Como se motivar: a verdade sobre a motivação e porque você não precisa dela

Franciane Ulaf

Como se motivar

Quem tem um porquê para viver, pode enfrentar todos os “comos”.

Nietzsche

Essa frase de Nietzsche resume o cerne da motivação – um motivo que justifica a ação. O psiquiatra sobrevivente do Holocausto Viktor Frankl também concluiu, após observar o comportamento de prisioneiros no campo de concentração, que um “porquê” para viver, um motivo, era a diferença entre os que sobreviviam e os que sucumbiam aos horrores da guerra. Em outras palavras, quem tem motivação consegue enfrentar todos os obstáculos.

A motivação é um dos tópicos mais populares da autoajuda não só porque entendemos que um propósito afeta tudo o que fazemos, mas também porque a energia que ela proporciona nos faz sentir vivos. Desejamos ardentemente sentir aquela sensação de entusiasmo, de prazer, de euforia que associamos com estar motivados.

A motivação é importante?

De um ponto macro, sim. É a motivação como propósito de vida – o motivo por trás de seus objetivos e metas, de suas ações no dia a dia. É dessa motivação que Frankl e Nietzsche estão falando.

Coelhinho da EnergizerMas o que as pessoas desejam é o micro! O que elas querem é a energia, o entusiasmo, a vontade de fazer as coisas no aqui e agora. Essa perspectiva micro não deixa de ter a sua importância. A depressão, por exemplo, é um estado de ausência absoluta de motivação ao ponto de a pessoa não querer levantar da cama. Nós precisamos de um pouquinho que seja de motivação no cotidiano para dar conta do recado e tocarmos a vida. Contudo, o que muitas pessoas esperam é que a motivação as torne o coelhinho da Energizer e quando isso não acontece elas ficam reclamando da falta de motivação.

Agora, a origem da falta de motivação pode estar no macro. Se a pessoa não tem um propósito de vida, se não sabe para onde está indo – de uma perspectiva mais ampla na vida –, ela pode se sentir desmotivada no dia a dia. Pode sentir que sua vida não tem sentido ou que tudo o que faz é em vão. Algumas pessoas são mais afetadas por essa sensação do que outras.

Entretanto, na maioria dos casos, a motivação que as pessoas ardentemente desejam não é derivada desse senso de propósito, mas uma simples vontade, um impulso para levar adiante as responsabilidades da vida e as metas de uma forma geral. Quando reclamam da falta de motivação, as pessoas estão, na realidade, exteriorizando sua falta de interesse nas atividades do cotidiano e até mesmo a própria preguiça.

A natureza humana não está do nosso lado!

Surpreendentemente, é mais difícil encontrar e manter esse tipo de motivação do que a motivação macro do propósito de vida. Podemos culpar a nossa biologia por isso! Seres humanos não foram “projetados” para funcionar como coelhinhos da Energizer. Pelo contrário, a biologia preza mais a conservação de energia do que a busca de objetivos não prioritários à sobrevivência e à reprodução. A preguiça é nosso estado natural. As responsabilidades, os compromissos e as metas que temos hoje na vida moderna são complemente alienígenas para o nosso corpo.

Motivação no cérebro

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Nossos antepassados (pense lá na idade da pedra!) precisavam da energia da motivação para dar conta da sobrevivência e continuidade da espécie (reprodução!). O aumento da inteligência na espécie humana deu origem a essa motivação “entusiasmada” que outros animais não sentem. Esse entusiasmo pode resultar em uma vantagem competitiva (do ponto de vista evolutivo) quando o colocamos a favor de empreendimentos criativos, soluções inusitadas e aumento de status (por exemplo, conseguir uma promoção na carreira ou ganhar mais dinheiro). Essas coisas são importantes para a biologia pois aumentam não só a probabilidade de sobrevivência como também a aptidão reprodutiva (probabilidade de que o indivíduo consiga melhores parceiros e tenha mais filhos). Na vida moderna, esse nem sempre é o nosso foco. Nossos genes – e, consequentemente, nosso cérebro – não sabem disso. Eles continuam arduamente trabalhando para que asseguremos o melhor par posssível e deixemos mais descendentes no mundo e seguem as mesmas regras que foram estabelecidas lá na idade da pedra – ou pré-datam a espécie humana.

Chegamos à idade moderna e queremos motivação para as coisas mais “antinaturais”, como ir para a academia ou fazer dieta para perder peso, escrever um livro, abrir e tocar um negócio, organizar a casa, e por aí vai. As coisas que fazemos hoje não são naturais para o corpo; logo, ele dificilmente nos fornece a motivação que tanto desejamos.

É isso aí então? Estamos perdidos e fadados a dia após dia de marasmo e apatia?

Não necessariamente. Uma estratégia para melhorar o nível básico de motivação do cotidiano é justamente ter um propósito no nível macro (o que você quer da vida de uma forma bem geral) e então definir objetivos e metas a serem alcançados ao longo do tempo. Isso desperta as estruturas neuronais originalmente forjadas para nos motivar a sobreviver e aumentar nossa aptidão reprodutiva.

Diversos estudos científicos já foram realizados para avaliar como o ser humano lida emocionalmente com metas. Muitos desses estudos concluíram que a perseguição de metas, mesmo que artificiais (como um videogame), aumenta consideravelmente a motivação. Se um mero joguinho pode enganar o cérebro e fazê-lo liberar a energia da motivação, imagine o quanto podemos fazer com metas na vida real.

Tá, mas eu não me sinto motivado para buscar minhas metas! E agora?!

Nem sempre conseguimos enganar o cérebro o tempo todo. Também há o agravante de que muitas das nossas responsabilidades na vida, pessoais ou profissionais, são coisas nas quais não temos o menor interesse. Se não estamos genuinamente interessados em algo, é natural que a motivação simplesmente não esteja lá. Podemos criar estratégias artificiais com metas, incentivos e recompensas e ver no que dá. Às vezes funciona, às vezes não. Com responsabilidades das quais não podemos fugir, como escola e, em alguns casos, trabalho, podemos lançar mão dessas estratégias, mesmo sabendo que a motivação gerada é artificial.

O problema da falta de motivação é mais complexo do que o espaço que temos para discutir em um artigo. Por exemplo, poderíamos abordar a questão de como a autossabotagem e o medo do sucesso abortam a motivação, mas precisamos deixar esses tópicos tangenciais para outros artigos.

Se não conseguimos motivação, então o quê?

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Meu ponto aqui é que, apesar de termos alternativas para desencadear a motivação, mesmo que artificialmente, às vezes nada dá certo, mas continuamos precisando dar conta do recado. Nesse ponto, a minha sugestão é trocar a motivação pela disciplina. Passamos por altos e baixos na vida e precisamos lidar com as mais variadas situações enquanto temos obrigações para cumprir e metas para alcançar. É simplesmente impossível alinhar tudo e vivenciar a vida sempre em alta, sempre motivado. Entender esse ponto é importante para deixarmos de esperar a motivação para agir.

A disciplina é um dos atributos mais valiosos que podemos desenvolver. Ela garante que o que precisa ser feito será feito, faça chuva, faça sol. Um dos melhores exemplos para ilustrar o poder da disciplina é o esporte profissional. Atletas amam o que fazem, ou seja, eles têm “propósito”, suas ações estão direcionadas a algo que é maior do que as ações do cotidiano. Mas isso não significa que estejam sempre com vontade de treinar. Atletas não são super-humanos que nunca sentem preguiça! Tampouco, são pessoas que conseguiram descobrir o segredo da motivação perpétua. O dia a dia de um atleta é mantido com disciplina. Eles fazem o que precisa ser feito, independentemente de como se sintam com relação às atividades. Não estar com vontade ou não se sentir motivado não é desculpa. O que precisa ser feito será feito, ponto final.

Tá, e como desenvolver essa tal disciplina?! Vamos discutir esse tópico em outro artigo. O que quero deixar aqui para você é a ideia de que a motivação pode ser muito gostosa e há tem opções para criar condições em que ela pode aparecer em sua vida. Contudo, é mais importante entender que você não precisa dela – e, principalmente, que não deve esperar por ela para dar início ou continuidade às suas metas ou tocar o dia.

Um efeito interessante ocorre quando você adota essa postura. À medida que vai dando conta do recado, construindo sucesso em sua vida, conquistando metas e progredindo, a motivação começa a aparecer com cada vez mais frequência! Você dá as costas pra ela e, de repente, ela vem correndo atrás de você!

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