Você sofre de síndrome do impostor?

Franciane Ulaf

Síndrome do Impostor

Poucas pessoas já ouviram falar da síndrome do impostor, mas percebo que quando explico o assunto, muitas se identificam, surpresas por terem finalmente descoberto o “nome” de seu problema.

Mas o que, afinal de contas, é a síndrome do impostor?

A síndrome do impostor é um mecanismo de autossabotagem em que a pessoa é incapaz de reconhecer os próprios talentos e conquistas. Chama-se ‘síndrome do impostor’ ou ‘síndrome da fraude’ porque a pessoa acredita que o que quer que tenha ocorrido de bom em sua vida e o sucesso que tenha conquistado deve ser mera obra do acaso ou fruto da sorte, ajuda de aluguém ou de algum fator externo, pois ela não se considera capaz de ter conseguido o que tem. Sendo assim, ela se sente extremamente ansiosa de que “descubram” que ela não merece o que tem ou que não tem a competência que “acreditam” que ela tenha. Daí o termo “síndrome do impostor”: a pessoa acredita ser um impostor, pois o que recebeu na vida veio graças a meios externos, não seu próprio esforço e talento.

Agora, o grande problema é que essa é a visão de dentro da cabeça da pessoa! É uma visão negativa, pessimista e incorreta da realidade. Na grande maioria das casos, essas pessoas são sim muito competentes, merecem cada gota de sucesso que conquistaram, apenas elas não conseguem reconhecer que realmente tiveram “algo a ver” com o desenrolar de suas vidas.

Numa analogia, talvez um pouco boba (a minha imaginação de Domingo à noite está bem fraquinha!), mas bem ilustrativa, vamos imaginar que uma pessoa escondeu dinheiro em algum lugar “secreto” no prédio onde mora. Passados mais alguns anos sem esconder mais nada, ela se “esqueceu” do que havia feito. Um belo dia, ela acidentalmente acha um bolo de dinheiro “escondido em um lugar inusitado”. Ela fica surpresa, não se lembra de que foi ela mesma quem escondeu (vamos imaginar aqui que nesse mundinho, o dinheiro não desvaloriza e nossa cobaia realmente poderia esquecer uma coisa dessas, ou mesmo esconder dinheiro em um lugar público!). Como se trata de muito dinheiro, a pessoa toma posse do que encontrou, mas passa a ficar constantemente ansiosa e irrequieta de que alguém possa descobrir a qualquer momento e expô-la. Ela se sente uma fraude por estar usando um dinheiro que “não é seu” e por fim, ela acaba abrindo mão da pequena fortuna pois não aguenta mais tanta pressão interna!

Bem inverossímil esse meu exemplo, mas o que quis ilustrar é que a pessoa que sofre de síndrome do impostor tem o que é preciso para conquistar sucesso, seja na área profissional, pessoal ou social, mas ela não sabe disso, não reconhece o que tem de bom. Quando os frutos de seu trabalho e empenho começam a brotar, ela fica confusa, afinal de contas, se ela não é “capaz”, de onde surgiram os resultados que estão aparecendo?! Como a pessoa que encontra o dinheiro que ela mesma escondeu, ela fica encantada com a situação e geralmente mantém um ar de “é bom demais para ser verdade”. Ela começa a acreditar que deve ter tido sorte, ou que aqueles que estão “botando fé” nela estão enganados e estão vendo nela coisas que são “irreais”. Isso gera um turbilhão de ansiedade e medo, pois se ela acredita que não foi responsável pelo êxito que está obtendo, então a casa pode cair a qualquer momento, podem desmascará-la e expô-la como uma “fraude”.

Essa síndrome é mais comum em mulheres, talvez pelo histórico social de submissão e vulnerabilidade. Já vi casos em que algumas mulheres se consideram completamente dignas do sucesso doméstico, como o casamento feliz e a criação dos filhos, mas por outro lado, apresentam síndrome do impostor no trabalho, não se sentindo competentes ou dignas de reconhecimento pelos feitos que segundo elas, foram matéria de mero acaso, sorte ou ajuda dos outros.

Esse artigo não nos oferece espaço para aprofundarmos as raízes desse mecanismo, mas vale mencionar que ele nasce nas experiências da infância e na forma como somos criados. Pessoas que sofrem muita discriminação na infância, como crianças tímidas que sofrem bullying na escola, têm maior tendência de apresentar síndrome do impostor profissional e social, pois elas cresceram “aprendendo” que eram “menos” que os outros, que sua competência não valia tanto quanto a das crianças sociáveis e comunicativas.

Na vida adulta, quando algo ocorre que confronta essa visão de si mesma que elas têm, elas tendem a não acreditar que aquilo está mesmo acontecendo, que é bom demais para ser verdade, ou que o sucesso ou benefício conquistado é fruto de algo externo, não de competência ou valor próprio.

A síndrome do impostor voltada para o trabalho é a mais comum e afeta muito pessoas que sofreram abusos, físicos ou emocionais, na infância e cresceram acreditando que não tinham valor ou que não eram importantes para seus familiares.

“Quando meu chefe me parabeniza por algo que ele acha que eu fiz bem feito, eu já fico achando que ela vai achar algum defeito a qualquer momento, pois eu não fiz nada demais, como ele pode estar sendo tão bonzinho comigo?” – me confessou uma mulher que sofre de síndrome do impostor profissional. Outra diz que fica apreensiva em todas as reuniões de equipe, pois ela tem muito medo de levar “broncas” do chefe ou de que chamem a sua atenção para algum erro cometido. Em outro caso, um homem me conta que sempre fica apreensivo quando as pessoas pedem ajuda “eu não me considero uma pessoa competente, nem inteligente, então quando as pessoas me pedem ajuda eu fico imaginando se elas realmente me conhecem, se sabem que eu não sou a pessoa mais indicada para ajudar, mas fico sem jeito de dizer não e dou uma mãozinha… fico muito nervoso nessas ocasiões, pois se as pessoas me pediram ajuda é porque confiaram em mim e eu, sendo do jeito que sou, tenho medo de não corresponder às expectativas e não ser capaz de fazer o que me pediram.”

Outra, na área pessoal, me revelou que sempre quando um relacionamento está indo bem ela acha que tudo está para ir por água abaixo a qualquer momento, pois é “bom demais para ser verdade”. Ela se considera uma mulher desinteressante, gorda, feia, chata, implicante e não merecedora do amor de qualquer homem (palavras dela). É claro que ela não é nada disso, mas em sua cabeça é assim que ela acha que os outros a veem. A cada novo relacionamento, ela se surpreende que alguém se interessou por ela e começa então a ansiosamente desejar que o parceiro não veja quem “ela realmente é”, pois se isso acontecer, ela será novamente abandonada.

A sensação que a pessoa tem é que ela caiu de páraquedas naquela situação, ela não se sente responsável pelos próprios sucessos e conquistas, já que ela não admite que tenha talento e competência suficiente para ter criado aquele resultado ou, na área pessoal, atraído uma pessoa especial. Na área social, a pessoa tende a acreditar que “ninguém gosta dela” e vê qualquer aproximação de amizade como sorte ou falha na percepção do outro acerca da sua pessoa.

A síndrome do impostor social afeta pessoas altamente tímidas e quietas. Quando as pessoas se mostram interessadas nela, querem construir amizades, a convidam para sair e socializar, ela começa a achar – assim como nos outros casos – que os outros devem estar enganados sobre ela, que não estão conseguindo ver a “topeira, idiota, chata, sem graça, sem assunto” que ela é, mas quando perceberem vão humilhá-la em público, rir da cara dela, fazer piadinhas e no final das contas, abandoná-la.

Apesar de não serem como acreditam ser, as pessoas que sofrem de síndrome do impostor, acabam sabotando o que elas consideram que não “é normal” em suas vidas. Se a pessoa tem síndrome do impostor voltada para os relacionamentos afetivos, ela tende a ficar ansiosa demais achando que o outro vai “descobrir” que “ela não é quem ele pensa que ela é” e sendo assim, ela não pode ser autêntica e precisa manter uma máscara constantemente para evitar que o outro descubra a “verdade”. Ciúmes excessivo também pode ser um mecanismo gerado por esse tipo de insegurança. No final das contas, não é o outro que “descobre” a verdade, é a própria pessoa que desgasta o relacionamento de tanto se estressar. A realidade é que, na maioria das vezes, o parceiro vê a pessoa como ela realmente é e não vê problema algum em sua personalidade e comportamento. O problema todo é que a pessoa possui uma autoimagem completamente distorcida de si mesma.

É uma visão terrível, não? Mas é muito mais comum do que se imagina! Existem diversos níveis de gravidade, é claro, e algumas pessoas conseguem sustentar algum sucesso, seja na área profissional, social ou pessoal, contudo, sob tremendo estresse e ansiedade de que mais dia, menos dia, a casa caia e os “outros” descubram que ela não fez por merecer ou não é digna do amor ou do apreço que recebe.

Em níveis mais graves, a pessoa não consegue conquistar nada na área afetada, pois já não se considera competente para galgar os passos necessários antes mesmo de começar. Ela evita se expor dentro daquele contexto e foge dos desafios que significariam passos acima na escada do sucesso.

Outra grande armadilha é que muitas pessoas com síndrome do impostor, achando que o jeito delas não é bom o suficiente, tentam ativamente ser diferente para agradar os outros. Essa falta de autenticidade fere ainda mais seu amor próprio e os resultados obtidos com a “farsa” não são os almejados.

Você já deve ter desconfiado que esse é basicamente um problema de autoestima. Seja qual for a origem desse tipo de insegurança, algo destruiu a autoestima da pessoa voltada para uma determinada área – em alguns casos, todas as áreas e a tornou cínica para qualquer progresso pessoal. Qualquer pequeno êxito é visto como mero acaso, sorte ou responsabilidade dos outros e destinado a um fim drástico e vexaminoso em que elas serão expostas como impostoras por terem se feito passar por pessoas diferentes e “enganado” todo mundo.

Esse é um dos problemas mais complexos e difíceis, pois requer trabalho profundo em uma série de questões: autoestima, autoimagem, perfil da “autoconversa” (coisas que você diz para si mesmo), superação de mecanismos de autossabotagem como perfeccionismo e até mesmo uma “reprogramação” da visão de mundo que a pessoa tem. A psicologia cognitiva costuma dar resultados em casos mais graves que requerem acompanhamento profissional. Nos casos menos graves, períodos de reflexão profunda alternados com conversas honestas com pessoas próximas que possam dar um feedback sincero e desinteressado ajudam a pessoa a entender melhor a realidade pessoal e ver que muito do que acredita sobre si mesma, está equivocado.

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5 comentários em “Você sofre de síndrome do impostor?”

  1. Christy
    Tenho vários livros seus. Leio sempre seus textos. Uma coisa que gosto muito no seu estilo de escrita, é a objetividade, a clareza com que transmite questões até corriqueiras,mas que a gente não percebe. Você dá nome aos problemas, e nós, meros mortais, entendemos com maior facilidade. Abraço.

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  2. Sinceramente, Fran, eu apenas posso parabenizá-la e agradecê-la por sua forma de ver o mundo, como o sente, e por tudo o que compartilha conosco (falo mais por mim mesma), porque sinceramente, seus artigos tem mais do que me ajudado nos últimos dias. Tem me aberto os olhos, me fazendo entender as coisas como realmente são, “dando nome aos burros”, digamos assim.

    Enfim, era isso. Apenas senti que precisava agradecer, e esperar que tenha sempre suas sábias palavras para me ajudar. Um grande abraço!

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  3. Agradeço pelas palavras e esclarecimentos sobre muitas questões que nem mesmo imaginamos estar vivenciando. Este artigo me veio no dia em que eu mais precisava. Me orientou e me fez buscar ajuda.
    Parece que foi escrito pra mim e pode acreditar em tres dias seguidos antes de ler este artigo, passei por situações descritas aqui no trabalho e no relacionamento. Quando abri o meu e-mail hoje pela manhã pensei ” preciso ler algo bom” e escolhi ler este artigo em interessei pelo título e sem perceber era pra mim… Olha eu de novo falando como uma impostora rsrsrs parece que esse artigo caiu do céu pra mim rsrsrs. Mas fora a brincadeira fiquei muito satisfeita com as explicações e me identifiquei muito com isso, me ajudou muito.
    Mais uma vez Obrigada!

    Cris

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  4. Gostei de sua matéria e me identifiquei muito.
    Sou uma pessoa que foi muito descriminada na infância. E sofro muito hoje em dia, tanto no meu emprego como no meu relacionamento com as pessoas.
    Prefiro ficar quieta em meu canto, pois tenho medo de falar alguma besteira e sinto que estou piorando e ficando cada vez mais antissocial.
    Ainda não passo com um psicólogo, mas estou pensando seriamente em procurar um.
    Já pensei várias vezes em tirar a vida, é horrível ser assim já culpei, em pensamento, meus pais várias vezes.

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