Onde fica o equilíbrio entre planejar o futuro e viver o momento?

Franciane Ulaf

Viver o momento ou planejar

A base da teoria Carpe Diem é viver intensamente o momento. Esse conceito é frequentemente mal interpretado, pois em nossa sociedade, viver o momento significa festejar, curtir, ser irresponsável e geralmente é visto como uma postura incompatível com uma vida adulta e próspera. Essa noção, contudo, é uma ilusão, já que tal postura na realidade revela perda de tempo, oportunidades e risco de comprometer o sucesso futuro em prol de “sensações” no presente. Viver intensamente não envolve necessariamente hedonismo, ou seja, dar prazer aos cinco sentidos, simplesmente “curtir” a vida. O significado de viver intensamente está mais ligado a manutenção dos cinco sentidos no presente, no momento, não necessariamente fazendo algo prazeroso. Não que eu esteja dizendo que é preciso sofrer para viver Carpe Diem, mas o que defendo aqui não é sinônimo de curtir a vida adoidado, como alguns podem ser levados a acreditar pelas aparências.

A maioria das pessoas não vive “no momento”, mas sim dentro de suas cabeças, em algum outro lugar. Muitas vezes esse lugar não é nem sequer o passado ou o futuro, mas sim uma fantasia qualquer ou um diálogo mental interminável. Enquanto isso, a vida passa, as coisas acontecem e a pessoa nem vê. Isso é um problema básico de FALTA DE ATENÇÃO! Essa postura, contudo, reflete em praticamente tudo na vida da pessoa e em especial, sua capacidade de “viver em fluxo”.

A pessoa que vive em fluxo é aquela “sortuda” que parece estar sempre na hora certa, no lugar certo, que é carismática e atrai a atenção de todos à sua volta. Ela também conquista praticamente tudo o que quer e a vida parece ser tão fácil para ela. É como se a vida dessa pessoa fosse uma sequência de serendipidades, de coincidências significativas e positivas que as leva para frente e para cima.

Os outros não conseguem entender o segredo do sucesso dela porque tentam explicar pela lógica algo que não tem lógica. Ficam tentando descobrir o que exatamente ela fez, com quem falou, onde foi, que oportunidades aceitou, quando na realidade, nada disso importa. Serendipidade é algo que não pode ser replicado, não é possível seguir o mesmo caminho e replicar algo que foi “mágico”. Também não é possível forçar esse processo e fazer acontecer à força.

A pessoa desatenta não consegue viver em fluxo porque ela não percebe as sutilezas da vida à sua volta e por isso deixa de interagir com elas e usá-las a seu favor. O tempo despendido dentro de suas cabeças também causa outro malefício: a intenção de manipulação da realidade. A maioria das pessoas que “pensa demais”, no sentido de que ficam ruminando pensamentos o tempo todo, dedicam um bom tempo pensando sobre como gostariam que as coisas acontecessem no futuro e julgando o passado e os outros. Essa postura cria ansiedade e expectativas.

Por exemplo, antes de um evento importante ela fica ruminando mentalmente sobre como será. Ela fica imaginando diversas cenas, fica pensando em tudo o que pode dar errado, imagina fantasiosamente coisas que ela gostaria que acontecesse e nesse processo ela cria expectativas de que como ela deseja preferencialmente que as coisas se desenrolem. Isso cria ansiedade, pois ela criou um vínculo emocional para com suas preferências. Se as coisas não acontecerem como ela imaginou, ela se sentirá desapontada e como ela não quer se sentir assim, ela fica apreensiva, na ansiedade de que as coisas realmente aconteçam como em sua imaginação.

Às vezes essa ansiedade é para o lado negativo e a pessoa fica apreensiva com medo de tudo o que pode eventualmente dar errado. De uma forma ou de outra, ela não vive o momento, não presta atenção em tudo o que está acontecendo no presente – ela está muito ocupada estando ansiosa e tentando controlar todos os detalhes. A energia desse estado bloqueia o fluxo de serendipidade. Se havia algum acontecimento “mágico” que ocorreria durante o evento, ele foi boicotado pela energia negativa do medo e então as chances dele acontecer são mínimas. Tudo o que sobra são os eventos negativos que se alinham com o estado ansioso da pessoa.

Isso tudo parece um tanto “esotérico” para o meu perfil e se você é meu leitor, você sabe que eu não simpatizo com nada “místico”, mas o que eu observo é que essa energia dos estados emocionais é algo que definitivamente influencia as coisas que ocorrem em nossas vidas. Tem pessoas que parecem sempre estar no lugar certo, na hora certa e sempre conseguem atingir seus objetivos. Você vai estudar seu perfil e acaba descobrindo que suas características batem com as demais que também “vivem em fluxo”. É fato, essas pessoas tem uma personalidade em comum e é essa personalidade que desencadeia toda essa “sorte”. Talvez tudo isso tenha explicação, mas nós ainda não sabemos qual é, por isso usamos esses termos, como “energia” e “mágica”, para definir de forma um pouco generalizada as coisas que observamos.

Viver Carpe Diem é aproveitar ao máximo a vida, mas de um ponto de vista produtivo. Para isso é preciso estar presente no momento, prestando atenção na vida que está se desenrolando na sua frente, e não pensando na morte da bezerra dentro de sua cabeça. Essa postura de viver sempre presente abre precedente para outro ponto importante observado em pessoas que vivem em fluxo: seguir as ondas que aparecem na vida sem lutar contra elas para manter o status quo. O status quo é a situação atual. Por exemplo, você tem um emprego que não cheira nem fede, você não gosta nem desgosta, já pensou em sair, mas não é tão ruim assim. De repente uma oportunidade aparece, mas você não tem certeza, não há nada certo… Você precisa, contudo, decidir rápido, é matar ou morrer. Você pega a oportunidade ou deixa passar? A resposta, é claro, depende! Mas depende do quê?

Uma pessoa que não vive em fluxo diria que depende de todos os fatores lógicos a serem analisados frente aos riscos que estão para ser assumidos. Resposta errada!

A pessoa que vive em fluxo diz que depende de como ela se sente com ela relação à oportunidade e ao emprego atual e o timing da coisa toda. Se ela se sentir que é hora, ela vai, se não, ela fica. Não tem lógica, é puro feeling.

O interessante é que a pessoa no primeiro exemplo está sempre se dando mal, enquanto a outra que faz tudo no “feeling” está sempre se dando bem!

Quando nós não sabemos se algo vai dar certo ou não, a lógica não presta. Ela contamina nosso pensamento com medo e ansiedade e um monte de diálogos internos inúteis. Seguir o coração, nessas situações, parece sempre ser a opção certa. Mas e quando as coisas dão errado?

E aí temos outro trunfo da serendipidade. Só podemos falar realmente que as coisas não deram certo se acabarmos literalmente morrendo! (e mesmo assim, nem isso a gente sabe se é tão ruim quanto parece!) Até lá tudo pode mudar. A pessoa que vive em fluxo não entra em paranóia com a possibilidade das coisas não darem certo, porque ela sabe que às vezes não dão mesmo e de propósito, pois algo muito melhor está esperando para acontecer logo na outra esquina.

Histórias de sucesso estrondoso estão repletas de exemplos de coisas que não deram certo e só depois no final da história é que tornou-se evidente que se tivesse dado certo, teria sido um desastre ou nada do que ocorreu depois (que foi muito melhor) teria ocorrido. Muitos empreendedores gostam de contar histórias de seus empreendimentos falidos ou de como eles “quase” tomaram a decisão errada para fazer alguma outra coisa “dar certo”, quando não era a “coisa” certa a se fazer no momento.

Agora, viver só no momento sem um direcionamento também não dá certo. Pessoas bem sucedidas que tem esse perfil não vivem sem eira nem beira, só “curtindo” a vida, sentados numa praia paradisíaca vendo a vida passar. Eles planejam e trabalham proativamente na construção de seus sonhos. A diferença é que eles não tentam manipular a realidade através da ansiedade ou de ações forçadas para se adaptar às suas expectativas. Na prática, “eles não dão a mínima”, ao menos é assim que as outras pessoas enxergam sua atitude. Na verdade, eles se importam sim, mas não há uma dependência emocional para com o resultado ou a reação de outras pessoas e esse é o segredo. É a dependência emocional que causa ansiedade – “ai meu Deus, e se as coisas não acontecerem do jeito que eu quero” – esse pensamento só surge na cabeça de alguém que se sente emocionalmente dependente daquele resultado. Quando essa dependência não existe, também não há expectativas. Se as coisas não dão certo, a pessoa não sente estresse, não choraminga frustradamente porque algo que ela queria não aconteceu, ela simplesmente segue em frente, tenta de novo, faz outra coisa, tudo dependendo de como ela se sente no momento, como seu coração está lhe dizendo para fazer.

O equilíbrio está em ter um direcionamento certeiro através de metas e objetivos claros, planejados e estruturados, mas ao mesmo tempo manter a mente no presente e as decisões baseadas no coração, digamos assim. Às vezes, o desenrolar dos acontecimentos mostra que uma meta ou outra deve ser abandonada e outras devem ser adotadas. Uma pessoa que não segue o coração tenta insistir nas metas anteriormente escolhidas e ignora as novas, tentando forçar uma realidade que não está querendo acontecer. Essa tentativa de manipulação coloca um freio na energia que estava fluindo e a contamina com a negatividade da ansiedade e do medo de que as coisas não ocorram como esperado. Agora, é preciso ter a perspicácia de uma pessoa extremamente autoconfiante para saber discernir uma situação em que as coisas realmente não devem acontecer (e portanto as metas devem ser alteradas ou abandonadas) de uma situação que é simplesmente difícil e que requer persistência e determinação. Tanto a autoconfiança quanto a perspicácia fazem parte da personalidade de uma pessoa que vive em fluxo e elas sabem intuitivamente quando uma situação é um caso ou outro.

Não é possível adotar esse perfil, entretanto, aprendendo-o através de direcionamento. Se você está decepcionado porque este artigo não está dizendo **exatamente** o que fazer para deixar de ser uma máquina de ansiedade e começar a viver em fluxo, você está caindo em sua própria armadilha. Lembra quando falamos em não tentar procurar justificativas lógicas para algo que não tem explicação? Então, é a mesma coisa aqui. Não dá para explicar como mudar seu comportamento, sua personalidade, só você mesmo pode identificar os pontos que, em seu caso particular, estão “entupindo” seu fluxo de energia e começar a trabalhar nesses pontos para que você consiga se desligar cada vez mais das expectativas de resultados e consiga ficar cada vez mais atento no momento. Há livros que você pode ler e cursos que você pode fazer, mas tudo isso é muito pessoal, pois cada pessoa tem um grupo de problemas específicos. Para algumas pessoas, o problema é a ansiedade, para outras é a timidez, para outras é a atenção e assim por diante.

Todavia, mais importante do que lidar com esses problemas é aprender por si só a seguir os próprios instintos e para isso não há como dar um direcionamento. Só mesmo você pode efetuar as mudanças íntimas necessárias para aumentar sua autoconfiança a ponto de se desligar da necessidade de certezas e garantias e aprender a deixar as coisas acontecerem, sem se sentir estressado, ansioso ou frustrado, tanto com as expectativas (antes) quanto com os resultados (depois). Não tem como ensinar como fazer isso. Isso é algo que você terá que aprender sozinho.

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15 comentários em “Onde fica o equilíbrio entre planejar o futuro e viver o momento?”

  1. Fran, você é uma pessoa brilhante! Leio muitos artigos de autoajuda e desenvolvimento pessoal, mas eles todos se parecem uns com os outros, é tudo coisa que os autores regurgitam de outros autores, nada original, nada que faz a gente pensar. Você não… você sempre me deixa o dia inteiro pensando em seu artigo e como as coisas que você fala funcionam na minha vida. É fenomenal!

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  2. Sensacional o artigo. Concordo com a Carol acima, você sempre tem insights muito diferentes dos autores que a gente costuma ler, por isso é que eu sempre leio seus artigos, mesmo quando a vida está corrida.

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  3. Admiro sua clareza de pensamento e a maneira como voce apresenta as idéias nos seus artigos criando assim novos conceitos que se postos em prática formam o arcabouço de uma nova personalidade firmemente arraigada no que há de melhor no gênero humano. Leio todos os seus artigos.

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  4. Oi Fran!

    Eu me surpreendi dessa vez com este seu texto. Como você mesma fala nele, não é o seu perfil abordar assuntos considerados místicos. Mas, eu gostei muito. E acho que você foi muito assertiva em afirmar que atualmente nós ainda não temos uma explicação lógica para esse estado de fluxo que pode ser observado nas pessoas de sucesso. O professor de psicologia húngaro chamado Mihaly Csikszentmihalyi trata muito bem desse assunto no livro (que eu ainda não li, mas li uma resenha) “A Descoberta do fluxo”. abraços

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  5. Olá Fran!

    Sou professor e palestrante, e enfrento os malefício das posturas que colocou acima. É um mar de pessoas com “gastrite nervosa” por coisas que não controlam.

    Quero parabenizá-la pela clareza e sabedoria. Se tivesse condições, lhe daria um abraço cordial de parabéns por cada artigo enviado.

    Parabéns e abraço.

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  6. Opa!
    Sou Pedagoga atualmente meu foco é o estudo sobre a inteligência emocional, e realmente seu artigo é brilhante, consegue envolver diversos temas focando o desenvolvimento do ser humano.
    Parabéns

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  7. Oi Fran,

    Surpreendente o que você faz. E como está me fazendo pensar, e desenvolver diversos assuntos que antes ficava muito instigante na minha vida e quando você diz: “O equilíbrio está em ter um direcionamento certeiro através de metas e objetivos claros, planejados e estruturados, mas ao mesmo tempo manter a mente no presente e as decisões baseadas no coração, digamos assim”, nos faz ser mais firme. Parabéns.

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  8. Li o que precisava ler. a verdade é que teoria sempre foi muito diferente da prática, ou seja, por as idéias em prática exige esforço e muita disciplina, mas por outro lado e da forma colocada pela Fran nos ajuda a fortalecer a tese de que devemos viver mais os momentos para não temer tanto o futuro. Outro ponto importante é sempre buscar significado para as coisas que fazemos. Isso também ajuda a eliminar a ansiedade. Aquilo que não tem significado e está matando o rico tempo da vida de cada um deve ser DESCARTADO! Feliz 2014 a todos!

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  9. Li gostei imenso deste artigo, agradeço pela ilustração daquilo que tem sido de caracter importante no pensamento conflituoso do homem ao quando do percurso da indagação de como ter uma vida financeira independente.

    Obrigado

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  10. Seu texto é cheio de sabedoria… isso é dom divino!

    Por mais que tentemos mudar o nosso eu, sempre nos deparamos com brigas internas!

    No meu caso eu sofro com o perfeccionismo… minha “capacidade” de imaginar detalhadamente como seria o amanhã é tanta… que vizualizo um problema sofro e me frustro antes do projeto sair do papel!
    Parece que por mais que eu viaje nos meus projetos… que eu to sendo realista a ponto de identificar problemas futuros e decidir se ando ou não… essa mágica nunca acontece… pq eu tomo a frente sempre…. só pra citar um exemplo:
    …sempre sonhei com uma festa surpresa de aniversário… nunca tive pq sempre organizei as minhas festas e imaginava cada detalhe, cada convidado…a música… qd chegava o dia…além de ansiosa eu sofria pq tais convidados nao puderam ir. No caso, se eu num fosse ansiosa…certamente ganharia uma festa surpresa e certamente ficaria feliz!

    Com base nesse exemplo…
    Com medo de ficar triste e sem festa… ou eu me antecipo ou provavelmente diria que ia sair… logo eu bloqueio a mágica!

    É preciso brigar com nosso eu!
    E deixar as coisas fluirem naturalmente!
    Sou 8 ou 80

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