que continuou por décadas.

Newton não é o único a lutar com uma grande ideia há anos. O pensamento criativo é um processo para todos nós. Neste artigo, vou compartilhar a ciência do pensamento criativo, discutir quais condições impulsionam a criatividade e quais a impedem, e oferecer dicas práticas para se tornar mais criativo.

Pensamento criativo: destino ou desenvolvimento?

O pensamento criativo requer que nosso cérebro faça conexões entre ideias aparentemente não relacionadas. É uma habilidade com a qual nascemos ou que desenvolvemos através da prática? Vamos dar uma olhada na pesquisa para descobrir uma resposta.

Na década de 1960, um pesquisador de desempenho criativo chamado George Land conduziu um estudo com 1.600 crianças de cinco anos e 98% das crianças pontuaram na faixa “altamente criativa”. O Dr. Land testou novamente cada sujeito durante incrementos de cinco anos. Quando as mesmas crianças tinham 10 anos, apenas 30% pontuaram na faixa altamente criativa. Esse número caiu para 12% aos 15 anos e apenas 2% aos 25 anos. À medida que as crianças se tornavam adultas, elas efetivamente tinham sua criatividade treinada. Nas palavras do Dr. Land, “o comportamento não criativo é aprendido”.

Tendências semelhantes foram descobertas por outros pesquisadores. Por exemplo, um estudo com 272.599 alunos descobriu que, embora as pontuações de QI tenham aumentado desde 1990, as pontuações de pensamento criativo diminuíram.

Isso não quer dizer que a criatividade seja 100% aprendida. A genética desempenha um papel. De acordo com a professora de psicologia Barbara Kerr, “aproximadamente 22% da variação [na criatividade] se deve à influência dos genes”. Essa descoberta foi feita estudando as diferenças no pensamento criativo entre pares de gêmeos.

Tudo isso para dizer, alegar que “eu simplesmente não sou do tipo criativo” é uma desculpa muito fraca para evitar o pensamento criativo. Certamente, algumas pessoas são preparadas para ser mais criativas do que outras. No entanto, quase todas as pessoas nascem com algum nível de habilidade criativa e a maioria de nossas habilidades de pensamento criativo são treináveis.

Agora que sabemos que a criatividade é uma habilidade que pode ser aprimorada, vamos falar sobre por que – e como – a prática e o aprendizado impactam sua produção criativa.

Inteligência e pensamento criativo

O que é necessário para liberar seu potencial criativo?

Como mencionei em meu artigo sobre a Teoria do Limiar, estar no 1% mais inteligente não tem correlação com ser fantasticamente criativo. Em vez disso, você simplesmente tem que ser inteligente (não um gênio) e então trabalhar duro e praticar deliberadamente.

Contanto que você atinja um limiar de inteligência, o trabalho criativo brilhante estará bem ao seu alcance. Nas palavras de pesquisadores de um estudo de 2013, “obtivemos evidências de que, uma vez que o limite de inteligência é atingido, os fatores de personalidade tornam-se mais preditivos para a criatividade”.

Mentalidade de crescimento

O que exatamente são esses “fatores de personalidade” aos quais os pesquisadores se referem quando se trata de impulsionar seu pensamento criativo?

Um dos componentes mais críticos é como você vê seus talentos internamente. Mais especificamente, suas habilidades criativas são amplamente determinadas pelo fato de você abordar o processo criativo com uma mentalidade fixa ou construtiva.

As diferenças entre essas duas mentalidades são descritas em detalhes no livro fantástico de Carol Dweck, Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso.

A ideia básica é que, quando usamos uma mentalidade fixa, abordamos as tarefas como se nossos talentos e habilidades fossem fixos e imutáveis. Em uma mentalidade construtiva, no entanto, acreditamos que nossas habilidades podem ser aprimoradas com esforço e prática. Curiosamente, podemos facilmente nos empurrar em uma direção ou outra com base em como falamos e elogiamos nossos esforços.

Aqui está um breve resumo nas palavras de Dweck:

“Todo o movimento da autoestima nos ensinou erroneamente que elogiar a inteligência, o talento, as habilidades fomentariam a autoconfiança, a autoestima e tudo de bom viria em seguida. Mas descobrimos que o tiro sai pela culatra. Pessoas que são elogiadas por seu talento se preocupam quando são chamadas a realizar tarefas difíceis, em assumir responsabilidades e não parecerem talentosas, manchando sua reputação. Então, em vez disso, eles ficam em sua zona de conforto e ficam realmente na defensiva quando encontram contratempos.
Então, o que devemos elogiar?

O esforço, as estratégias, a obstinação e persistência, a coragem que as pessoas mostram, a resiliência que mostram diante dos obstáculos, que se recuperam quando as coisas dão errado e sabem o que tentar em seguida. Acredito que uma grande parte da promoção de uma mentalidade de crescimento no local de trabalho é transmitir esses valores de processo, dar feedback, recompensar as pessoas que se engajam no processo, e não apenas um resultado bem-sucedido”.

—Carol Dweck

Constrangimento e Criatividade

Como podemos aplicar a mentalidade construtiva à criatividade em termos práticos? Na minha experiência, tudo se resume a uma coisa: a disposição de passar vexame ao realizar uma atividade.

Como diz Dweck, a mentalidade construtiva está mais focada no processo do que no resultado. Isso é fácil de aceitar na teoria, mas muito difícil de seguir na prática. A maioria das pessoas não quer lidar com o constrangimento ou vergonha que muitas vezes é necessário para aprender uma nova habilidade. Elas querem se sair bem logo de cara. Se elas sabem que não vai ser o caso, elas evitam a atividade.

A lista de erros dos quais você nunca pode se recuperar é muito curta. Acho que a maioria de nós percebe isso em algum nível. Sabemos que nossas vidas não serão destruídas se aquele livro que escrevemos não vender, se formos rejeitados por um par romântico em potencial ou se esquecermos o nome de alguém quando o apresentarmos. Não é necessariamente o que vem depois do evento que nos preocupa. É a possibilidade de parecer estúpido, de se sentir humilhado ou de lidar com o constrangimento ao longo do caminho que nos impede de começar.

Para abraçar totalmente a mentalidade construtiva e aumentar sua criatividade, você precisa estar disposto a agir diante desses sentimentos que tantas vezes nos impedem.

Como ser mais criativo

Supondo que você esteja disposto a fazer o trabalho árduo de enfrentar seus medos internos e superar o fracasso, aqui estão algumas estratégias práticas para se tornar mais criativo.

Defina limites

Restrições cuidadosamente projetadas são uma de suas melhores ferramentas para estimular o pensamento criativo. Dr. Seuss escreveu seu livro mais famoso quando se limitou a 50 palavras. Os jogadores de futebol desenvolvem conjuntos de habilidades mais elaborados quando jogam em um campo menor. Os designers podem usar uma tela de 3 por 5 polegadas para criar designs melhores em grande escala. Quanto mais nos limitamos, mais recursos nos tornamos. Quando tentamos fazer tudo, atender tudo, aprender tudo, sem qualquer senso de limitação, acabamos sobrecarregados pelas possibilidades e desistimos.

Escreva mais

Por quase três anos, publiquei um novo artigo todas as segundas e quintas no JamesClear.com. Quanto mais eu cumpria esse cronograma, mais percebia que precisava escrever sobre uma dúzia de ideias comuns antes de descobrir uma brilhante. Ao produzir um volume de trabalho, criei uma área de superfície maior para uma centelha criativa me atingir.

Não está interessado em compartilhar sua escrita publicamente? A rotina Morning Pages de Julia Cameron (escrever 3 páginas de ideias livres todo dia de manhã) é uma maneira fantástica de usar a escrita para aumentar sua criatividade, mesmo que você não tenha a intenção de escrever para outras pessoas. O hábito de fazer um diário também pode ajudar muito.

Amplie seus conhecimentos

Uma das minhas estratégias criativas de maior sucesso é me forçar a escrever sobre temas e ideias aparentemente díspares. Por exemplo, tenho que ser criativo ao usar estratégias de basquete dos anos 1980, um software de processamento de texto antigo ou budismo zen para descrever nosso comportamento diário. Nas palavras do psicólogo Robert Epstein, “Você se sairá melhor na psicologia e na vida se ampliar seus conhecimentos”.

Considerações finais sobre pensamento criativo

A criatividade é um processo, não um evento. Não é apenas um momento eureka. Você precisa superar as barreiras mentais e os bloqueios internos. Você tem que se comprometer a praticar seu ofício deliberadamente. E você tem que ficar com o processo por anos, talvez até décadas como Newton fez, para ver seu gênio criativo florescer. Não adianta tentar uma coisinha aqui, outra ali só pra ver se você “jeito” praquilo. Essa é a mentalidade fixa. Você está esperando que descubra algum talento em alguma área para começar do topo, sem passar vergonha, sem errar, sem ter que construir seu aprendizado. Esqueça isso!

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