Como lidar com a decepção de sonhos frustrados?

Franciane Ulaf

Decepção e frustração

Muita gente deixa de rir com medo de chorar, prefere não arriscar com medo de se decepcionar. Trocam a felicidade pela segurança. Essa “estratégia” parece tão coerente, não?! Na realidade, de coerente ela não tem nada, pois o resultado de toda essa precaução é justamente o que se está tentando evitar: frustração e decepção!

Como falo muito sobre planejamento, definição de metas, objetivos, muita gente me confessa que não gosta muito dessa “prática”, que é melhor deixar a vida rolar, que muitas vezes as surpresas da vida são muito melhores do que o que podemos imaginar, e sendo assim, planejar. Às vezes eu não falo nada, deixo quieto, quem sabe essas “surpresas” da vida um dia podem dar uma lição de planejamento para essas pessoas. Outras vezes, porém, quando encontro oportunidade, eu explico porque essa visão livre, leve e solta na realidade é completamente contrária ao próprio propósito dela mesma e como o planejamento é que dá a oportunidade para viver uma vida de aventuras.

Para começar vamos pensar com um pouquinho de lógica!

Planejar não é uma ferramenta (por mais que tentemos) para controlar o destino. A vida vai continuar acontecendo independente da nossa vontade e das nossas ações. O mundo, as outras pessoas, as intempéries do acaso, ou seja, as maravilhosas (ou horrorosas!) surpresas da vida vão continuar acontecendo para nós, quer planejemos ou não. Mas então por que planejar? Essa é, na realidade, uma pergunta pouco lógica! O planejamento nunca deve ter intenção de “controlar” a vida em si. O planejamento tem objetivo de guiar a concretização de uma meta específica, só isso. O resto da vida vai continuar à mercê do acaso, como não poderia deixar de ser.

Ou seja, na prática, todas as surpresas boas que podem acontecer na vida de uma pessoa vão continuar tendo probabilidade de acontecer, mas da mesma forma, as surpresas ruins também continuam firmes e fortes em sua roleta russa! Existe uma diferençazinha, contudo, que torna a pessoa que planeja mais apta a se sair bem ao lidar com as surpresas negativas: a preparação para os diversos problemas eventuais que podem surgir na vida. Quem vira a cara para o planejamento porque quer viver a vida adoidado, se vê desesperado quando alguma surpresa negativa aparece. Não houve preparação, nem sequer um segundo de reflexão prévia para avaliar como se sair em uma situação daquelas.

Mas isso nós já discutimos bastante por aqui! O objetivo deste artigo é falar sobre outro aspecto do “medo” que envolve a ideia de planejar: o receio de se decepcionar com os resultados depois de tanto esforço.

Quem sofre desse tipo de medo, com frequência cai também naquele grupo dos que me dizem que é melhor “deixar a vida levar”. Há uma percepção (falsa) de que ao manter as expectativas baixas, as chances de se decepcionar com a vida são pequenas. Mas por que essa perspectiva é “falsa”? Não seria mesmo correto não ter expectativas e tudo o que vier é lucro?

Mais uma vez, essa é uma confusão com conceitos abstratos. A resposta é sim e não dependendo do ponto de vista. Altas expectativas invariavelmente nos colocam em uma posição crítica para desapontamentos, isso é óbvio. Nem tudo acontece como a gente quer e quando queremos demais, estamos cavando a cova da decepção. Mas por outro lado, simplesmente não ter nenhuma expectativa sobre nada na vida é apenas a receita mais certeira para a mediocridade. Se você não se decepcionar com uma vida mediocre (ou com essa possibilidade), eu não sei o que te dizer…

Ou seja, a conclusão é que o simples ato de viver e tentar crescer e prosperar já naturalmente nos coloca em uma posição vulnerável. Nós sempre podemos nos decepcionar e nos frustrar com os resultados. A questão é que para realmente furar esse bloqueio do medo e seguir em frente, nós devemos perder esse medo.

Não fazer nada e simplesmente “esperar” pacivamente pelas “surpresas” da vida não é o antídoto para a decepção. Surpreendentemente, ao contrário do que pensam os “despreocupados”, a inércia dá luz a um conjunto de emoções e sentimentos muito piores do que os causados pelas coisas que não deram certo e os sonhos que viraram areia. O fantasma da hesitação é capaz de nos perseguir para o resto da vida. Quando não tomamos atitude alguma, quando não fazemos nada em direção às coisa que queremos alcançar, mesmo que não consigamos colocar nossos sonhos em palavras em forma de metas, sempre ficaremos com aquela pulga atrás da orelha, nos questionando sobre o que poderia ter acontecido se tivessemos tido a coragem, a proatividade e a iniciativa de seguir em frente. Podemos ficar para o resto da vida com aquela dúvida. Talvez aquela ideia ousada, aquele sonho que nunca saiu da cabeça poderia ter resultado em experiências extremamente positivas, sucesso inimaginável e muitas alegrias. Poderia ter resultado no completo contrário também, mas será que a sensação de nunca saber o que poderia ter sido não é pior do que o fracasso em si?

Uma coisa é certa, a vida largada ao acaso tende apenas a se deteriorar. Surpresas e aventuras só acontecem nos filmes, na vida real é preciso reflexão, organização e preparação para manter um nível progressivo e satisfatório de desempenho e conquistas.

Ao andar pra frente nós corremos o risco de não gostar do que encontramos, mas ao ficarmos parados, a decepção é ainda maior. O segredo é simplesmente não se importar com expectativas quebradas. Quanto menos “bola” você dá para as coisas que não dão certo, mais chances de ser muito bem sucedido você tem. O caminho do sucesso em qualquer área, mesmo na vida pessoal, depende da predisposição para lidar com a frustração. Veja o clássico exemplo dos relacionamentos amorosos. Há quem tenha tanto medo de se decepcionar que não se envolve com ninguém. É a solução? Claro que não! Da mesma forma, não planejar não é a solução para não se decepcionar com expectativas futuras.

A verdade é que expectativas para o futuro todos têm, aqueles que planejam e aqueles que não planejam. Esperar prosperidade, sucesso e coisas positivas e felizes é simplesmente humano. A diferença é que alguns dão nome para essas expectativas em forma de metas e objetivos, enquanto outros as mantêm na esfera abstrata dos sonhos não interpretados.

Lidar bem com a decepção e com a frustração sai da esfera do planejamento e entra na psicologia. Quem tem um perfil muito mimado, o “eu quero isso e quero que seja do meu jeito, se não for, vou dar o maior piti”, geralmente se decepciona facilmente. Solução? Se dar conta de que o mundo tem direito de ser do jeito que for, sem seu consentimento. Se uma coisa não der certo, tente outra. Acima de tudo, é importante não se envolver emocionalmente com as expectativas. Expectativas todos nós temos, é natural e é muito saudável, é o que nos impulsiona para frente. Agora, para evitar o desmoronamento ao ver que alguma coisa que queremos muito não deu certo, o ideal é ampliar a visão de mundo e não enxergar um fracasso ou uma porta fechada como o fim de tudo, o fim das esperanças, o fim daquele sonho e nem levar para o lado pessoal. Muito importante também é não interpretar um eventual fracasso como prova de que então é melhor mesmo não planejar, pois como já vimos, isso é falsa lógica.

A postura ideal é dar liberdade ao mundo e a si mesmo, se permitindo viver livremente, mas com metas e objetivos. É como surfar ou velejar, é possível se direcionar para onde se quer ir sem tentar manipular a natureza, ou seja, sem tentar controlar os outros ou as circunstâncias, mas ao mesmo tempo se direcionando organizadamente aos seus propósitos pessoais, devidamente planejados.

Quem entende que planejar não é sinônimo de controlar e que as tão “românticas” surpresas da vida não vão deixar de acontecer. Quem planeja sem esperar que tudo ocorra como imaginado vive mais tranquilo, mais feliz e mais satisfeito com os resultados que obtém na vida. E no final das contas, não é justamente esse o objetivo de se viver?

No próximo artigo, falamos sobre o que fazer quando a vida não acontece da forma como desejamos.

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5 comentários em “Como lidar com a decepção de sonhos frustrados?”

  1. Um exemplo que todos podem compreender facilmente é o vestibular. O aluno que quer passar em uma faculdade difícil, uma federal, uma USP, precisa se dedicar, planejar, se organizar para estudar todo dia. Não adianta só ter pensamento positivo, “rezar para passar”, torcer para que tudo dê certo, nada disso vai adintar se ele não tiver a proatividade de fazer alguma coisa todo dia em prol do seu objetivo de passar.

    Muito bom o artigo e esse menininho da foto é muito fofinho!!

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  2. É verdade… as pessoas não param pra pensar nisso… Se vai acontecer alguma surpresa, alguma coincidência significativa, algum encontro de destino na sua vida, isso vai acontecer de qualquer jeito, quer você planeje algumas metas ou não. É muito engraçado na verdade que muitas pessoas acham que se elas planejarem, ah, então a vida vai ficar sem graça, previsível, controlada, engessada, mas isso não tem nada a ver. Se você não planeja, tudo o que você vai conseguir é ser um perdedor medíocre, que não consegue nem pagar suas continhas básicas e reza pra que chegue logo as férias pra lotar o carro e descer pra praia!

    Conquistar as coisas na vida exige foco, direcionamento e ação concatenada e organizada pra ser capaz superar a força do cotidiano e das obrigações e conseguir fazer o que você quer fazer para conseguir seus sonhos. Sem planejamento isso não é possível.

    Abraço a todos!

    Eliane

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    • Vou acrescentar uma sigla que tem o nome engraçado e que ninguém mais vai esquecer. Ela aumenta muito as chances de que seus sonhos e metas sejam atingidos. A sigla é FODE ( pode rir). Significa Foco, Organização, Disciplina e Entusiasmo. Observe que, sem esses 4 elementos, as coisas ou NÃO acontecem ou DEMORAM MUITO a acontecer.
      Abs, Joaquim

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  3. No momento de uma frustração nenhuma palavra serve de alento. A vontade e de retirar tal instante da vida, caso fosse possível. Porém a superação abre possibilidades e ainda pode te presentear com a sabedoria. Parabéns pelo matéria, o livro. Simplesmente extraordinário.

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