Qual o problema de ter muitas metas?

Franciane Ulaf

Ter muitas metas

Você provavelmente já ouviu falar sobre o poder do foco. Foco é considerado um dos maiores segredos de pessoas bem sucedidas. Não é novidade, portanto, que isso é algo que você deve dominar.

O que quero dizer é todos sabemos da importância de nos mantermos focados em nossas metas, temos consciência de que nosso sucesso depende desse foco. A maioria de nós, contudo, tem dificuldade para seguir em linha reta para alcançar o que desejamos. Nós queremos muitas coisas, nós queremos tudo! Nós somos gananciosos (ou será isso um tipo de “gula”?)

Muitas pessoas com tremendo potencial (diferentes talentos, interesses, hobbies) acabam patinando no molhado na vida simplesmente porque não conseguem permanecer focadas. Elas perseguem muitos coelhos ao mesmo tempo, se dispersam dando vazão a todos esses interesses diferentes. Elas querem começar um novo negócio, escrever um livro (um não, três!), fazer uma pós-graduação (quem sabe também um MBA?), começar um blog (ou cinco), aprender Inglês (e Francês… e Alemão), e por aí vai… Tudo isso é “alcançável”, nada muito fora do normal, mas o problema é que metas como essas não podem ser alcançadas ou “perseguidas” ao mesmo tempo.

Eu encontro pessoas assim o tempo todo e eu mesma já passei pela minha fase de “gula de metas”. Nós queremos muito, queremos conquistar o mundo e como sabemos que nossas metas não são assim tão “fora da casinha”, nós não nos damos conta de que o problema não são as metas em si… O problema é que não podemos tentar conquistar tudo… ao mesmo tempo.

O segredo do foco é a priorização. Não conseguimos nos focar em nada a não ser que nos convençamos de que a meta A tem uma prioridade maior do que a meta B nesse exato momento. Nos convencer é o segredo aqui! Pessoas talentosas tendem a ser teimosas e a ficar exageradamente motivadas com a “meta do momento”. Podemos nos entregar a meta A em Janeiro achando que é o propósito de nossas vidas, só para nos esquecermos dela em Fevereiro, achando que a meta B é que é a tal! Em Maio lembramos o que estávamos fazendo sobre a meta A, mas aí levamos um tempinho até pegarmos no tranco novamente e até lá alguma outra coisinha brilhante nos chama atenção e nos puxa para longe da meta novamente. Nós acabamos não conquistando meta nenhuma, nem a A, nem a B, nem a Z!

Muita gente não vê esse vai e vem de metas como “tentar alcançá-las ao mesmo tempo”, pois hora se dedicam a uma meta, hora para outra. Mas este é justamente “o” problema! Ninguém consegue se dedicar a várias metas literalmente ao mesmo tempo! Nós multitarefamos, isso é normal, mas não é disso que estou falando! É possível sim, levar algumas metas juntas, o problema está na “gula” de metas. Na prática, a maioria das pessoas não dedica tempo algum às metas que têm em mente e mesmo assim, a presença dessas metas em suas intenções já é suficiente para empatar suas vidas.

A neurociência tem levantado hipóteses que cogitam a relação entre esse tipo de comportamento e a ganância ou a gula! Ambos os conceitos derivam do mesmo impulso: querer demais e ser incapaz de priorizar, definindo o que deve vir primeiro e o que deve ser postergado. Assim como uma pessoa que coloca comida demais no prato e não consegue comer tudo, gulosos por metas podem definir 10 metas e tentar alcançá-las todas ao mesmo tempo. É como começar a ler diversos livros simultaneamente, você não os lê literalmente ao mesmo tempo, mas lê um pouquinho de um, depois um pouquinho do outro, e por aí vai. Cada um dos livros leva muito mais tempo para ser completado do que se lêssemos um por um, de cabo a rabo.

As metas simultâneas são os projetos abertos que temos, as coisas que iniciamos ou que nos determinamos a alcançar, mesmo que não tenhamos feito nada (ou muito pouco) em direção a elas ainda. Esse “ainda” tem um poder impressionante!

As metas pesam em nossa cabeça porque enquanto estamos fantasiando com sua concretização, fazemos determinadas escolhas na vida (ou deixamos de fazê-las) para moldá-la para que futuramente possamos acomodar a meta.

Conheci uma mulher em Nova Iorque que tinha passado boa parte de sua juventude na França. As circunstâncias da vida a trouxeram de volta aos Estados Unidos, onde morava sua família. Ela sempre dizia que mais dia, menos dia, ia arrumar a mala e voltar para a França, pois lá era seu lugar. Ela desprezava os EUA e tudo o que seu país natal representava. Essa era sua “meta” e ela ocupava tanto espaço em sua cabeça que todas as suas decisões eram pesadas contra a eventual “volta para a França”. Ela evitou formar qualquer tipo de relacionamento amoroso mais sério (pois e se o parceiro não quisesse ir para a França com ela?), evitou arrumar empregos fixos que a “enraizassem” no local onde ela “não queria ficar”, evitava amizades mais profundas, enfim, sua cabeça estava envolta com os “planos” para voltar ao lugar que ela tanto amava. Essa mulher já faleceu… Ela passou a vida toda sonhando em voltar para a França, tomando decisões que demonstravam que a partida era iminente, “ano que vem eu vou” ela costumava dizer… por anos a fio. Ela nunca tomou uma decisão sequer em direção a sua tão sonhada meta. Ela poderia ter ido, a qualquer momento, quando bem entendesse. Era uma mulher livre, descomprometida, que nem emprego tinha, só fazia bicos justamente para ser capaz de “largar tudo de uma hora para outra” quando a oportunidade de voltar chegasse. O que ela nunca se deu conta é de que a “oportunidade de voltar” não viria de fora, ela é que tinha que tomar a atitude de ir embora, o que ela nunca fez. Sempre tinha alguma coisinha aqui ali, família, situação econômica, saúde, alguma desculpa que passava sua meta para frente, para o “ano que vem”. O peso dessa meta em sua mente, entretanto, acabou com todos os outros objetivos que ela poderia eventualmente considerar, pois ela acreditava que não poderia se comprometer com nada até que sua meta maior se concretizasse.

Esse exemplo é fortíssimo, pois nos alerta para o fato de que não precisamos necessariamente estar engajados, trabalhando ativamente em uma meta para que ela “ocupe espaço” em nossa vida e até mesmo atrapalhe o andamento de todo o resto. Quando não temos apenas uma, mas várias metas simultâneas, a situação pode ficar ainda mais caótica. As metas começam a competir entre si dentro de nossa cabeça e confundem nosso senso de prioridade. A neurociência explica que o cérebro confuso “trava”, ou seja, quem se sente confuso não faz “uma coisa de cada vez”, mas sim, escolhe “não fazer nada”! Enquanto estamos ocupados tentando decidir o que “fazer primeiro”, qual a meta que vai ser sorteada para ganhar nossa força de trabalho, nós entramos em “piloto automático”, seguimos a vida, cumprindo com as nossas obrigações pra lá e pra cá, mas nossas metas saem do mundo da fantasia, não ganham um pingo de ação, afinal de contas, ainda estamos confusos, ainda não tomamos uma decisão, ainda não escolhemos o que é mais importante fazer primeiro.

Então quer você tenha uma “metona” que ocupa espaço demais em sua cabeça (como a mulher que queria morar na França) ou várias “metinhas” que competem por sua força de trabalho (como a pessoa que começa a ler múltiplos livros ao mesmo tempo), você tem um problema de priorização!

O que está por trás deste comportamento é o mesmo mecanismo que alimenta a gula e a ganância: falta de autocontrole ao lidar com os próprios desejos – a pessoa quer muita coisa e não consegue decidir o que quer “mais” do que as outras coisas, priorizando a ação. A ganância entra quando a pessoa tem dificuldade de abrir mão de suas metas, nem mesmo por alguns meses ou anos. Ela pode não fazer NADA com relação às metas, mas o “espaço” que elas ocupam em sua mente afeta sua priorização, como a mulher que queria voltar para a França, não fazia nada a respeito, mas também não seguia outras metas. Quando a pessoa tem muitas metas, ela geralmente tem dificuldade para priorizar e colocar uma meta na frente da outra, definindo que a meta A deve ser conquistada antes da B. Como ler vários livros ao mesmo tempo, a pessoa quer conquistar tudo pra ontem, não dá pra esperar, não dá pra colocar cinco metas na gaveta e trabalhar em uma só, tem que trabalhar nas seis ao mesmo tempo, mesmo que um pouquinho em cada uma, alternadamente.

Há um senso de urgência nessas pessoas, elas acreditam que estão atrasadas na vida, que já deveriam ter conquistado isso e aquilo e por essa razão não podem ser dar ao luxo de perseguir uma meta de cada vez, elas devem correr contra o tempo e conquistar todas as metas juntas. A realidade é que o overload de metas causa uma confusão mental tamanha que a pessoa não trabalha em direção a nenhuma delas e fica permanentemente com esse senso de urgência, sem se dar conta de que no tempo que já teve, ela poderia ter, uma a uma, conquistado TODAS as metas!

Você pode estar se questionando: então se as pessoas não seguem suas metas de uma forma ou de outra, com uma ou 10 metas “em mente”, que diferença faz? Eu vou te falar… a diferença é grande! Esse “espaço mental” que as metas ocupam nos roubam oportunidades, limitam nossa disponibilidade íntima para “se entregar” de corpo e alma a sincronicidades que poderia definir nosso destino de uma forma muito mais espetacular do que as metas mais ousadas que fantasiamos. Além disso, metas “dentro da cabeça” consomem tempo, mesmo quando a gente não se dedica a elas. Muitas pessoas, por exemplo, adoram dedicar horas a buscas na internet sobre seus “sonhos”, pesquisa, pesquisa, pesquisa… A impressão é que ao saber mais sobre a meta, estaríamos nos aproximando dela, quando na verdade, o oposto ocorre. O cérebro não consegue distinguir entre o que nós queremos do que nós já temos, e esse efeito de estudar demais sobre a meta pode, na realidade, enganar nossos neurônios. Se o cérebro acredita que nós já temos aquilo, a motivação para tomar atitudes reais vai diminuindo. Esse é o efeito que assombra os sonhadores, quanto mais a pessoa imagina e fantasia o que ela deseja, mais o cérebro acredita que aquilo já é realidade e consequentemente, menos a pessoa faz para alcançar sua visão.

Olhando pessoas altamente produtivas, nós invejamos seu potencial e nos questionamos o que há de errado conosco, como essas pessoas conseguem fazer tanto e não conseguimos fazer nada com as mesmas 24 horas diárias? Por que diabos não conseguimos as coisas que queremos com o tempo que temos? Essas pessoas super produtivas com certeza têm alguns truques debaixo da manga, mas produtividade e boa administração do tempo nunca foram segredos. A grande diferença está realmente na boa e velha priorização que já falamos antes. Apesar dessas pessoas fazerem realmente muitas coisas ao mesmo tempo e darem conta de tudo, elas geralmente só se dedicam a uma meta grande por vez. Eu nunca vi um autor bem sucedido trabalhando em dois (ou mais) livros ao mesmo tempo. Nunca vi um empreendedor começando dois negócios simultaneamente – ou escrevendo um livro e começando um negócio! Contudo, já vi muitos aspirantes a autor “de sucesso” que estão trabalhando em cinco livros há 20 anos! Nunca publicaram o primeiro… e como autora eu me deparo com muita gente com este perfil. Nem sempre as metas simultâneas são iguais como tentar escrever múltiplos livros ao mesmo tempo, às vezes o problema é tentar levar mais de uma coisa grande e complexa como fazer um MBA e abrir um negócio ao mesmo tempo. Ocasionalmente as pessoas conseguem terminar esse tipo de meta “dupla” ou “tripla”, mas nem uma nem outra acaba recebendo a atenção que mereciam. Há muitas coisas que podem ser planejadas para serem perseguidas ao mesmo tempo, mas qualquer coisa que requeira intensa dedicação precisa receber o carimbo mental de “prioridade número um” para que tenha uma chance de ver a luz do dia.

Quando a meta A é concluída ou já está “bem encaminhada”, podemos passar para a B e assim por diante. Todavia, é também importante questionar se todas as metas que você tem em mente são realmente coisas que você deve perseguir. Foco não é só manter-se em “linha reta”, priorizando a coisa certa, na hora certa, mas também manter a coerência entre os objetivos que temos. As coisas que você quer devem estar conectadas de alguma forma, elas devem todas juntas contribuir para com a conquista de sua “meta magna” ou o que é que você quer da vida no final das contas.

Fazer coisas só porque você “curte” fazê-las não é uma boa ideia. Se você ainda não é estável financeiramente, por exemplo, tente fazer o ama por dinheiro ao invés de fazer algo que odeia profissionalmente só para gastar muito tempo depois com seus hobbies. Do contrário, você teria metas “financeiras”, “metas profissionais” e “metas do coração” que envolveriam as coisas que você simplesmente gosta de fazer. O ideal é juntar essas três em uma meta só. É o que eu faço! Eu amo escrever, adoro compartilhar essas minhas ideias e perspectivas com quem quiser ler, essa é a minha profissão e isso é rentável o suficiente para que eu não precise fazer mais nada (com fins econômicos): problema resolvido! Contudo, é importante ficar atento aos nossos desejos e preferências, podemos “curtir” fazer uma porção de coisas, coisas estas que nós não precisamos realmente fazer. É preciso conquistar um equilíbrio entre as atividades que planejamos fazer para crescer na vida – em vários aspectos, e os nossos hobbies, coisas que fazemos simplesmente porque gostamos. Quando os hobbies ocupam tempo demais, é hora de se questionar sobre transformar o hobby em profissão. Se não é o caso, precisamos avaliar se essas atividades não estão roubando o tempo que reclamamos não ter para prosperar profissionalmente.

Tente conectar as coisas que você “quer da vida” em uma rede. Se algumas coisas parecem estar muito por fora e desconectadas, considere permanentemente abandoná-las. Se você acha que essas coisas são muito importantes, mais importante do que todo o resto, pense em como você poderia mudar toda a sua vida para formar uma rede em torno delas – como deveria ter feito a mulher que queria voltar à França!
Reflita sobre essas questões:

– Você é um “fominha” de metas, colocando muitas metas em seu “prato” sem ser capaz de dar conta de tudo ou priorizar e ir fazendo as coisas aos poucos?

– Você é ganancioso com suas metas, tendo dificuldade de abrir mão de algumas ou mesmo postergando a concretização de outras?

– Você tem alguma “metona” que ocupa seu mundo de fantasia mental e que ao mesmo tempo impede com que você se comprometa com outros objetivos?

– Você sonha acordado com vidas totalmente diferentes que você poderia ter e tem dificuldade para escolher qual delas você realmente preferiria viver?

As respostas para estas perguntas podem diagnosticar um problema com prioridades e metas. Estar ciente de nossos problemas é a primeira providência para a solução, pois passamos a prestar mais atenção em como lidamos com esse aspecto em nossas vidas.

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11 comentários em “Qual o problema de ter muitas metas?”

  1. Nossa, esse artigo foi escrito pra mim! hahaha Eu sofro com os dois aspectos, tenho umas “metonas” que nunca acontecem, mas me impedem de “me entregar” mais para o que está acontecendo hoje e ao mesmo tempo, tenho várias “metinhas” que me deixam confusa e dispersiva e sim, eu também tenho esse senso de urgência, dá a sensação de que se eu não me apertar não vou ser bem sucedida na vida e a família, pais, irmãos fazem muita pressão para ter o sucesso que eles tiveram…

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  2. Obrigada pelo artigo sobre as metas. Acho impressionante sua capacidade de síntese e análise.Esse das metas foi escrito para mim.
    O que agrava a minha situação é que a minha ” metona”não depende só de mim, enquanto não resolver outro problema, que tbm não depende da minha intervenção.( venda de um apto minha meta não ” anda”.

    Obrigada mais uma vez e espero continuar recebendo tão sábios conselhos.Deus te ilumine sempre.

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  3. Tenho muitas metas e nao sei classificar. A primeira deveria ser a saúde mas nao estou focando nela. Travei e entrei no piloto automático. Fazendo só urgências. Ótimo artigo. Vou tentar seguir a orientação. Obrigada.

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  4. Nossa, quanta verdade!
    Essa é a minha situação.
    Vou ler este artigo todas as noites antes de dormir e ao acordar todos os dias antes de iniciar. Até eu aprender.
    Sou grata por este artigo.
    Grande Abraço.

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  5. Muito bom o seu site e informações! Passei a última hora lendo vários artigos e todos ajudaram a organizar minhas ideias nesse início de ano (época de planos, metas….).

    Curiosidade: tenho uma pasta no meu computador – PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO PESSOAL” – Tabelas de excel para cada ano que se inicia, com objetivos e metas divididos em inúmeras abas setoriais: “pessoal / profissional / música / relacionamentos…”

    E me identifiquei muito com esse texto: várias metas, e pouca ação numa direção certa. Abri as pastas de anos passados, muita coisa que não é tão importante continua lá, somente como meta…

    Por outro lado, em 2014 não fiz plano nenhum. Um pouco por desânimo com essas metas perdidas anteriores. E justamente nesse ano em que não planejei nada foi o ano em que fui mais ativo e eficaz na direção da minha “metona”, o grande sonho.

    Trabalho no mercado financeiro, mas meu grande sonho é trabalhar com música, viver da música, com conforto. E justo nesse ano “sem planos” é que entrei em uma banda em turnê pelo Brasil, tocando em diversos estados e sendo convidado para ser “sócio” do negócio. Além dos shows, foram 03 gravações de CD’s para 03 bandas diferentes, construção de um estúdio próprio em casa, volta às aulas do meu instrumento e prática quase diária em casa… enfim, sem focar em muito, consegui focar muito em pouco! E consegui uma boa evolução também no trabalho de assessoria.

    A música ainda não paga minhas contas, mas cada vez mais vejo possibilidades para tornar o hobbie que toma muito tempo, o plano A. Fica a dúvida se não seria um ótimo “não” largar a carreira no mercado financeiro (ainda não tão desenvolvida) e já focar desde já na “metona”. Essa decisão é mais difícil!

    Um abraço!

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