Como os devaneios excessivos podem atrapalhar a vida real e boicotar seu sucesso?

Franciane Ulaf

Devaneios Excessivos - Maladaptive Daydreaming

Se você não leu o primeiro artigo sobre devaneios excessivos, você pode encontrá-lo aqui:

https://guiadavida.com.br/psicologia/voce-nao-consegue-parar-de-sonhar-acordado-o-que-e-o-transtorno-de-devaneios-excessivos/ (abre em outra aba)

No artigo anterior apresentei o transtorno de devaneios excessivos e expliquei como ele pode se formar na infância ou na adolescência como um mecanismo de defesa, uma válvula de escape para lidar com uma realidade indesejável. Essa realidade pode ter envolvido bullying de colegas na escola, irmãos ou vizinhos, pais e parentes extremamente críticos ou abusivos, emocional ou fisicamente, dificuldades ambientais como crescer num ambiente de pobreza ou conflitos, até mesmo guerra.

A criança ou adolescente aprende que apesar da vida ser difícil ela pode ir onde quiser mentalmente e então ela começa a criar fantasias elaboradas, amigos invisíveis, enredos em que ela é feliz, ou é o herói, e é apreciada e amada pelos pais e amigos. Com o passar do tempo, esse mecanismo de fuga se torna um hábito e então um vício.

Na vida adulta, a pessoa que aprendeu a se esconder da vida dentro de sua cabeça acaba desenvolvendo uma série de hábitos autossabotadores e ineficazes que terminam por boicotar sua vida social, amorosa e profissional. A motivação que a maioria das pessoas tem na vida para perseguir metas, se envolver com outras pessoas em contextos sociais, amorosos e sexuais, conquistar o sucesso profissional, e ter experiências diversas vem, em grande parte, do desejo de vivenciar as sensações, emoções e estímulos que essas situações e conquistas desencadeiam. O desejo de “viver a vida” de “sentir-se vivo” é um grande fator motivador e para isso é preciso ter experiências reais. Ou não?! A pessoa que tem a fantástica habilidade de imaginar vividamente cenários e pessoas, criando uma realidade paralela em sua cabeça pode se sentir satisfeita somente com a sua imaginação. A vida real acaba se tornando insossa. Enquanto na imaginação a pessoa pode controlar o comportamento e reações de seus personagens imaginários, na vida real, as pessoas têm vontade própria e fazem o que querem – o que nem sempre coincide com a preferência do sonhador. Enquanto no mundo imaginário pessoas difíceis e obstáculos compõem um bom drama que entretém o sonhador, na vida real, as pessoas difíceis afetam a qualidade de vida do sonhador e os obstáculos exigem esforço para serem ultrapassados.

O efeito da imaginação na neuroquímica cerebral pode ser devastador. O cérebro não é muito bom em distinguir realidade de fantasia (mesmo que nós conscientemente saibamos exatamente o que é real e o que não é). Quando damos algo ao cérebro que dispara as redes de prazer, como nos imaginar tendo uma experiência que nos faz sentir bem, o cérebro quer mais daquilo. Esse é o processo que leva aos vícios. Hoje em dia, já se entende que os vícios comportamentais são tão poderosos quanto os químicos, envolvendo os mesmos neurotransmissores. Quando um sonhador compulsivo imagina a vida perfeita por muito tempo, o cérebro passa a acreditar que aquela é a sua vida, que aquelas pessoas imaginárias são reais, que aquelas situações fantasiadas realmente ocorreram. Quando a vida real vem à tona, o cérebro reage com antipatia. Um exemplo clássico é a pessoa que sonha com o parceiro ou parceira perfeita. Aquela pessoa imaginária é completamente controlada pelo sonhador. Até mesmo seus defeitos e erros são estrategicamente calculados para efeito de drama dentro da fantasia. O cérebro se acostumou a amar aquela figura imaginária. Quando a pessoa conhece alguém real, as decepções são frequentes e rápidas. As pessoas reais podem parecer perfeitas à primeira vista, mas quando a convivência começa, os defeitos aparecem – e esses efeitos não têm qualquer papel dramático na história da vida real, eles são apenas defeitos. O sonhador que se acostumou com seu modelo de par perfeito não consegue evitar a comparação da pessoa real com sua imaginação, e nessa briga, o avatar sempre sai ganhando. Esse processo não ocorre somente com relações amorosas. Sonhadores compulsivos geralmente imaginam pais, amigos, colegas de escola e trabalho que jamais podem ser ultrapassados pelas pessoas reais, que além de naturalmente imperfeitas, têm vontade própria e podem ocasionalmente magoar ou contrariar o sonhador. Enquanto amigos reais chamam o sonhador à realidade e o criticam quando não concordam com ele, os amigos imaginários (que podem até mesmo ser versões “melhoradas” dos amigos reais) o aprovam em tudo e jamais o criticam. A tendência é o sonhador compulsivo se afastar das pessoas e ter um círculo social limitado, já que invariavelmente todos acabam o decepcionando em algum ponto – as pessoas reais nunca são tão perfeitas quanto as imaginárias.

A carreira também é afetada pela perfeição da vida imaginária. Muitos sonhadores fantasiam com fama, dinheiro, e estrondoso sucesso profissional. Muitos sonhadores apresentam deficiência de autoestima e uma carência imensa de aprovação alheia. Em suas mentes, essas carências estão sendo supridas, dando ao cérebro o que ele deseja. Como fica a realidade numa situação dessas? A vida cotidiana acaba não refletindo, nem parcialmente, o que a imaginação é capaz de produzir e a pessoa perde a motivação para perseguir metas profissionais ou mesmo tentar conseguir o sucesso de sua imaginação na vida real. Quando o cérebro já está satisfeito (pois os sonhos já estão realizados na mente), ele não dá energia para que a pessoa possa persistir frente a obstáculos e desafios para conquistar algo na vida real. A motivação para que a pessoa suporte as dificuldades do caminho até uma meta vem justamente da carência da sensação de alcançar o objetivo e obter as vantagens e benefícios que aquela conquista traz. Em outras palavras, a motivação é um impulso para que tentemos conseguir aquilo que não temos. Mas e quando o cérebro acredita que a pessoa já conquistou aquilo? Não há motivação alguma. Veja que o que o cérebro “pensa” não é o mesmo que nós pensamos. Podemos dizer que nossa mente consciente sabe de coisas que o cérebro não sabe – e vice-versa.

O impacto desse comportamento na autoestima é dilacerante. A pessoa conscientemente sabe que ela não é realmente famosa, nem rica, nem tem um parceiro ou parceira perfeita. Ela é viciada em sua imaginação, mas ela tem vontade de que alguns de seus sonhos se tornem realidade. Há dois problemas sérios aqui. O primeiro é que quanto mais alto a pessoa sonha, mais improvável é que ela realmente vá conseguir alcançar seus desejos. Essa improbabilidade significa que a vida dela será sempre uma sombra de suas fantasias. O segundo é que objetivos reais exigem esforço real e muito suor. Isso é desconfortável. Ninguém gosta de ralar, não é mesmo?! O sonhador compulsivo desenvolveu esse hábito justamente para escapar do desconforto da vida. Seu cérebro aprendeu que ao menor sinal de chatice, desconforto, tédio, conflito ou dor, basta se voltar para dentro. Há prazer o suficiente em sua imaginação para compensar a parte indesejável da vida. É muito difícil convencer o cérebro a engajar com algo que ele acredita não ser necessário. Se o sonhador sempre fugiu de desafios e dificuldades, buscando consolo em histórias onde era o herói, admirado e amado por todos, por que é o cérebro vai concordar em se envolver com atividades difíceis, chatas, entediantes e que não lhe proporcionam qualquer prazer?

Todo vício é um vício em prazer e o devaneio excessivo não deixa de ser também uma compulsão por sensações prazerosas. A pessoa aprende a se fazer sentir bem a qualquer momento e deixa de precisar que as experiências reais tenham esse papel. No final das contas, os sonhos do sonhador só se realizam em suas fantasias. A vida real se torna ainda mais entediante e insossa, já que esforços não são empreendidos na construção de uma vida mais ativa e excitante.

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3 comentários em “Como os devaneios excessivos podem atrapalhar a vida real e boicotar seu sucesso?”

  1. Estou vivendo exatamente tudo que o texto disse, mas como e porque parar? Na minha imaginação sou feliz, fora dela não . Acho que vou continuar. Se usasse cocaina ou alcohol teria problemas, mas como estou sou funcional, apenas solitária, mas acredito que é impossível mudar com a minha idade. Gostei de ler para entender que não sou a única a ver o mundo desta forma

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  2. Eu idealizei em meus devaneios uma pessoa por 2 anos,uma pessoa conhecida e já estava completamente apaixonada por essa pessoa(dos devaneios).Mas essa pessoa existe,havia perdido o contato.Hoje uma amiga do trabalho falou dessa pessoa e peguei o número de telefone e logo mandei uma mensagem de whatsapp..nossa a pessoa foi super formal comigo,um verdadeiro banho de água fria.Agora não sei nem o q estou sentindo,um gelo por dentro sabe,assustada e pensando no perigo que são os devaneios excessivos. Eu sinceramente preferiria continuar no mundo de ilusão,pois a realidade é muito dura as vezes. Meu conselho: parem enquanto dá tempo.

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