Como a cobiça nos leva a perder oportunidades

Franciane Ulaf

Cobiça nos faz perder oportunidades

Esses dias eu me deparei com um caso de uma pessoa que reclamava que durante toda a sua vida ela havia sonhado, sonhado e hoje, aos 50 anos estava desiludida, pensando em suicídio. Ela descrevia seus sonhos de juventude como ousados – sonhava em ser muito bem sucedida, saudável financeiramente e reconhecida profissionalmente.

Quando jovem ela era descrita pelos outros como sendo determinada, líder, proativa – ela se alimentava nessas crenças alheias e as tomava como um voto de fé em si mesma – se todo mundo pensa que eu vou me dar bem, é provavelmente isso mesmo o que vai acontecer.

Uma carreira morna, um casamento fracassado e décadas de peso em cima dos sonhos, que já enferrujados, eram apenas lembranças de ilusões da juventude, ela começou a se dar conta de que nada daquilo iria realmente acontecer e deixou com que a desilusão tomasse conta de si. (veja que isso era apenas a percepção dela própria, seus sonhos ainda poderiam se realizar, já que 50 anos não é o fim da vida, mas ela achava que já não tinha mais futuro).

Eu investiguei o seu caso tentando descobrir o que realmente aconteceu – o que foi que deu errado?

Ela culpava a vida e suas circunstâncias, o azar de ter se casado com a pessoa errada, a falta de coragem para sair de um emprego insatisfatório quando as situações permitiram, a falta de proatividade para aproveitar oportunidades ao longo do caminho. Ou seja, ela não cometia o erro de culpar somente o mundo externo, compreendendo que também teve culpa no cartório. Contudo, ela estava deixando de perceber realmente o que havia por trás desse comportamento que a levou ao fracasso – pelo menos até esse ponto agora.

Investigando um pouco mais a fundo sua personalidade eu pude perceber traços de cobiça. É muito difícil introduzir esse tema pois muitas pessoas associam cobiça com dinheiro apenas e são rápidas em dizer que não sofrem desse mal. Cobiça contudo é um desejo pelo excesso e uma vontade de ter, ser ou fazer muitas coisas, o que leva a pessoa a ter dificuldade para fazer escolhas. É um estado de “querer demais” e não saber priorizar o que “querer primeiro”.

Ela me descrevia que tinha dificuldade até para fazer as malas para viajar, ela queria levar tudo o que tinha (figurativamente, é claro!) e tinha dificuldade para abrir mão de uma peça ou outra de roupa que não cabia na mala. Já na época de prestar vestibular ela narra que teve uma dificuldade enorme para escolher a carreira, pois tinha quatro preferências e simplesmente não conseguia se decidir por uma que gostasse mais. Mesmo quando há apenas duas opções ela tem dificuldade para escolher – ela quer ambas! Ao fazer uma escolha, contudo, ela não se compromete de corpo e alma com a decisão, sentindo culpa e desejando ainda mais as opções descartadas. Isso a levou a mudar de caminho inúmeras vezes, só de curso universitário ela mudou três vezes e mesmo assim terminou insatisfeita com o curso que conseguiu finalizar. Em restaurantes ela sofre para escolher um prato e depois fica pensando se não teria sido melhor se tivesse pedido uma das outras escolhas.

Isso não é uma simples dificuldade para tomar decisões, mas um problema basicamente de cobiça, um querer demais e de tudo que prejudica a capacidade de se comprometer de corpo e alma com uma única escolha.

No decorrer de seu trajeto profissional, ela viu oportunidades mas nunca conseguiu comprometer-se com nenhuma, pois não conseguia superar a dúvida de qual era a melhor. O problema é que no final das contas, ao invés de ter feito escolhas, acertadas ou não, ela acabou deixando passar muita coisa, não escolhendo nada com medo de tomar o caminho errado. Mas esse medo estava mais ligado à dor de abrir mão de coisas (opções, oportunidades) que ela cobiçava do que um simples medo do fracasso. Ou seja, do fracasso em si ela não tinha tanto medo, o receio era de ver algo que ela desejava ser eliminado de sua vida devido ao comprometimento com uma escolha contrária.

Algo similar ocorre com a gula. Quem sofre de gula tem dificuldade de escolher e abrir mão do que não vai dar pra por pra dentro. Há quem até mesmo adquira distúrbios alimentares por conta dessa dificuldade em escolher e abrir mão.

Quando o assunto é oportunidades, principalmente escolhas que definem rumos na vida, o sucesso depende do comprometimento sério e focado com uma única escolha. Quem fica na dúvida ou fica perambulando de um lado pra outro, tentando fazer de tudo um pouco porque não se quer abrir mão de nada, acaba no final das contas sem nada mesmo.

Uma forma de lidar com essa dificuldade e com a cobiça de ter de tudo um pouco é definir melhor um propósito de vida. Esse propósito serve como um guia de critérios que são usados para filtrar as decisões mais importantes. Um exemplo bem simples é a pessoa que define como propósito a comunicação e é oferecida um trabalho num departamento de contabilidade, cuja função não envolve maiores níveis de comunicação. Ao passar a decisão pelo filtro do propósito, o critério da comunicação informa que ao tomar a decisão por aceitar o emprego, a pessoa estará traindo sua missão de vida, pois estará escolhendo fazer algo que não permite com ela exerça sua comunicação da forma como imaginou ao redigir seu propósito. Nem tudo é tão claro e objetivo como esse exemplo, mas um propósito e os critérios que ele naturalmente impõe acabam ajudando a tomar decisões mais sérias.

Para as decisões mais mundanas, como fazer uma mala de viagem sem querer empacotar todo o guarda-roupa, técnicas de auto-organização podem ajudar. Um exemplo nesse caso de viagem é determinar uma única cor de assessórios, por exemplo, marrom, selecionando sapatos, cintos e bolsas dessa cor e então combinando todos os itens de vestuário a serem levados com os assessórios escolhidos, eliminando a necessidade de levar assessórios, que geralmente são os itens mais pesados, de várias cores para combinar com roupas diferentes.

Todavia, o problema da cobiça deve ser tratado “por dentro” para que seja realmente controlado. Ter preferências diversas e portanto, dificuldade para escolher apenas uma delas é normal, mas algumas pessoas lidam com a tomada de decisão de forma mais assertiva do que outras. O propósito ajuda muito e é a razão pela qual muitas pessoas, mesmo que intuitivamente, conseguem fazer escolhas sem “sofrer” muito. Uma postura íntima de comprometimento é outra forma de lidar com decisões difíceis. Uma vez que uma decisão é tomada, o ideal é se desligar emocionalmente das opções rejeitadas e evitar ficar pensando “no que poderia ter sido se uma das outras opções tivesse sido escolhida”. A pessoa que se compromete com sua escolha e esquece as outras opções tem mais facilidade para fazer novas escolhas pois ela aprende que não pode ter tudo, nem de tudo um pouco e sim apenas o que ela escolheu. Se arrepender de uma escolha e querer mudar, entretanto, é normal e não deve ser motivo para frustração e arrependimento. O aprendizado sempre é válido. O importante é ser rápido nessa mudança e não perder tempo refletindo indefinidamente se quer ou não quer desistir ou mudar de opção. Uma vez que uma alternativa se mostre infrutífera, o ideal é pular fora o mais rápido possível, não ficar perdendo tempo chorando as mágoas do fracasso. Isso é válido para quase tudo na vida, dos mais sérios como emprego, faculdade e casamento até os mais banais como cor de cabelo, carro ou cidade. Não deu certo? Cai fora, muda… e rápido. O importante, entretanto, é manter a maturidade e a racionalidade para evitar também o pinga-pinga de opções que também não leva a nada, o que revela um traço contrário ao que proponho, a falta de comprometimento e a dispersão.

Por quê?

Saber o motivo por trás de suas escolhas é o mais importante pedaço do quebra-cabeças para manter-se na linha seguro de suas decisões. O porquê, ou o motivo, é apenas um traço do próprio propósito, mas é uma forma mais fácil de compreender o que você realmente precisa para tomar decisões com confiança. A insegurança nasce justamente na dúvida e na indefinição de uma razão forte e segura.

Por mais que você flerte com várias opções, a decisão tomada precisa de um motivo forte e definido. Saiba explicar para si mesmo – de preferência registre toda a linha de raciocínio em um diário ou arquivo de computador – exatamente porque escolheu a opção A e porque rejeitou a B e a C.

Isso é importante porque no decorrer dos anos seguintes à tomada de decisão, os motivos que nos levam a fazer certas escolhas se perdem em nossa cabeça e começamos a nos questionar se não teria sido melhor se tivéssemos escolhido B ou C. Esse tipo de raciocínio reduz o comprometimento para com a decisão e pode levar ao abandono do projeto ou dispersão (começar a fazer muitas coisas ao mesmo tempo, adiando ou retardando o andamento das coisas) ou até mesmo à autossabotagem, quando começamos a boicotar nossos próprios esforços inconscientemente.

Os resultados que essa pessoa que eu usei como exemplo obteve foram consequência da perda de oportunidades ao longo da vida gerada pela hesitação na tomada de decisão e no fraco comprometimento para com as decisões que foram de fato tomadas. A cobiça (querer muito e demais) teve um papel nas dificuldades que ela encontrou, mas principalmente, o que faltou para controlar essa tendência foi um foco centrado em objetivos definidos (propósito) e uma capacidade íntima de abrir mão de coisas e caminhos que poderiam ter sido sim bons e até melhores.

Focar-se na expectativa do melhor e perfeito é sempre a pior postura. Há sempre algo na vida objetivamente melhor do que o que temos. O importante, contudo, é aprender a comprometer-se com as escolhas que tomamos, valorizando e gostando do que vem como consequência, sem ficar choramingando as mágoas por ter aberto mão de outras opções ou perder tempo pensando no que poderia ter sido. Ao pensar no futuro, o critério do “melhor” deve ter sempre como base algo mais sólido, como um propósito que nos salve de nossa própria cobiça e essa vontade de ter ou viver mais do que cabe em nosso caminho. Se e quando algo se demonstrar realmente um erro de escolha, mudar na maioria das vezes é uma opção. Se for o caso, como já abordei, bola pra frente, abra mão do caminho atual, comece outro. O segredo é estar sempre em movimento. O erro é ficar parado só refletindo sobre o passado, o presente e o futuro.

Para quem estiver interessado, o livro Um sentido para a vida trata justamente da elaboração de um propósito de vida a fim de dar melhor direcionamento para as decisões, tanto diárias quanto as que definem os rumos da vida. Mais informações sobre o livro, clique aqui.

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11 comentários em “Como a cobiça nos leva a perder oportunidades”

  1. Interessante esse ponto de vista… Nunca tinha parado para pensar, mas no meu caso, me vejo nessa situação… É como aquela velha história do cachorro frente a 2 ossos, ele quer os dois e não consegue se decidir por causa disso, no final das contas, ele fica cada vez mais estressado (porque não consegue escolher) e não come nenhum dos 2 ossos.

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  2. Carolina, bem dito! Quando estava lendo estava pensando no cachorro com 2 ossos! hehe

    Isso é bem verdade… A gente tem muita ambição, quer isso, quer aquilo e fazer escolhas exige que a gente abra mão de todos os outros “possíveis futuros” para se dedicar a uma esçolha só e às vezes a gente procrastina para tomar essa decisão porque não sabe o que quer da vida.

    É complicado isso, porque quando a vida não está boa, é difícil a gente não olhar para trás e ficar pensando nas escolhas passadas e ao mesmo tempo, ter mais medo de fazer escolhas agora no presente pois a gente já viu no que dá fazer escolhas erradas.

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  3. Fran, eu li seu livro Um sentido para a Vida. Foi o que me ajudou a me encontrar na vida. Concordo com você que sem um propósito, nós ficamos sem critérios para julgar as opções disponíveis e tomar decisões. É muito importante saber bem qual o seu caminho na vida (propósito), pois assim é mais fácil tomar decisões, o propósito funciona como um filtro e a gente começa a se comprometer mais com as decisões.

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  4. Nossa, nunca tinha pensado nisso, mas faz muito sentido! Até nas coisas mais simples… quando eu faço compras, acabo comprando muito mais do que posso pagar porque não consigo abrir mão dos meus “desejos”, não consigo escolher qual sapato, qual blusa, levo tudo o que gosto e depois fico com dívidas!

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  5. Será que eu quero ser medico ou advogado? Ou quem sabe engenheiro! Não! Quero ser dentista… ahhh, não sei! sorvete de morango ou de chocolate? não, flocos… péra, nozes é melhor… ahhh, não sei! Esse sou eu! A minha vida inteira fui assim. É uma M!

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  6. Olá Fran!

    Mais um magnífico ponto de vista. Me deparo com isso com muita gente. Concordo plenamente contigo e mudar pessoas assim é um desafio e tanto, já que essa “falsa verdade” assumida é como uma religião, difícil de discutir.

    Parabéns e grande abraço.

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  7. Olá a todos!!! Parabéns Fran.

    Comento que atualmente somos “bombardeados” por informações e novidades dos mais variados tipos e entendo que primeiro pecamos pela dispersão do objetivo – mesmo que de modo inconsciente – e seguido pela movimentação que tais informações fazem na nossa mente que aí compreendo por “cobiça”. Passamos a lembrar do que sempre nos disseram que “é preciso estar atendo a “todas as oportunidades”” que aparecem frente a nós e confundimos tudo o que temos em mente pela falta do propósito bem definido e fraco comprometimento com o foco antes resolvido. Para mim é de muita clareza e objetividade o conteúdo de tudo o que li até agora escrito pela Fran e espero aprender muito com os próximos que continuarei buscando ter contato.

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  8. Amei o artigo. Esclarecedor, me identifiquei um pouco. estou compartilhando pois creio que há muitas pessoas necessitando exatamente deste artigo
    Obrigada Fran Christy

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  9. É isso aí Fran Christy, muitos casamentos fracassam por falta de comprometimento e cobiça do parceiro, que não consegue focar em um único relacionamento amoroso e continua a cobiçar outras pessoas, acabando por perder o parceiro (a).

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