Você não consegue parar de sonhar acordado? O que é o transtorno de devaneios excessivos?

Franciane Ulaf

Sonhar acordado

Quando comecei a estudar distúrbios de atenção me deparei com uma condição muitíssimo interessante: pessoas que se tornam viciadas em narrativas fictícias que criam em suas cabeças, hábito que passa a dominar suas vidas.

Todos devaneamos, isso faz parte do processo cognitivo humano e tem inúmeras funções importantes com raízes evolutivas. Alguns de nós devaneiam mais do que os outros. Eu mesma preciso usar inúmeras técnicas para conseguir manter o foco no dia a dia sem deixar com que minha mente comece a vagar por lugares aleatórios. Eu, pessoalmente, acredito que não há ninguém que não devaneie nunca. Há quem tenha aprendido a controlar os pensamentos intrusos, as escapadas mentais, mesmo assim, sem esforço consciente, a mente divaga naturalmente.

Esta condição a que me refiro, contudo, não é como um devaneio normal, não é uma “viagem na maionese”. Não é como deixar a mente solta e deixar ela passear pelas coisas que vivenciamos ultimamente, as coisas que precisamos fazer no futuro próximo, alguma música, alguma conversa que insistentemente repassamos na cabeça, ou mesmo a previsão ansiosa de algum evento futuro que podemos imaginar ocorrendo de diversas formas.

Sonhar acordado envolve criar uma historinha propriamente dita. Todos nós também fazemos isso em algum grau, principalmente se somos ansiosos. É muito comum pessoas ansiosas imaginarem eventos futuros repetidas vezes, mudando as variáveis a cada vez numa tentativa de se prepararem para qualquer imprevisto. O sonhador compulsivo, contudo, ainda está além de mera pessoa ansiosa que gosta de imaginar eventos futuros para se sentir preparada.

Em inglês, o termo que descreve essas pessoas é maladaptive daydreaming. Em português, contudo, a tradução literal fica muito confusa: sonho acordado maladaptado. Muitos psicólogos têm se referido à condição como transtorno de devaneios excessivos. Outros usam termos como sonhar acordado, transtorno de fantasias compulsivas e vício em sonhos.

A pessoa que tem fantasias compulsivas não apenas devaneia (ela pode sim devanear em alguns momentos), ela cria enredos fantasiosos, vidas paralelas, com personagens fictícios e histórias complexas e cheias de detalhes. Esses enredos podem durar de dias até mesmo anos. Há relatos de pessoas que “convivem” com os mesmos personagens há décadas, com os personagens crescendo e envelhecendo junto com ela. Sonhadores compulsivos relatam que preferem a vida da imaginação à vida normal e que frequentemente evitam contato social para que tenham tempo para se dedicar às suas histórias mentais.

Sintomas também incluem a dificuldade de evitar com que as histórias continuem. Sonhadores compulsivos relatam que na presença de gatilhos, como música, livros, filmes, ou séries de TV, eles têm muita dificuldade de evitar entrar em uma história corrente ou começar uma nova baseada no enredo de um filme ou série. Em alguns casos, sonhadores relatam ter movimentos físicos associados com a atividade como andar em círculos ou balançar corpo ou um objeto. Esse hábito acaba interferindo negativamente na vida do sonhador que acaba deixando de prestar atenção e se engajar com a vida cotidiana para continuar sua vida secreta mental. Muitos relatam problemas nos estudos, baixa performance no trabalho, desatenção crônica, e problemas de convívio social.

A natureza desses sonhos pode variar desde a imaginação de uma vida normal, muito parecida com a do sonhador, mas com os seus personagens imaginários até a fantasia de fama, sucesso, ou mesmo mundos fantásticos de vídeo games e ficção científica. O que há em comum entre essas narrativas é que o sonhador geralmente é amado e valorizado pelos personagens do sonho, evidenciando talvez problemas de autoestima e autoconfiança. Sonhadores também criam em suas fantasias mundos em que eles têm amigos verdadeiros, são bem-sucedidos em suas carreiras (muitos imaginam que são famosos), e superam grandes dificuldades e desafios. Esses sonhos nem sempre refletem os desejos de futuro dos sonhadores. Muitos relatam imaginarem narrativas catastróficas ou extremamente dramáticas em que certos personagens ou eles mesmos passam por doenças sérias ou até mesmo morrem. Muitos afirmam que não desejam viver na vida real essas narrativas, simplesmente gostam do prazer do autoentretenimento. É como criar um filme ou uma série particular na própria cabeça.

Esses sintomas e características que são comuns a quase todos os casos clinicamente analisados de sonhadores compulsivos nos dão algumas pistas com relação às causas do problema. Em estudos científicos feitos nos EUA e em Israel constatou-se que a maioria dos sonhadores compulsivos apresenta ansiedade social e histórico de bullying ou pais excessivamente críticos ou abusivos. Praticamente todos os sonhadores compulsivos entrevistados em estudos já realizados relatam que o hábito de criar fantasias mentais começou na infância ou adolescência como uma válvula de escape para fugir de realidades indesejadas. Nem todos sofreram abusos propriamente ditos. Alguns tinham pais ausentes, outros tinham pais ou familiares como irmãos mais velhos ou tios, que eram excessivamente críticos, outros relatam dificuldades com coleguinhas na escola e a experiência de bullying e discriminação social. O que há em comum é a vontade de tirar a atenção do momento presente.

Como tudo o que é gostoso e aparentemente resolve um problema emocional imediato, as fantasias mentais facilmente se tornam um vício. Em muitos casos, a situação de vida dos sonhadores compulsivos já não é mais complicada e em muitos casos, não há razão para escapar da realidade. Um vício, porém, sobrevive à solução do que inicialmente deu origem ao problema. Muitos pesquisadores hoje estão classificando sonhos compulsivos como um vício comportamental, assim como vício em compras ou vício em vídeo games. Mesmo quando a pessoa não precisa engajar-se em fantasias mentais para se sentir bem, ela o faz porque o cérebro já se acostumou com o prazer proporcionado pela imaginação. Vícios comportamentais são muito difíceis de serem tratados pois envolvem uma rede neuronal complexa assim como a química cerebral. Não basta querer parar ou mudar, o cérebro não deixa. Não há medicamentos para esse tipo de problema, até porque ele mal é reconhecido clinicamente. Muitos psicólogos e psiquiatras nunca ouviram falar de tal transtorno e muitos descartam as reclamações dos pacientes como nada além do normal (afinal de contas, devaneios são normais). Medicação para outros problemas ocasionalmente é usada para tratar sonhadores compulsivos, mas os resultados nem sempre são favoráveis. Eu, particularmente, não sou uma grande fã de medicamentos. Eu acredito que se o problema não é sério a ponto de colocar o paciente em risco de suicídio, nem causa extrema debilidade, os medicamentos podem ser descartados em prol de uma terapia em que a pessoa vai aprender a reprogramar seu cérebro para não precisar mais dos estímulos proporcionados pelo vício, no caso aqui, vício em fantasias mentais.

Esse é o primeiro artigo sobre esse assunto aqui no site. Eu queria apresentar o tópico aos leitores e vou continuar a postar outros artigos aprofundando em particularidades específicas do tema. Sinta-se à vontade para deixar seus comentários, perguntas e sugestões.

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1 comentário em “Você não consegue parar de sonhar acordado? O que é o transtorno de devaneios excessivos?”

  1. Francine, obrigada por escrever sobre o tema. Na na infância eu desenvolvi isso, fantasiava a minha vida dançando no quarto, para fugir de abusos, bullying e ouvir algumas coisas dentro de casa, colocava a música com o som alto e viajava criando vários enredos.
    Hoje, vários sons me irritam, para fugir de várias coisas eu coloco o fone, música bem alta, danço e imagino cenas em que estou muito bem, reconhecida, amada, e bem sucedida.
    Vários momentos não fiz mais isso, diminui muito, mas as vezes volta com uma intensidade maior. Principalmente quando estou vulnerável. Isso atrapalha minha vida, porque o tempo que deveria gastar estudando e me desenvolvendo para ser bem sucedida eu gasto imaginando. Eu sei que poderia ser bem melhor, mas na vida real tenho medo.

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