Como escolher uma meta ou ideia?

Franciane Ulaf

Como escolher metas

Semana passada, nós falamos sobre hábitos que prejudicam a tomada de decisão. Hoje vamos conversar sobre como otimizar o processo de reflexão e escolha quando temos muitas boas opções para chegar a um mesmo fim.

Muito se fala sobre como definir metas, como ser mais criativo e “ter mais ideias”, como descobrir nossas paixões e talentos (o que nos dá oportunidade de querer fazer ainda mais coisas!). Uma hora, contudo, precisamos parar de levantar ideias e começar a colocá-las em prática!

Não se fala muito nesse segundo passo… Quando é que você vai viver a sua grande vida de aventuras? Ok. Mas, e quando nós não conseguimos decidir o que realmente queremos? Como decidir qual a melhor meta para perseguir no momento, qual a melhor ideia para resolver um problema ou colocar em prática?

Eu particularmente invejo pessoas ultra práticas que não titubeiam ao tomar uma decisão (e não sofrem com a decisão tomada pensando nas oportunidades deixadas para trás!). Eu não sou assim. Tenho meu lado prático, mas quando o assunto é ideias, eu tenho muitas e quero fazer tudo… de uma vez!

É claro que não dá certo! Há muito tempo eu aprendi que para ser produtiva eu precisava domar esse meu lado fominha e priorizar – fazer o que dá, o que é sensato no momento o que é prioritário.

Continua sendo difícil às vezes ter que abrir mão de ideias e metas maravilhosas, mas que por falta de tempo e oportunidade, precisam ser abandonadas. Com o passar do tempo, desenvolvi algumas técnicas que passei a utilizar sempre que entro em parafuso tentando escolher dentre diversas opções apetitosas. Vou compartilhá-las com você hoje. Caso tenha alguma estratégia que você frequentemente usa e que funciona, compartilhe comigo e com os demais leitores na seção de comentários!

Antes de tudo, é preciso deixar alguns pontos claros para si mesmo quando você vai passar por um processo de reflexão com fins de tomada de decisão. Esses pontos cardeais devem definir as respostas que você obtém com cada item a ser avaliado.

– Qual é a problemática central que você está tentando resolver com essa meta?

O ponto central é: o que é que você quer com essa meta? O que é que você espera que essa meta possa fazer por você? (essas perguntas são feitas ao grupo todo de ideias e metas disponíveis para escolha)

Você não deveria ter dificuldade para decidir entre opções não relacionadas entre si. Se isso está ocorrendo, você precisa avaliar o motivo. Você não sabe o que quer da vida? Você está com dilemas do tipo “não sei se caso ou compro uma bicicleta”? Se esse é o caso, você ainda não passou pelo “primeiro passo”, esse aqui é o segundo! O primeiro passo é ter uma definição clara na vida, um senso de propósito, de identidade, um “quem você é” bem claro. O que estamos discutindo aqui é o dilema para escolher entre boas opções quando todas o levariam para o lugar onde você já sabe que quer chegar.

– Quão importante é essa decisão para você?

Escolher uma meta dentre as suas opções disponíveis é questão de vida ou morte? Você vai se sentir deprimido para o resto da vida se não conseguir o que espera (pergunta 1)? É uma coisinha que você gostaria de fazer? Você vai decepcionar alguém muito importante para você se você não fizer?

Definir a importância é crucial para ser capaz de refletir sobre o custo benefício do empenho necessário para conquistar a meta. Se uma coisa não é muito importante, mas é rápido e não requer muita dedicação, quem sabe é algo a ser considerado. Mas se não é importante e oneraria seu tempo e demais recursos, por que é que você sequer está considerando uma opção dessas?

– Qual a prioridade AGORA na sua vida?

Não importa quão boas sejam certas ideias, se tudo precisa ser realizado no tempo, você não pode deixar de avaliar como está o seu agora. O que é que você está mais precisando no momento? Dinheiro? Mudar de carreira? Organizar a vida? Se encontrar no mundo?

As metas que você vai escolher precisam se adaptar a essas prioridades básicas relativas ao momento que você está vivendo agora. Por exemplo, se você está quebrado, devendo até as calças, é imprudente escolher uma meta que promete retorno financeiro em 10 anos, enquanto outras opções no mesmo grupo tinham um retorno muito mais rápido. Veja que não é o caso de “fazer o que você não gosta só por dinheiro”. Metas que envolvem algo que você não gosta nem devem ser parte do processo de reflexão! Se você tem dificuldade para escolher é porque todas as opções são boas e são coisas das quais você gosta, senão não seriam opções!

– O que você quer da vida?

Nem todas as oportunidades são igualmente valiosas para todo mundo. Nem todas as metas devem ser buscadas, mesmo que sejam ótimas opções para outras pessoas.

O ditado “para quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve” cai como uma luva aqui. Para escolher a melhor meta para perseguir no momento é preciso saber como cada uma das opções disponíveis, dentre metas e ideias, se encaixa no quadro maior em sua vida. Uma oportunidade pode ser muito boa e valiosa, mas consumir tanto tempo e esforço que atrapalha o andamento de tudo o mais em sua vida sem ter qualquer relação com seu perfil ou aquilo que você realmente quer alcançar.

1. Custo de oportunidade

Essa vem lá da minha formação acadêmica em administração de empresas! No mundo dos negócios, fala-se muito no tal “custo de oportunidade”, ou seja, qual o custo (sob diversos aspectos) de investir recursos (tempo, dinheiro, esforço, etc.) em uma opção e não em outras.

Podemos aplicar esse conceito a muitas coisas em nossa vida pessoal e carreira. Veja o meu caso, por exemplo: escrever livros é algo que consome muitos recursos. Sendo assim, eu não poderia escrever todos os livros que já me passaram pela cabeça. Da mesma forma, sendo uma meta que consome grande quantidade de tempo, atenção e esforço, eu não posso me dar ao luxo de só escrever livros e não me dedicar às outras metas e coisas que preenchem a minha vida. Quando então chega o momento de decidir qual será o próximo livro, é uma ansiedade só! Eu vou ter que pegar todas as dezenas de ideias maravilhosas que eu adoraria pesquisar e trabalhar e escolher um único tema que vai consumir todo o meu tempo “para escrever livros” pelos próximos 12 meses ou mais. O custo de oportunidade nesse caso é a avaliação do quanto em perco (em vários aspectos) ao escolher o assunto X e não o Y, ou o W, ou o Z. Além disso, o que mais será impactado na minha vida pelo tempo que eu terei que dedicar para escrever esse livro sobre X?

O custo de oportunidade nunca deve ser avaliado sozinho, pois são os outros itens que determinam os graus de perda. Para simplificar o exemplo, vamos avaliar somente a questão financeira. Digamos que eu decida escrever um novo livro pois espero que o dinheiro das vendas me possibilite comprar um carro novo. Se dinheiro é meu critério, a minha prioridade será avaliar as opções que tenho sob o prisma da rentabilidade dentro de uma função de tempo. Se noto que uma opção poderia me trazer muito dinheiro, mas num espaço de tempo muito maior do que outra alternativa, então essa opção não é boa. Nesse exemplo, eu avaliaria o potencial de vendas de cada assunto e quão rápido esse novo livro reverteria no valor que eu espero receber. Mas por outro lado, preciso avaliar também o custo de oportunidade de simplesmente não escrever um livro e fazer outra coisa que me dê um retorno financeiro mais rápido (se tudo o que eu quero é apenas dinheiro).

Se tenho um critério diferente para escrever um novo livro como “o tema que mais ajudaria meus leitores” sem qualquer outro interesse, eu usaria estatísticas de acesso aos meus artigos, resultados de enquetes e outras métricas que possam me informar qual o assunto que meus leitores mais precisam aprender.

Se meu critério é credibilidade, meu foco mudaria completamente, voltando-se para fora, para os assuntos que o mercado atualmente mais valoriza.

No final das contas o custo de oportunidade (que nem sempre é um valor) é a soma de todas as outras coisas que eu poderia fazer, mais os outros livros que eu poderia escrever e que também atenderiam meus critérios básicos.

É importante, contudo, ter uma boa definição do que você espera alcançar com a meta escolhida. Como explicado lá no começo antes de entrarmos nos itens específicos, você precisa ter uma definição clara de quem você é, qual a sua identidade, seu lugar no mundo. Nesse meu exemplo, eu não estou devaneando se devo ou não escrever um livro (quem sabe escrever um livro seria legal). Eu aplico a técnica para escolher qual livro escrever, pois decidir que escrever livros é a minha identidade, isso eu já fiz há muito tempo (primeiro passo). Então, quando respondo a primeira pergunta lá em cima, o que eu preciso responder lá é um critério: o que espero ganhar em troca de escrever um novo livro? Dinheiro? Credibilidade? Reconhecimento? Senso de missão comprida? O custo de oportunidade então é refletido em cima desse critério: se meu objetivo é ganhar mais dinheiro/ ter mais credibilidade/ ser reconhecida como expert no assunto X, então há um peso maior em cima da opção A e não na B ou na C.

2. Tempo de implementação

Essa é outra questão que depende fortemente do que você espera receber em troca de conquistar a meta. Se o que você espera receber é algo prático como dinheiro, o tempo de implementação deve preferencialmente ser curto. Se tudo o que você quer é dinheiro, não vale a pena (custo de oportunidade) dedicar muito tempo trabalhando em uma única ideia. O melhor é escolher algo que dê retorno financeiro rápido para que você possa deixar de precisar “daquele” valor e possa então se dedicar a metas mais significativas.

Por outro lado, se o que você espera receber é algo mais complexo, mais ligado a um propósito de vida, você pode aceitar um tempo de implementação mais longo, pois os resultados daquela meta, assim como o caminho até a conclusão, têm sentido para você.

O tempo de implementação, ou seja, quanto tempo levará para completar a meta, deve ser avaliado lado a lado com o custo de oportunidade, pois um tempo mais longo é um “custo” que só pode ser justificado se a meta possui outros fatores fortes que justificam maior dedicação.

3. Probabilidade de sucesso

Esse é um item frequentemente ignorado pelos sonhadores de plantão. Sim, tem gente por aí que “ninguém dava nada” e conseguiu conquistar seu sonho. A questão é que muito do sucesso que as pessoas obtêm na vida é questão de pura probabilidade matemática. Há uma relação entre esforço e sucesso? Claro que há, mas há muitos outros itens nessa fórmula que muita gente prefere não enxergar. Qual a probabilidade de que se eu resolver do nada mudar de carreira e aprender a cantar eu me torne uma estrela do calibre da Adele?

Infelizmente eu não tenho um número exato para te dar, como eu gostaria, mas posso arriscar um palpite de que ele é menor do que zero! Ah, mas pode ser, né?! Quem sabe eu dou sorte?! Pois é, tem gente que dá certo e cai naquela probabilidade de 0,0001%. A decisão é: eu quero abandonar tudo o que eu construí, mudar minha vida e me dedicar a um mundo totalmente novo da qual eu não conheço nada e as probabilidades de sucesso estão massivamente contra mim? Não, eu não quero.

Um dos pontos chave dessa análise é olhar seriamente (sem cara de sonhador!) para as metas disponíveis e pensar em termos de probabilidade: quais as chances realistas de que eu vou mesmo conseguir fazer isso dar certo? Vale a pena (custo de oportunidade) me dedicar tanto para algo cuja probabilidade de dar certo é mínima?

Não estou querendo dar um banho de água fria nos sonhadores com isso, não! Todos nós podemos conquistar sonhos difíceis, cujas probabilidades estão contra nós. O dilema todo está na relação dessa matemática com o custo de oportunidade. Será que realmente vale a pena colocar todas as suas fichas em uma possibilidade improvável? Ah, mas eu não vou colocar todas as minhas fichas! Bom, se é assim, então seu fracasso é certo! Esse é justamente “O” problema! Quanto mais difícil e mais improvável o sucesso em uma meta, mais você tem que se dedicar a ela… e só a ela, nada mais. Dividir a meta com outras opções “mais seguras” caso a matemática esteja realmente contra você é a pior opção. Um dos maiores segredos do sucesso em metas cujas probabilidade de sucesso são muito pequenas é a consistência – muito tempo dedicado somente a uma única meta!

4. Poder de impacto

Algumas metas e ideias são só nossas. Para essas opções, esse item não precisa ser avaliado. Todavia, quando o resultado dos nossos esforços impacta a vida de outros, avaliar como isso ocorrerá e com que força nos ajuda a decidir.

Muitas vezes no egocentrismo do sonho nós esquecemos que existem outras pessoas em nossa vida e fazemos planos como se estivéssemos sozinhos no mundo.

Quando avaliamos o potencial de uma ideia precisamos pensar em como a dedicação e a conclusão daquilo irá afetar tanto outras pessoas em nossa vida, quanto o público em geral (se for o caso).

Cruzar os quatro itens é muito útil também. Quem sabe você tem uma ideia maravilhosa e que impactaria milhões de pessoas, mas a probabilidade daquilo dar certo é ínfima e levaria muito tempo. O custo de oportunidade sobe para a estratosfera. Se você decide se dedicar a uma meta dessas, é preciso entregar-se com a firmeza de que aquilo é a razão da sua vida e só se dedicar a ela e nada mais! Multitarefar com uma meta dessas é passar atestado de fracasso.

Esses quatro itens, se bem refletidos e coordenados pelas respostas das quatro perguntas iniciais ajudam muito a ter mais claridade sobre a sua situação de vida nesse momento, o que determina no final das contas o que você deve, precisa e tem condições de fazer.

Eu planifico tudo isso em uma planilha no Excel, mas já vi gente fazendo coisas parecidas em cadernos, arquivos de texto e ainda algumas pessoas usando ferramentas de administração de projetos online e softwares. Não importa a forma como você organiza seu processo de reflexão, o importante é que esteja registrado em algum lugar para que você possa enxergar suas opções de uma forma mais clara e possa também se lembrar de todo o processo, mesmo anos mais tarde.

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